"Não devia ser um desconhecido em Portugal, sempre que posso falo nele". As palavras são do embaixador António Monteiro, o homem que levou João Madureira para Nova Iorque quando ocupou o cargo de representante permanente de Portugal junto das Nações Unidas, em 1997. Agora, o profissional que tanto admira foi o único português escolhido por António Guterres, o secretário-geral designado da ONU, para a sua restrita equipa de transição. "Tinha ótimas referências dele, que depois de o conhecer e trabalhar com ele ficaram aquém da realidade", sublinha o diplomata..João Miguel Pombinho Soares Madureira nasceu a 24 de maio de 1955 em Lisboa. Atualmente, e até 31 de dezembro, conforme consta do despacho da sua nomeação publicado em Diário da República, desempenha o cargo de "Conselheiro Técnico para os Assuntos Regionais na Missão Permanente de Portugal junto da Organização das Nações Unidas (ONU).".Mas as competências deste licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa vão muito para lá de um despacho. "Foi ele que me ajudou quando Portugal presidiu à Comissão de Sanções ao Iraque, em 1997 e 1998. Ele acompanhou-me muito nas questões das sanções. Ele era o meu braço direito nesses temas", recordou ao DN o diplomata..Os elogios de António Monteiro para João Madureira são mais que muitos e vão desde "notável", a "grande jurista" e "elemento imprescindível". "Ele é uma daquelas pessoas que reúne unanimidade. Tem enormes qualidades humanas, as pessoas confiam nele. É muito respeitado dentro da ONU, é uma peça de extrema importância", reforça o embaixador. "É também muito bem disposto. Não me lembro de o ver mal disposto, nem mesmo quando as coisas se complicaram em relação ao Iraque", lembra..A socialista Ana Gomes esteve com os dois nas Nações Unidas em 1997 e 1998. Chama "amigo" ao agora conselheiro de Guterres e, num texto que publicou em 2004 no blogue Causa Nossa, não lhe poupa elogios, escrevendo que "ele tornou-se uma autoridade sobre o Iraque, reconhecida por todos em Nova Iorque e pelo Secretariado da ONU, que continuou a consultá-lo amiúde para além do nosso mandato no Conselho de Segurança"..A ligação de Madureira à ONU também se confunde com a vida pessoal. A mulher, Marta Santos Pais, tem feito carreira na UNICEF e é, desde 2009, representante especial do secretário-geral da ONU para a Violência contra as Crianças. "A Marta é uma mulher extraordinária. São um casal fora de série", contou ao DN António Monteiro. Que lembra que "os dois já eram casados quando ele foi para Nova Iorque comigo. Têm uma filha encantadora, a Madalena, que agora já é adulta"..Passagem por Bruxelas.Entre 1975 e 1981, exerceu funções como secretário do secretário de Estado dos Assuntos Judiciários e do secretário de Estado da Justiça e como adjunto dos gabinetes do ministro da Justiça e do secretário de Estado da Administração Pública. Já em 1982, tornou-se técnico superior do Gabinete de Documentação e Direito Comparado da Procuradoria-geral da República, tendo assumido o cargo de assessor do mesmo gabinete a partir de 1994. Depois todo o seu percurso foi feito na ONU, com um intervalo no início dos anos 2000, até fevereiro de 2006, quando foi assistente no Parlamento Europeu em Bruxelas..Até ser chamado para a equipa de transição de Guterres, Madureira era ministro conselheiro da Missão Portuguesa, ocupando-se de áreas como tribunais internacionais, terrorismo e sanções, entre outros. Mas também da reforma da ONU e do Conselho de Segurança..A questão do Conselho de Segurança é aliás um tema sobre o qual já se debruça há bastante tempo. Na edição da primavera de 2003 da revista Nação e Defesa, escrevia que a necessidade de reforma deste organismo era "inquestionável". "A sua composição revela-se desajustada face ao crescente número de membros da Organização das Nações Unidas e desequilibrada face às novas relações de força no mundo atual. A resistência de certos Estados a uma reforma que abra a porta à criação de novos membros permanentes, (...) são apenas algumas das questões que têm travado o avanço do processo de reforma do CS", defendia então Madureira.