Mão Verde: o rap ecológico de Capicua para todas as idades

É para crianças, mas não é infantil. Em Mão Verde canta-se, a brincar, coisas sérias, como a ecologia e a alimentação

Tudo começou em dezembro do ano passado, com um convite do Teatro São Luiz a Capicua, que a desafiou a fazer uma pequena temporada de concertos, que incluía um espetáculo para crianças. A rapper portuense pediu então ajuda a Pedro Geraldes, guitarrista dos Linda Martini, para criarem de raiz o espetáculo Mão Verde, que entretanto foi também transformado num livro/disco a ser editado no final deste mês.

"Já tinha algumas ideias na cabeça, porque já há algum tempo que pretendia fazer um livro de lenga-lengas, mas não tinha nada escrito. Foi tudo feito a partir das bases musicais que o Pedro compôs. O concerto acabou por correr tão bem que depois achámos uma boa ideia avançar para a gravação de um disco", conta Capicua.

Um disco para crianças, mas muito pouco infantil: pela temática e pelo modo como é abordada, uma vez que através das mais variadas lengalengas, rimas e jogos de palavras, Capicua fala de assuntos como a defesa do meio ambiente, a natureza, a agricultura ou a alimentação, à mistura com muitos bichos e plantas.

O próprio título, Mão Verde, também não é inocente. É, segundo a editora, inspirado pela expressão francesa avoir la main verte, que "significa ter jeito para as plantas e talento para a jardinagem", tal como Capicua, orgulhosa proprietária de uma pequena horta no Porto. "Não é infantil, porque trata questões importantes e transversais a todos os que habitam neste planeta. Queríamos agradar a todas as gerações e não tratar as crianças como seres patetas", explica. Os temas abordados têm também muito que ver com a perspetiva com que a própria encara a música: "Tenho sempre uma agenda política e social nos meus discos, mas as preocupações ecológicas eram algo que nunca tinha abordado de forma conveniente. Temas como a agricultura sustentável, uma alimentação saudável ou a defesa do ambiente, que fazem parte do meu dia-a-dia, não estavam assim tão claros no meu trabalho e esta foi a forma perfeita de o fazer, porque as crianças têm um interesse natural por terra, plantas e insetos. E falar com elas sobre isto não soa assim tão panfletário ou moralista."

Um disco que também é livro

As letras de Capicua são embaladas pelas composições musicais de Pedro Geraldes, que, de forma sensível e bem-humorada, ajudam a criar todo o ambiente do disco. "Já tinha ideias sobre o que queria falar, mas foi só após receber as bases musicais que o Pedro me enviou que fui escolhendo os temas. À medida que ia escrevendo, enviava-lhe algumas amostras e, a dois, fomos com o tempo construído a estrutura das canções", recorda a rapper.

Mas não foi um trabalho fácil, como recorda Pedro Geraldes, cuja principal preocupação foi a de compor temas alegres e bem-dispostos. "Havia a necessidade de construir um concerto para crianças e foi a partir desse imaginário, totalmente novo para mim, que desenvolvi as primeiras ideias. Fomos trocando ideias e, aos poucos, fui entrando no espírito, sempre com o cuidado que a música não fosse demasiado infantil ou pateta." Porque o facto de se tratar de música para um público mais novo não significa menos responsabilidade, muito pelo contrário. "Tentei ter uma coesão em termos de instrumentos, porque é um trabalho muito mais contido, mas também uma oportunidade para dar a conhecer outros universos musicais. Foi um desafio muito interessante, porque não tinha qualquer experiência na área, mas feito de uma forma bastante intuitiva, que reflete bem a minha identidade enquanto músico", defende Pedro Geraldes, que acabou por vaguear por diversos estilos e estéticas, num ecletismo inspirador para a própria Capicua, na hora de escrever as letras. "As composições são muito diversas em termos de estilo, mas todas conseguem ter o mesmo espírito de bom humor. Aliás, foi o facto de termos conseguido essa identidade coesa entre a música e as letras, que nos deu vontade de avançar para a gravação de um disco", reconhece a cantora.

E as crianças, que afinal são o mais importante, como reagirão elas a isto tudo? "As crianças são sempre muito honestas e espontâneas. Nos espetáculos fazem sempre muitas perguntas, porque há sempre espaço entre as músicas para falarmos um bocadinho. Perguntam sobre as letras e os personagens que vão aparecendo, mas também sobre a nossa roupa, o cenário ou os instrumentos. E às vezes até partilham coisas da vida delas", recorda Capicua. "E agora, à medida que forem ouvindo o disco, ainda vão gostar mais, porque as crianças gostam sempre mais do que já conhecem."

Um disco que é também um livro, no qual as letras surgem acompanhadas das ilustrações de Maria Herreros e de pequenas notas do agricultor Luís Alves, para dar a conhecer os bichos e as plantas cantados, ao mesmo tempo que explica o significado de termos mais complicados como compostagem ou o aquecimento global. "Devido aos temas abordados, quisemos dar uma dimensão didática a este trabalho e nesse sentido chegámos à conclusão de que um livro valorizava muito mais o disco. O disco foi feito a dois, mas o livro é um trabalho coletivo, quase como se fosse a concretização, num objeto, do espírito deste projeto", salienta Capicua. Entretanto, saiu também já um vídeo, do tema Erva de Cheiro, da autoria de Alice Eça Guimarães, que dá vida às ilustrações do livro. E já estão mais dois na calha. Haverá também dois concertos de apresentação, em data e local ainda a definir, a ter lugar no mês de janeiro, em Lisboa e no Porto. Depois, esta Mão Verde segue para a estrada, para ir ter com as crianças, seja na escola, num jardim, num teatro municipais ou numa biblioteca.

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