Dez milhões para ficar parado até junho

Técnico português volta a sair do Chelsea, mas fica a receber salário até fim da época, enquanto "escolhe" próximo clube

Pela terceira vez na carreira - a primeira foi após a atípica estreia-relâmpago no Benfica - José Mourinho vai tirar uns meses sabáticos fora dos bancos. Despedido ontem do Chelsea, o treinador português deverá ficar até final da temporada sem treinar, aproveitando o descanso forçado para preparar a próxima etapa da carreira. Tal como fez quando saiu do clube londrino pela primeira vez, em setembro de 2007.

Na altura, Mourinho regressou aos bancos no início da época seguinte, no Inter de Milão. Desta vez, o setubalense também não terá, certamente, dificuldades em voltar a iniciar a próxima temporada num clube de top europeu. O rol de possibilidades afigura-se vasto, do PSG ao Manchester United, ou mesmo um até há pouco tempo improvável regresso ao Real Madrid (ver cenários na página5). Mas a única coisa definida nesta altura é que não deve voltar a treinar qualquer equipa esta época, segundo fonte próxima do técnico contactada pelo DN, que lembrou que ele se recusa a "pegar em equipas a meio do ano" - a exceção, compreensível, na carreira foi quando aceitou trocar o U. Leiria pelo FC Porto. E voltar a Portugal temporariamente é outro cenário "praticamente impossível".

Recebe salário até voltar ao ativo

"Neste momento, só queria ganhar um jogo", confessava Mourinho numa entrevista gravada há alguns dias e que foi para o ar ontem às 20.00, no canal inglês BT Sport. Mas o português não resistiu tempo suficiente sequer para ver a entrevista ainda como treinador do Chelsea. Ao início da tarde, o clube anunciou o final da segunda era do técnico em Stamford Bridge, comunicada como tendo sido acordada por mútuo consentimento e que deverá render ao setubalense uma indemnização de cerca de dez milhões de euros, se ficar sem treinar até junho.

Apesar da versão oficial, em Inglaterra asseguram que Mourinho se limitou a aceitar a decisão da administração do Chelsea, que convenceu o multimilionário Roman Abramovich a romper pela segunda vez com o treinador português. Em 2007, foi mesmo o russo a fartar-se dos caprichos de Mou, apesar de lhe ter oferecido um Ferrari meses depois; desta vez, terá sido a restante administração - composta pelo presidente Bruce Buck, os diretores Marina Granovskaia e Eugene Tenenbaum, o diretor técnico Michael Emenalo e o secretário-geral David Barnard - a convencer Abramovich de que a situação teria atingido um ponto de não retorno entre o técnico e os jogadores. Com Mourinho saem os adjuntos Rui Faria, Silvino e José Morais.

A decisão, tomada em reunião na quarta-feira, foi comunicada ontem a Mourinho após o almoço de natal do grupo, por volta das 14.30. O português, que ainda na segunda-feira, após a derrota com o Leicester City, dizia que queria "continuar como treinador do Chelsea" e esperava que "o senhor Abramovich também" quisesse, aceitou as razões do clube. A nota do Chelsea evidenciava a dificuldade sentimental da decisão, lembrando que Mourinho "é o técnico mais bem-sucedido nos 110 anos do clube" e garantindo que "o José será sempre figura muito amada, respeitada e de grande relevo no Chelsea. O seu legado em Stamford Bridge há muito foi assegurado e ele será sempre bem-vindo".

Mourinho, que há sete meses comemorava o terceiro título de campeão em Inglaterra (o único desta segunda passagem pelo Chelsea), tinha prolongado o contrato com os blues no verão passado, até 2019, passando a auferir um salário semanal de 250 mil libras (algo como 13 milhões de libras anuais, ou 17,6 milhões de euros ao câmbio atual). Ora, de acordo com a BBC, será isso que Abramovich continuará a pagar ao treinador até final desta época: 344 mil euros por semana até completar o salário anual. O que, até 30 de junho, renderá cerca de dez milhões de euros. Fora de questão está o cenário que apontava para uma indemnização recorde superior a 50 milhões de euros.

A rutura com os jogadores

Ironicamente, Mourinho acabou por não resistir à derrota com o Leicester - a nona desta época na Liga inglesa -, surpreendente líder que é treinado pelo italiano Claudio Ranieri, precisamente o homem que se viu afastado do Chelsea em 2004 para dar lugar ao técnico que se apresentou como Special One. Agora, Special Gone [o especial foi embora], apontava ontem um dos tradicionais trocadilhos dos tabloides ingleses.

Mourinho acabou vítima de uma rutura quase total com o balneário, tendo acumulado guerras com jogadores como Hazard, John Terry ou Diego Costa, entre vários outros incidentes, como o mediático caso da médica Eva Carneiro - curiosamente, após conhecida a saída de Mourinho, o jornal The Telegraph anunciava que Eva poderá regressar.

Mais do que a derrota com o Leicester, que deixou o Chelsea em 16.º lugar, apenas um ponto acima da zona de despromoção, foram as declarações de Mourinho no final que ditaram a demissão. O português não poupou os jogadores e disse ter-se sentido "traído". Foi a prova de que a relação no balneário atingira um ponto de não retorno. "Havia uma discordância palpável entre o treinador e os jogadores e achámos que era a altura de agir", admitiu ontem o diretor técnico Michael Emenalo, à Chelsea TV.

Mourinho vê assim interrompida a sua pior época - míseros 25% de vitórias em 16 jogos, longe dos 76,32% dos dois primeiros títulos no Chelsea (2004/05 e 2005/06) ou dos 68,42% da época passada. O holandês Guus Hiddink é o principal candidato a substituí-lo até fim da temporada, enquanto Abramovich tenta nomes como Conte, Simeone ou Guardiola para a próxima época.

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