Bordalo II: "Estou a criar imagens com o que destrói o mundo"

Bordalo II (Artur Bordalo)

O artista tem criado nas ruas um enorme bestiário erguido em lixo que vai de Lisboa a Turim. Neto do pintor Real Bordalo, o artista define a expulsão da Faculdade de Belas Artes como "portefólio"

Vistos de perto, são torneiras, bocados de uma mangueira, um telemóvel, uma calculadora, pedaços de casacos peludos, plástico: é lixo. Recuando alguns passos, esse lixo torna-se numa raposa, num esquilo, num mocho, num veado. O mais provável é que já se tenha cruzado na rua com um dos enormes animais de Bordalo II. Seja a garça da Quinta do Mocho, em Sacavém, ou o guaxinim do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A vista logo à entrada do seu ateliê denuncia-o. Está a fazer um morcego. Entramos num grande armazém que chegou a ser o lugar onde a Casa Pia fazia os leilões dos móveis e afins que eram oferecidos, conta o artista.

Há uma razão para ele assinar como Bordalo "segundo". É neto do pintor Real Bordalo. Além do apelido, partilham o primeiro nome: Artur. O avô, conhecido sobretudo pela sua obra em aguarela e óleo, foi desenhador do Diário de Notícias "durante uns 20 anos". "Era cenógrafo, acho que ele fazia tudo o que tinha que ver com desenho, tipografia, ilustração."

Rodeados de berbequins, serras circulares, pistolas de cola, plástico, e velhas portas e janelas de madeira que servem de base, ou tela, onde as esculturas assentam, começamos pelo avô, que ele cresceu a ver pintar. Quanto a ele, desde miúdo, nascido em Lisboa em 1987, que rabisca e desenha. "Risquei as paredes todas de casa antes de ter consciência do que andava a fazer", diz.

Guaxinim, Lisboa

Já consciente, foi para a Faculdade de Belas Artes. "Tentei as coisas convencionais. Não acabei o curso, fui suspenso por falta de aproveitamento e nunca mais lá voltei. Para mim é portefólio não ter acabado e terem-me mandado embora. Eu tirei imenso proveito enquanto lá estive, há disciplinas fantásticas e professores muito interessantes, mas há exatamente o oposto também. Teoria da teoria, filosofia... Eu gosto de pintar, de cortar, experimentar, agarrar nos materiais. A teoria não é para mim, é para os filósofos." Entre tudo isto, houve o graffiti. "Fiz durante muitos anos, na rua, ilegal", lembra.

Olhando agora para trás, diz que "ter um background de rua ajuda sempre a querer fazer mais e maior. Quando trabalhamos na rua estamos quase a combater diretamente com a publicidade, com os outdoors, e com uma série de outras coisas que têm muita visibilidade, e que são feitas de propósito para as pessoas olharem. Quando tu pintas na rua é preciso fazer uma coisa grande, impactante, para conseguir chamar a atenção, embora nunca se saiba realmente para quem é, ou se é para alguém. O graffiti acaba por ser uma coisa bastante egocêntrica e narcisista." E chegamos aos animais, embora da sua obra façam parte muito mais trabalhos na rua além deles: das interações com cartazes publicitários ao recorte de uma figura humana por entre uma parede de arame."

Usar o lixo como material

Urso em Turim

Perguntamos-lhe porque ergueu este bestiário usando lixo, muito dele recolhido em fábricas abandonadas. "A ideia que eu tenho é de criar imagens das vítimas da poluição e da ação do homem exatamente com aquilo que os destrói, com aquilo que os mata. O mundo está a ser destruído e eu estou a criar imagens com aquilo que o destrói, com aquilo que destrói a natureza, que a vai degradando." Os animais tomam a vez da figura humana no seu trabalho. "Apesar de haver uma componente humana em todo o trabalho que eu faço, porque todo o lixo que eu utilizo é por causa do nosso dia a dia, e da forma como nós não sabemos gerir os recursos, o próprio planeta, de forma sustentável."

Enquanto falávamos, alguém passaria pelo urso gigante que fez em Turim, Itália, para anunciar a sua exposição Decomposed, que se inaugurou em dezembro último na galeria Square23. No último ano, também Miami, no estado americano da Florida, conheceu uma doninha sua. Como Aruba, ilha holandesa do Caribe, viu, durante a sua feira de arte, o pelicano que Bordalo II fez em torno de um barco ferrugento no mar. A maioria das obras são executadas por convite, no âmbito de um projeto como o Festival Iminente, em Oeiras, que no ano passado ali levou dois flamingos do artista, ou o Bairro i o Mundo, na Quinta do Mocho. Porém, nem todas as obras são feitas nesse contexto, explica. "Aqueles peixes em Alcântara são uma peça ilegal, que fiz por mim. Mais à frente também há o lagarto, que eu decidi que ia fazer."

Pelicano em Aruba

Todo o material que compõe as peças maiores é aparafusado, e assenta num suporte. Nas peças mais pequenas "há mais coisas coladas". "Não lhe chamo uma técnica, é muito freestyle. É arranjar uma maneira de as coisas ficarem presas." Mostra-nos uma série de peças mais pequenas. Duas estão já vendidas. Quando perguntamos se as pessoas as põem nas suas salas, responde que é "antiquado" pensar que uma peça daquelas "não funciona numa casa: é um alto relevo, uma escultura na parede".

No final do ano, Bordalo II terá de deixar aquele ateliê. Mas despede-se dele numa exposição ali, que deverá inaugurar em outubro. "Uma coisa grande. Vou transformar isto com o meu trabalho."

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