João de Melo: "A eternidade num escritor é morrer e ficar como os outros, com a boca cheia de terra"

João de Melo

Vergílio Ferreira - que dá nome ao prémio que receberá na terça-feira - agarrava-lhe nas mãos e dizia: "Eu li o seu livro e aquilo é muita bom!" O escritor tem novo livro, Os Navios da Noite

A conversa começou em Cabo Verde e terminou no escritório de João de Melo, em Lisboa. Os 20 dias que intervalaram um e o outro momento não lhe mudaram o tom em que, na cidade da Praia - onde participava no VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa -, contava a sua infância nos Açores.

Em Lisboa, era na mesma entoação que falava da hora em que os seus irmãos se reuniram nos Estados Unidos para a apresentação de Gente Feliz com Lágrimas em inglês. Foi o único que, em miúdo, veio para Lisboa estudar. Todos os outros fugiram à pobreza de São Miguel para o Canadá e os EUA.

Escreveu agora um livro de contos sobre vencidos. Os heróis de toda glória que existe na derrota. Ou apenas em estar vivo. Como quem escrevesse: "Os nossos mortos estão apenas ausentes e hão-de voltar."

Falou aos jovens escritores cabo-verdianos da necessidade de encontrarem uma linguagem própria. A que se referia? A uma voz?

Exatamente. A um estilo. Falo daquilo que torna o escritor dono de uma arte de abordagem de definição e de dizer as coisas. Por ventura até os mesmos temas de sempre, através da sua linguagem única.

Demorou a encontrar essa voz?

Ainda não encontrei. Ainda estou em percurso e não queria encontrar tão cedo porque deixaria de procurar. Continuo a apostar tudo, como quando era jovem, no próximo livro. Na ilusão e na angústia de que seja sempre o melhor.

Não é muito comum ouvir isso de um escritor.

Acho que não nos devíamos apresentar como escritores. Somos caminhantes, peregrinos de uma ideia da literatura que nos aproxima tanto quanto possível da perfeição, que finalmente é uma coisa que não existe. Nunca existiu, nunca existirá. Assim como não há a ideia de eternidade. A eternidade num escritor é ele um dia morrer e ficar como os outros, com a boca cheia de terra e acabar-se assim. A ideia de obra-prima podia ser uma tentação recorrente do escritor.

E não é?

Nós não fazemos a mínima ideia de como se fazem obras-primas, universais. Se soubéssemos, não faríamos outra coisa. Não perderíamos tempo a escrever obras menores. É este equilíbrio precário, nunca adquirido, que me leva por diante, e que me leva a não ter consciência de ter uma obra feita. A minha obra não está feita.

É um equilíbrio ténue aquele que separa a soberba que é precisa para escrever e a humildade?

Acho que a verdadeira medida seria o desprendimento. Não estar obsessivamente a pensar: já fiz, vou fazer, disseram isto, leem não leem, compreendem não compreendem. O escritor tem uma obrigação: tem de ser solidário, gostar mais das pessoas do que de si.

Que ilha é a de onde escreve longe dos Açores e eles aparecem?

Estou marcado indelevelmente por essa ideia insular, que é tão geral como pessoal. Continuo a considerar-me um caso identificável, porque continuo nesta ideia, nesta teimosia, a dizer que leio Portugal inteiro através de um pequeno território. Faço desse pequeno território um lugar de todo o mundo.

Saiu de São Miguel aos 11 anos.

Vim estudar para o continente mas ia lá naquelas férias grandes de três meses, que eram porventura muito mais profundos do que o ano escolar que passava cá, em termos de relação e de mundividência.

Mesmo enquanto criança.

Mais. Porque a minha infância foi tão avassaladoramente exposta ao mundo e ao desenraizamento, que se produziu o efeito contrário. Agarrei-me cada vez mais à ideia de que nós somos sempre de um lugar, de uma família e de uma casa. E a casa continua a ser o centro do mundo.

Fala do desenraizamento da infância, podíamos falar também dos anos que passou na Guerra Colonial, em Angola. Os livros são catárticos?

O poder catártico da literatura existe. Nós escrevemos livros por necessidades íntimas e há uns que estão mais próximos dos nossos fantasmas do que outros. O exorcismo da guerra: os livros que escrevi foram uma maneira de me libertar da loucura da guerra e fazer a catarse da pior experiência da minha vida. E tive muitas, mas a guerra foi de todas a mais crua e a mais cruenta. E sobre ela eu rodopiei muito, e ainda encontro ecos dela em muitas coisas que continuo a escrever e sobretudo em mim próprio. É uma guerra que ainda não saiu. E [também] os Açores da minha infância amarga, e pobre, amargurada, e sofrida, continuam a comandar muito a minha escrita.

