Fernando Henrique Cardoso pagava a amante via empresa

Ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso

Ex-namorada diz que recebia mesada através de contrato fictício. Justiça vai investigar. Ex-presidente brasileiro (entre 1995 e 2003) é o último político alvo do chamado "fator amante"

Mirian Dutra, ex-jornalista da Rede Globo, chegou a semana passada às manchetes dos jornais brasileiros ao afirmar que entre 2002 e 2006 recebeu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), com quem manteve uma relação extraconjugal nos anos 80 e 90, uma pensão através de um contrato fictício em nome da empresa Brasif S.A. Exportação e Importação, exploradora de free shops dos aeroportos, enquanto morava em Barcelona.

FHC, que ocupou o Planalto de 1995 a 2003, é o último político relevante envolvido naquilo a que se convencionou chamar no Brasil de "fator amante", depois de Lula da Silva, seu sucessor no Palácio do Planalto, em 2012, e de Renan Calheiros, atual presidente do Senado, em 2007. Com a notícia envolvendo a maior reserva moral do oposicionista PSDB, o governo Dilma Rousseff, o PT e Lula saíram momentaneamente da mira da imprensa e aproveitaram para contra-atacar.

Cardoso, casado há época com Ruth Leite Cardoso, falecida em 2008, admitiu que pagou a mesada - 3 mil dólares - mas através de contas legítimas no estrangeiro (Miami, Nova Iorque e Madrid) e não via Brasif. "Nenhuma outra empresa, salvo as bancárias já referidas, foi utilizada por mim para fazer pagamentos", disse, por e-mail, à imprensa.

Segundo Mirian Dutra, FHC disse-lhe na altura que depositou 100 mil dólares na conta da Brasif, através da qual a empresa ia pagando mês a mês como se fosse um contrato de trabalho. Ouvido pelo jornal Folha de S. Paulo, Jonas Barcellos, dono da Brasif, diz lembrar-se "de qualquer coisa mas não em rigor porque foi há muito tempo". Mais tarde, a firma admitiu ter contratado a jornalista mas sem intervenção do ex-presidente.

O DNA do filho

Durante o período em que durou o relacionamento, Mirian ficou grávida, segundo ela, de FHC. Depois do nascimento do filho pediu à Rede Globo para a transferir para Portugal, de onde rumou depois a Espanha. O ex-presidente afirma que sempre tratou a criança como filho e que ajudou no seu sustento - comprou mesmo um apartamento em seu nome em Barcelona. Mas em 2011 realizou dois testes de paternidade nos EUA que deram negativo: "Para minha surpresa, o primeiro teste de DNA deu negativo e o segundo também comprovou que não sou o pai biológico do referido jovem", disse FHC que, garante, continua a dar assistência à criança.

Confrontada com esses testes, Mirian Dutra, que rompeu o silêncio, "para não levar esta história para a tumba", contestou: "Toda a mulher sabe quem é o pai, o filho é dele, é óbvio." E a jornalista ainda acusou FHC de lhe ter pago para fazer dois abortos - prática proibida no Brasil - anteriores.

Facto político

Para lá das questões de natureza pessoal, o caso tem implicações políticas, como defende a colunista de O Estado de S. Paulo Eliane Cantanhêde. "As declarações de Mirian Dutra podem vir a ser um facto político importante", defendeu em referência aos casos em torno das casas de praia e campo, no âmbito da operação Lava-Jato, envolvendo o ex-presidente Lula que marcaram a atualidade nos últimos dias.

Com efeito, no dia seguinte às revelações de Dutra o deputado petista Paulo Pimentel já se perguntava "porque é que o Moro, o xerife da Lava-Jato, não faz nada, nem o Ministério Público, nem a Polícia Federal?". Cássio Cunha Lima, um dos líderes parlamentares do PSDB, respondeu no mesmo tom: "Não misturamos assuntos pessoais dos nossos adversários políticos mas se houver provocação disputaremos com qualquer tipo de arma..." O ministro da Justiça anunciou entretanto que a Polícia Federal vai analisar "aspetos técnicos e jurídicos" das remessas feitas por FHC.

Casos passados

Como defendeu em artigo de opinião no jornal Folha de S. Paulo o colunista Bernardo Mello Franco, "FHC entendeu, depois de Lula e Renan Calheiros, que uma ex é ex para sempre", a propósito do que se convencionou chamar de "fator amante".

Em causa, o "Caso Rosemary", em que Lula foi envolvido em 2012, a respeito de Rosemary Noronha, uma funcionária do gabinete da presidência da República acusada de tráfico de influências numa operação policial chamada Porto Seguro. Rosemary, apelidada de "czarina do gabinete", é tratada na imprensa como "amiga íntima de Lula" e terá acompanhado o ex--presidente, com acesso irrestrito, em 28 viagens oficiais, todas aquelas a que Marisa Letícia, ex-primeira-dama, não compareceu.

Já Renan Calheiros foi obrigado a demitir-se do cargo de presidente do Senado em 2007, ao qual voltou, eleito, em 2012, quando foi descoberto o chamado Renangate. Lobistas ligados a construtoras teriam pago despesas pessoais, tais como a pensão de alimentos de uma filha de Calheiros com a sua amante, a jornalista Mónica Veloso. O parlamentar, com foro privilegiado por ser político em funções, só prestou contas aos seus pares senadores e acabou absolvido no Congresso Nacional.

Em São Paulo

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