Com as suas camas de betão e retretes turcas, o Complexo Médico-Penal não é provavelmente o lugar onde os executivos de topo das indústrias da construção e do petróleo tinham imaginado passar as suas reformas..Normalmente reservada para prisioneiros doentes mentais, a prisão encontra-se no fim de uma estrada esburacada, nas margens do reservatório de Iraí no estado do Paraná, no Sul do Brasil. Do lado de fora, um arco de tijolos em ruínas na entrada do CMP dá-lhe o aspeto de uma fazenda decadente. No entanto, uma vista aérea revela o seu sinistro desenho, com as celas dispostas na forma de uma metralhadora gigante..Durante a maior parte do ano passado foi a residência de Marcelo Odebrecht, diretor do maior grupo de construção da América Latina; de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, o maior partido político do Brasil, e de outros líderes suspeitos do grande escândalo de corrupção na Petrobras, a companhia petrolífera..A Polícia Federal em Curitiba, capital do estado do Paraná, que está a conduzir a investigação de subornos, viu-se obrigada a transferir muitos dos detidos no esquema de suborno e corrupção para o CMP em março do ano passado, depois de a esquadra de polícia da cidade ficar sem espaço..Aquilo que inicialmente era uma investigação sobre lavagem de dinheiro num posto de gasolina, o escândalo de corrupção Lava-Jato transformou-se na maior investigação do Brasil, não só pondo à prova os recursos da polícia mas criando também um enorme desafio aos advogados criminais do país..Um cálculo simples mostra a dimensão do problema. Após dois anos de investigações sobre o esquema, em que executivos da Petrobras e os seus contratantes conspiraram com políticos para desviar milhares de milhões de dólares dos contratos da empresa de petróleo, as autoridades fizeram 166 detenções e 105 condenações, emitindo penas de prisão que totalizam 1141 anos. Milhares de pessoas têm sido interrogadas..No entanto, os advogados dizem que o Brasil tem menos de 30 escritórios de advocacia capazes de assumir um caso destes. Espera-se que, encorajados pela Operação Lava-Jato, a Polícia Federal e o Ministério Público do Brasil venham a ter ainda mais trabalho nos próximos anos, à medida que tentam reprimir a cultura de corrupção e de impunidade do país..Em maio, a polícia indiciou o presidente executivo do Bradesco, o segundo maior banco privado do Brasil, relativamente a uma investigação separada sobre subornos nas repartições de finanças do país. A Operação Zelotes, como a investigação é conhecida, já implicou altos executivos da siderúrgica Gerdau e Joseph Safra, um banqueiro e o segundo homem mais rico do Brasil. Todos negam ter cometido infrações.."A parte mais difícil é quando se tem um cliente que está realmente detido e o prazo para agir é muito curto", diz Antônio Carlos de Almeida Castro, advogado do banqueiro bilionário André Esteves, que foi preso em novembro por alegadamente conspirar para comprar uma testemunha do processo Lava-Jato. Depois de três semanas de prisão na notoriamente perigosa cadeia de Bangu no Rio de Janeiro, onde Esteves teve de rapar a cabeça para manter os piolhos afastados, o fundador da BTG Pactual viu ser-lhe concedida a prisão domiciliária e, mais tarde, foi libertado pelo Supremo Tribunal enquanto se aguardam novas investigações. Ele nega as acusações..No entanto, enquanto a carga de trabalho adicional tem valido aos advogados criminais do Brasil noites sem dormir, ela trouxe-lhes também a fama e - de uma forma ainda mais significativa - a fortuna..Como disse um advogado: "Quando o cliente é subitamente atirado para a cadeia fica menos propenso a querer negociar o valor dos honorários e custas legais.".Alexandre Bertoldi, sócio-gerente da sociedade de advogados Pinheiro Neto em São Paulo, diz que viu advogados de crimes de colarinho branco no país a cobrarem qualquer coisa entre os 500 mil reais e os 10 milhões de reais (128 mil euros e 2,5 milhões de euros) por "pacotes" iniciais de representação.."Quando alguém é posto em prisão preventiva, a primeira tarefa do advogado é tirá-lo de lá, mas isso é apenas o começo - depois o Ministério Público deve decidir se deseja prosseguir com acusações formais, então pode haver um julgamento e, em seguida, os recursos", diz Bertoldi..O Processo Lava-Jato está a revelar-se uma bênção para os escritórios de advocacia estrangeiros, oferecendo-lhes uma oportunidade rara para invadirem o mercado legal do Brasil, que é altamente protecionista. As sociedades Quinn Emanuel Urquhart & Sullivan e Gibson, Dunn & Crutcher, sediadas nos Estados Unidos, têm conduzido investigações internas para a BTG e a Petrobras, respetivamente, enquanto outras firmas têm aconselhado sobre os aspetos transfronteiriços do caso. Os investigadores solicitaram até agora a colaboração de 30 países, desde a Suíça até à China..No entanto, não foi apenas a dimensão do Processo Lava-Jato que criou trabalho extra para os advogados, mas também o estilo da investigação chefiada pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro. Inspirando-se na investigação de corrupção Mãos Limpas em Itália no início da década de 1990, o juiz formado em Harvard tem-se baseado fortemente nas prisões preventivas e nos acordos judiciais para obter resultados. Os advogados devem agir rapidamente para libertar os seus clientes da prisão e o seu trabalho deve ser tecnicamente excelente, dada a alta visibilidade do caso. Se o cliente, em seguida, assina um acordo judicial com os procuradores, isso pode criar mais problemas pois o seu testemunho poderá incriminar outros suspeitos do Processo Lava-Jato defendidos pela mesma firma.."Se existir um conflito, os advogados não podem aceitar o caso em circunstância alguma, pois isso seria eticamente incorreto e eles poderiam ser punidos pela Ordem dos Advogados do Brasil", diz Cristiano Zanin, advogado de Luiz Inácio Lula da Silva, o antigo presidente. Num dos acontecimentos mais dramáticos do Processo Lava-Jato, Lula da Silva foi detido para interrogatório em março, numa investida da sua casa durante a madrugada..Muitos brasileiros sentiram um grande prazer ao ver as figuras mais poderosas do país atrás das grades, saudando o juiz Moro e os procuradores do Ministério Público como heróis. "A maioria das pessoas da idade do meu filho sente mais simpatia pelos procuradores... são essas as carreiras que serão mais procuradas agora", diz Bertoldi..Mas as detenções são uma fonte de ressentimento para muitos na profissão, que argumentam que manter suspeitos nas horríveis prisões brasileiras antes de um juiz ter avaliado as provas existentes contra eles é uma violação flagrante dos direitos humanos..Enquanto os procuradores argumentam que tais detenções são necessárias para evitar que os suspeitos interferiram com a investigação, outros argumentam que é uma forma de assédio moral para levar os executivos e os políticos a testemunharem em troca da libertação.."O Brasil está a passar por uma fase punitiva", diz Almeida Castro. "Estamos todos cansados da corrupção mas também acredito na liberdade e no direito à defesa."