Com 170 votos a favor e 180 contra, Mariano Rajoy ficou ontem a seis votos da maioria absoluta necessária para garantir a investidura como presidente do novo governo de Madrid. Vai ter de esperar pela segunda votação, agendada para sábado ao final da tarde no Parlamento espanhol. Como consta no guião em que se está a basear a solução de uma crise política de mais de 300 dias neste país. O que não estava previsto é que fosse o dirigente do movimento de esquerda radical Podemos, Pablo Iglesias, a reivindicar para si o estatuto de líder da oposição..Numa intervenção feita por vezes em tom provocatório, Iglesias declarou que a abstenção anunciada do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) na votação de sábado, para viabilizar a investidura de Rajoy, impossibilita-o de liderar a oposição. Estatuto que reivindicou para si e para o seu partido, afirmando que "não somos uma esquerda como a vossa", referindo-se aos socialistas..Detalhe significativo foi o de ter sido citado mais vezes o nome do dirigente da bancada socialista, Antonio Hernando, do que do próprio Rajoy na intervenção de Iglesias. Este foi cáustico ao lembrar que o mesmo Hernando que na quarta-feira pedia aos deputados para se absterem era o mesmo que há quatro semanas sustentara o "não" a Rajoy. Por isto, não espanta que no final da sua intervenção ontem Hernando não tenha sido aplaudido por todos os elementos da sua bancada e alguns que o fizeram, como o anterior dirigente do partido Pedro Sánchez - forçado a demitir-se por não apoiar a viabilização de Rajoy -, o tenham feito com manifesto enfado..O dirigente do Podemos apelou a uma manifestação amanhã para cercar o Parlamento e evidenciar o descontentamento com a votação que, previsivelmente, viabilizará o presidente do Partido Popular (PP) como chefe do governo..Iglesias recorreu a uma citação do fundador do PSOE, Pablo Iglesias (sem qualquer relação familiar), para definir o movimento que dirige: "Ter o ódio das oligarquias será a maior das honras", criticando as restantes forças partidárias por temerem mudanças no "regime de 78"..Foi em dezembro de 1978 que foi ratificada em referendo a Constituição que rege a Espanha democrática. Mas para o dirigente do Podemos é necessário "abrir o cadeado de 78" e dar mais espaço às reivindicações independentistas da Catalunha e do País Basco, assim como a novas reivindicações sociais protagonizadas por movimento como o dos Indignados. Este movimento nasceu nas redes sociais e teve a primeira ação pública a 15 de maio de 2011; desde então, muitos dos seus objetivos têm sido incorporados no programa do Podemos..Iglesias não se coibiu de afirmações como a de "que há mais delinquentes potenciais nesta Câmara do que lá fora" - o que levou a presidente do Congresso dos Deputados, Ana Pastor, a cortar-lhe a palavra, com o argumento de que não podia ferir a honra do Parlamento a que ele próprio pertence. Ao que Iglesias retorquiu: "A minha honra devo-a à minha pátria e aos cidadãos do meu país, não a esta Câmara.".O incidente fez que os eleitos do Podemos abandonassem o hemiciclo, a que só voltariam no momento da votação..A dirigente de uma das organizações aliada ao Podemos na Câmara dos Deputados, En Marea, Alexandra Fernández, classificou como "golpe de regime" o acordo tácito do PP e PSOE..Os socialistas foram ainda duramente criticados por Alberto Garzón, líder da Esquerda Unida (IU), que se apresentou em coligação com o Podemos nas legislativas de junho último. Para Garzón houve "um motim oligárquico" no PSOE para afastar Sánchez. A demissão forçada deste foi ainda considerada como uma espécie de golpe de Estado, semelhante à tentativa de Tejero de Molina, em fevereiro de 1981, nos primeiros anos do regime democrático, pela dirigente do En Marea..Rajoy tranquilo.O líder do PP, nas diferentes intervenções feitas ao longo do debate, mostrou-se tranquilo e mesmo capaz de alguma ironia sobre si próprio, como ao referir-se ao uso e abuso de sms, dupla referência ao frenético teclar de mensagens visível na primeira linha da bancada do Podemos e à divulgação dos sms que trocou com o antigo tesoureiro do PP, Luis Bárcenas, e que este trouxe a público para se tentar proteger do escândalo da contabilidade paralela do partido..Perante as investidas de Iglesias contra o líder parlamentar socialista, Rajoy acabou por sair em defesa deste, mas sem deixar de recordar que está em discussão a sua investidura "porque ganhámos as eleições e porque não surgiu uma alternativa razoável"..Se é dada como adquirida a investidura de Rajoy na votação de amanhã, o executivo minoritário a que presidirá não terá tarefa fácil. Desde logo, na economia. O novo governo tem de reduzir o défice em cerca de cinco mil milhões de euros, atuando do lado da receita ou operando cortes na despesa. As leis laborais, que aprovou em 2012, serão contestadas à esquerda e a taxa de desemprego, ainda que em queda, é a segunda mais alta na UE..[artigo:5458696]