O Senado Federal deve dar hoje mais um passo rumo à destituição de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), ao votar favoravelmente, com larga maioria, o relatório que sugere a aprovação do impeachment. Mas a sessão, entretanto, já está com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) enviado pela defesa da presidente. Ela, o governo e o PT decidiram resistir até ao fim contra o que classificam de "golpe institucional" e avisaram a oposição e a imprensa que vão "morrer atirando"..Alega a advocacia-geral da união, órgão que defende a presidência, que Eduardo Cunha, membro do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB) e líder afastado da Câmara dos Deputados que deu início ao processo de impeachment, agiu com "desvio de poder" ou "desvio de finalidade". Isto é, para o advogado-geral José Eduardo Cardozo o que motivou Eduardo Cunha a aceitar o pedido de destituição foi um projeto de vingança pessoal e não um crime de responsabilidade de Dilma. Cardozo baseia-se na decisão de Teori Zavascki, juiz do STF que determinou o afastamento de Cunha com base nesses desvios..Mas depois da votação na Câmara dos Deputados, na qual a oposição atingiu 367 votos, mais 25 do que os necessários para avançar com o processo, e após a consulta das próximas horas aos senadores, em que está previsto que mais de 50 de um universo de 81 optem pelo impeachment, é tido como improvável que a mais alta instância do poder judiciário revogue a decisão das duas casas legislativas..A ordem no Palácio do Planalto e no PT, no entanto, é essa neste momento: resistir. O ataque final dos apoiantes do governo será dado nos próximos seis meses, período durante o qual dura o afastamento do poder de Dilma e em que terão de convencer um terço dos senadores a votar pelo seu regresso à chefia do governo em vez de Michel Temer, do PMDB, o seu atual vice-presidente e mais do que provável sucessor..[artigo:5167886].Para desenhar estratégias para os próximos seis meses, o ex-presidente Lula da Silva (PT) e Dilma devem reunir-se nos próximos dias. A ideia do partido é não dar tréguas ao governo de Temer em Brasília, nos tribunais e nas ruas. Uma amostra do poder de mobilização do (ainda) partido do governo foi dado ontem com manifestações contrárias ao impeachment protagonizadas por apoiantes do governo e por membros de centrais sindicais e de movimentos como o Movimento dos Sem Terra e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em 17 estados e no Distrito Federal. Houve estradas fechadas, fogos ateados e agressões a jornalistas da TV Globo, tida como mais próxima da oposição.."Regado a pinga".Mas o país político ainda vivia ontem a ressaca da decisão do presidente da Câmara dos Deputados interino Waldir Maranhão, do Partido Progressista (PP), de anular a votação do impeachment do dia 17 de abril. E ressaca é a palavra exata, de acordo com Gilmar Mendes, membro do STF próximo do oposicionista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). "É interessante, hoje eu li uma coluna a dizer que a decisão dele foi regada a pinga [cachaça] e vinho, isso explica um pouco as coisas"..Maranhão, que durante a madrugada de terça-feira revogou a sua própria decisão, não comentou as palavras do juiz. O substituto de Eduardo Cunha está agora a ser pressionado a renunciar ao cargo para permitir novas eleições na presidência da Câmara. Os líderes parlamentares dos partidos da oposição, ainda indignados com a sua atitude na véspera, fizeram-lhe um ultimato ontem nesse sentido. "Ele diz que vai dar-nos uma resposta nas próximas horas", disse o deputado Giacobo, do Partido da República. A atitude dos deputados oposicionistas teve a bênção de Cunha, que acompanha as movimentações de sua casa, e de Temer, que pretende ver alguém da sua confiança num cargo considera essencial para a governabilidade..[artigo:5164013].O próprio PP, partido que trocou a base governamental pela oposição na esteira do PMDB, cogita a possibilidade de expulsar Maranhão, depois do seu pedido de anulação da votação do impeachment na Câmara sem consultar o partido..Outro assunto que ocupou parte dos trabalhos no Congresso Nacional foi o da discussão sobre a eventual perda de mandato de Delcídio do Amaral, ex-senador do PT, que se tornou delator da Lava-Jato..São Paulo