E ainda assim as coisas voltam?

Voltam. É catártico, mas não é a cura total. A literatura, pobre dela, não resolve os problemas todos de ninguém, muito menos do mundo. Ver na literatura, sei lá, um qualquer poder visível é profundamente errado. Codificá-la no sentido de ela agir, atuar, mudar é uma ingenuidade. A literatura não tem de servir para nada. O que não quer dizer que não sirva para ninguém, o que é muito diferente. Serve, e muito, para muita gente. Mas não serve ligando-a com a ordem do mundo, essa está estabelecida.

Mas ajuda, faz companhia?

O que é impossível imaginar é um mundo sem literatura. A gente pensa: ela não resolve, não corrigiu, não emendou, mas também não é inteiramente verdade. Alguma coisa há de ter sido modificada pela existência dessa carga emotiva, desse património imenso de espiritualidade, essa energia que cerca o nosso planeta. E é essa a minha esperança.

Na terça-feira recebe o Prémio Literário Vergílio Ferreira. Que relação tinha com o escritor?

Nós tivemos uma aventura parecida, ele foi seminarista e eu também. Eu fui expulso quase ao sétimo ano, acusado de ser ateu e subversivo político. Quando saí e cheguei a Lisboa, comecei a conhecer escritores. Chegou a vez do Vergílio Ferreira, através do livro Manhã Submersa, sobre a experiência no seminário. E disse: "Malandro, que me roubou a obra que devia ser eu a escrever."

Depois conheceram-se.

Ele recebeu-me em casa dele e pude dizer-lhe isso, que tinha desistido dessa obra imaginária porque ela já estava feita e era uma obra-prima. Pela vida fora tivemos momentos de estarmos em comum. Ele era um homem de uma austeridade aparente, porque no fundo também tinha um coração de vidro. Chegava ao pé de mim, pegava-me as duas mãos e dizia: eu li o seu livro e aquilo é muita bom! Dizia ele com aquela expressividade... Eu julgo que ele teria ficado contente se soubesse que eu desta vez ganhei o prémio com o nome dele. Estou feliz por isso. E pelo prestígio do prémio.

O novo livro, Os Navios da Noite, recebe o título dos versos de Álvaro de Campos que falam dos outros como navios de quem sabemos muito pouco, "que há vida lá dentro e mais nada". Em "O Ponto de Vista do Vencido", quando o preso grita ao ser torturado, escreve que o grito chega como se viesse de fora para dentro dele. O desconhecimento pode ser em relação a nós próprios?

Esse conto é a tentativa de dar, por excesso, a fragilidade da condição humana. E a imensa solidão daquele homem, que se vê sozinho e perdido. Na confissão que faz, entrega a sua própria vida, destrói-a. Aí eu quis acentuar a condição de um vencido. Um aspeto quase comum a todas as histórias do livro: não há ali triunfadores. Há heróis de uma outra heroicidade: que é a sua dignidade enquanto vencidos.

É como um ajuste à vida? Que não lhes reconhece essa heroicidade?

Exatamente. Porque, repare, eu não conheço a literatura dos vencedores, nem dos heróis, dos ricos, dos poderosos. A dominante essencial daqueles contos é querer dizer ao leitor que o vencido não é fatalmente para banir do meio de nós. Porque vencidos, de alguma forma, somos todos nós no nosso quotidiano. Se trabalhamos, se andamos à procura de algo, se tentamos erguer a nossa própria pirâmide, seja onde for, é porque o nosso sonho ainda não se realizou.

Este livro é tão autobiográfico como qualquer outro ou mais? Penso, por exemplo, em "A Minha Mãe e Eu".

Nesse conto, sim. Há qualquer coisa de parecido a uma espécie de comunicação que parece ter havido entre mim e a minha mãe no momento em que ela morreu. Foi no dia em que a minha filha celebrava 2 anos. Estávamos em casa e há um momento em que eu ao partir um copo tenho um arrepio muito forte e lembrei-me da minha mãe, que estava doente, no Canadá, muito longe de mim. Algum tempo depois, a minha irmã telefona-me: "A mãe morreu a tal hora a chamar por ti." Não sei o que aconteceu. Mas essa coincidência está lá, é narrada.

Nos outros contos não é assim?

Os outros são inventados, exercícios de ficção. Foi nítido que havia entre eles uma espécie de magnetismo comum que os alinhava, que podiam caber no mesmo mar: aquele que está nos navios noturnos iluminados contra a noite.

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