"Se fosse contra Jeb Bush seria mais difícil. Trump até joga a favor de Hillary"

Co-autora com Bernardo Pires de Lima do livro Administração Hillary, a investigadora Raquel Vaz Pinto admite que a ex-primeira dama é uma figura polarizadora.
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Como surgiu a ideia de escrever este livro Administração Hillary?

Quando decidimos fazer este livro não era ainda claro quem seria o candidato republicano, nem se percebia que Hillary ia ter a vida tão complicada por Bernie Sanders. O que procurámos saber - e assumimos o lado de quem gostaríamos que estivesse na Casa Branca - no fundo era para nós europeus, para nós portugueses, o que podemos esperar dessa Administração Hillary. Esse foi o nosso objetivo. A nossa primeira conversa foi sobre esta encruzilhada dos EUA entre o Pacífico que é a minha aérea de trabalho e o Atlântico que é uma área que o Bernardo [Pires de Lima] trabalha, e a partir daí foi evoluindo para uma caracterização, uma figura e o seu pensamento. Ao contrário de Trump, Hillary Clinton tem muitos, muitos anos de serviço público e é fácil perceber o que ela pensa sobre os assuntos.

Por ter um olhar feminino, uma Administração Hillary será diferente de tudo o que já existiu?

Acho que sim. Sem dúvida é importante ter uma mulher na Casa Branca. E aqui há duas questões. A política no feminino e o que pode ser novidade na sua Administração. A política no feminino pode ser muito importante... não tanto em relação à Europa, onde há estruturas transatlânticas, onde a questão do género talvez faça menos diferença, mas ainda assim é interessante ver que temos em Berlim Angela Merkel pelo menos até ao ano que vem e temos em Londres Theresa May. E elas têm também aqui dois dossiês muito complicados para gerir, não só o brexit, mas no caso da Alemanha, os próprios cenários de evolução da UE.

E a evolução da extrema-direita...

Claro. Ou, do lado do Reino Unido, toda esta gente extremamente descontente e que aproveitou o referendo para se manifestar. Em termos de política no feminino, um excelente exemplo é a relação entre Hillary e a grande figura da Birmânia, Aung San Suu Kyi. Na Ásia-Pacífico temos outros exemplos: Taiwan, que tem pela primeira vez uma mulher chefe de Estado ou a presidente da Coreia do Sul. Outro aspeto importante é o que geralmente se chama Doutrina Hillary. Essa doutrina tem no seu cerne os direitos das mulheres. E aqui Hillary tem um pensamento coerente. Destacaria o discurso que ela fez em 1995 na conferência das Nações Unidas sobre os direitos das mulheres na China, em Pequim, enquanto primeira dama. Foi um discurso fabuloso, o discurso de uma vida. Na altura ela disse o que para nós ocidentais parece redundante: que direitos das mulheres são direitos humanos e direitos humanos são os direitos das mulheres. Outro aspeto importante é que Hillary não é uma pacifista. Ela rejeita esta associação feita por alguns movimentos feministas de que por se ser mulher é-se pela paz. Hillary é, com algumas honrosas exceções, descrita como um falcão.

Esse é o lado positivo de ser mulher, mas ser mulher na política americana não é um obstáculo?

Ela em primeiro lugar é uma figura polarizadora. Não se consegue ficar indiferente. Ela teve sempre esse papel muito interventivo. Não foi capaz de entender o papel de primeira dama de forma estática ou meramente protocolar. E isso explica-se porque ela é muito mais Hillary do que Clinton. Reduzi-la ao sobrenome Clinton não lhe faz justiça e não ajuda a compreender o que ela é na verdade. Para entender, temos de recuar e olhar o seu percurso político, de sucesso profissional, depois o papel como primeira dama do Arkansas, a discussão que houve por ter querido manter o nome de solteira. Queria ser Hillary Rodham Clinton e gerou controvérsia. Tem convicções fortes. É uma workaholic. Todos o reconhecem. E tem estado no centro de todas as atenções sobretudo desde que foi primeira dama. Nela observa-se uma tensão muito grande entre tentar preservar a vida privada e estar no centro das atenções. Sobretudo tendo um marido que já foi presidente dos EUA, é um exercício muito complicado. Além disso, ao longo de tanto tempo, criou anticorpos em vários setores. O setor feminista/pacifista não lhe perdoa o apoio à invasão do Iraque. Há um setor feminista que não lhe perdoa ela ter perdoado a Bill Clinton o affair com Monica Lewinsky. Quando comecei a escrever este livro achava que ser mulher não era importante. Mas hoje em dia acho que é extremamente relevante. E ela tem falado sobre a ideia dos telhados de vidro, os glass ceilings. Aquelas barreiras que não se veem, que são inconsciente, mas que estão lá. Se é verdade que é nas democracias liberais que os direitos das mulheres são melhor defendidos e promovidos, ainda falta aqui um degrau: a transferência destes direitos para o mundo político.

Um dos momentos marcantes do debate entre Hillary e Trump é quando ela lhe lança à cara que não só se preparou para o debate como está preparada para ser presidente. Essa preparação é essencial?

Uma coisa que é consensual entre os analistas é que quando Hillary é candidata ou não está no exercício de um cargo público, não é muito popular. Mas quando está a exercer um cargo público, é extraordinariamente popular. Mais, muitas vezes, as comparações a que está sujeita são muito difíceis. Há duas inevitáveis. Com Barack Obama e com Bill Clinton. Ela não tem a capacidade retórica de nenhum deles - que são políticos extraordinários. Ela não tem o dom da palavra.

Por ser tão imprevisível, Donald Trump é o pior pesadelo que uma Hillary hiper preparada e cerebral podia ter?

É justamente isso que faz a diferença. Se a corrida fosse com um candidato mainstream como Jeb Bush ou, até certo ponto, Marco Rubio, seria mais difícil para Hillary. A linguagem seria a mesma, as propostas seriam sensatas e haveria mínimos olímpicos. Com Trump não há mínimos olímpicos. Para mim, uma das forças dela, se não se deixar enredar naquela discussão histérica, é parecer uma rocha. Alguém que sabe, que pensa, que está preparada e sabe ao que vem. Por exemplo, uma pessoa como Ted Cruz, que não é de todo mainstream, mas é muito articulado, muito preparado, com muita noção do que é a comunicação e a retórica, podia ser mais complicado para Hillary. Por isso Trump até pode funcionar a seu favor.

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