Vergílio Ferreira. O professor que queria ser amado

Vergílio Ferreira fotografado em 1988

Autor de Manhã Submersa e Aparição completaria hoje cem anos, se a morte o não tivesse interrompido há quase 20

Nada há de mais incerto do que uma data, que se quer precisa e definitiva, que determine o "início de atividade" de um escritor. Neste domínio, Vergílio António Ferreira, beirão nascido em Melo, Gouveia, a 28 de janeiro de 1916, não tem direito a exceção. Sabe-se, isso sim, que era estudante da Faculdade de Letras de Coimbra, onde viria a licenciar-se em Filologia Clássica, quando escreveu (1939) o primeiro romance, O Caminho Fica Longe, que só veria publicação quando o autor já exercia funções docentes (1943), profissão que manteria até à reforma.

Com alguma certeza, pode dizer-se que Vergílio Ferreira ainda não arrumara suficientemente as ideias para as sintetizar assim: "O que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte. Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu" [Nota: Todas as citações deste texto são repescadas do livro 1000 Frases de Vergílio Ferreira, organização de Luís Naves, edição da Quetzal]. Ou, de um jeito mais sintético: "Escrevo para tornar visível o mistério das coisas."

De início, a escrita de Vergílio Ferreira, aparece associada ao neorrealismo. Depois de Mudança (1949), título quase profético, os seus analistas integram-na no Existencialismo. Não que o autor parecesse impressionado com estas "arrumações" (apesar de mais tarde defender, em ensaio, que O Existencialismo É Um Humanismo). A cartilha parecia ser outra: "Não, não gosto do escritor que não arrisca nada. Que nunca joga num "pleno", mas sempre no "par" ou no "ímpar". Não está mal; mas também não está bem. Um livro não pode simplesmente distrair--nos. É necessário um "saldo" final que nos comprometa com a vida. Que nos perturbe."

À luz destes princípios, de entrega sem reservas, publica três dos seus romances mais reconhecidos, Manhã Submersa (1954), Aparição (1959) e Cântico Final (1960), com os dois primeiros a refletirem as vivências do autor enquanto frequentou o seminário do Fundão, em cheio na adolescência, e enquanto criança que se viu forçada a crescer longe dos pais, partidos em nome de uma vida melhor, buscando soluções que a Beira Alta não lhes garantia, nem a eles nem aos filhos. Talvez se radique aqui um paradoxal desgosto com o país natal, a que não perdoa alguma pequenez e muita mesquinhice. Escreverá, como desabafo: "Raro na vida me pensei português. A minha pátria é a imaginação."

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