A notícia da nomeação da irmã Nirmala para substituir Madre Teresa apanhou-me em Calcutá às portas da sede das Missionárias da Caridade. Era março de 1997 e já se sabia que a Nobel da Paz estava muito doente. Por isso, e aproveitando estar com colegas do Times e do Le Monde, tentei uma entrevista com a irmã Nirmala, uma hindu convertida ao catolicismo. Afinal, era a hipótese de se dar a conhecer ao mundo através de jornais europeus. Uns bons minutos depois veio a resposta curta e seca, trazida por uma freira de sari azul e branco: não havia tempo para conversas, havia demasiada gente pobre e doente para ajudar..E as Missionárias realmente ajudavam e ajudam muito. Sobretudo em Calcutá, pujante capital cultural bengali (mais de 200 milhões de falantes entre a Índia e o Bangladesh), mas também metrópole cheia de desigualdades, pejada de bairros miseráveis. As crianças deficientes que vi num dormitório das freiras tinham sido salvas de morrer na rua..Numa Índia onde os cristãos são só 3% e em boa medida legado de Portugal, como provam os apelidos Fernandes ou Dias, a albanesa Anjezë tornou-se heroína como Madre Teresa de Calcutá. Aquela que hoje se torna santa não deixou, porém, de ser muito criticada por defender a caridade como remédio para a pobreza. Mas o surpreendente é que concorrendo no campo das ideias com o governo comunista do Bengala Ocidental, para o qual a reforma agrária e o planeamento familiar eram as receitas contra a miséria, Madre Teresa se tenha dado tão bem com Jyoti Basu, ministro--chefe entre 1977 e 2000. O líder comunista até organizou o grandioso funeral da freira, em setembro de 1997, comparecendo em pessoa, só depois de terminados os ritos religiosos, para presidir às cerimónias oficiais..Calcutá relembra ambos com carinho. Podiam discordar no modo como acabar com a miséria e o sofrimento, mas concordavam em que os pobres eram a prioridade. Uma lição para a Índia e uma lição para o mundo, a amizade entre esta santa e este ateu (morreu em 2010).