André Carrilho. "Fico horas a olhar para o teto a pensar"

O cartoonista André Carrilho

Déjà-Vu é o novo livro de André Carrilho. Ali se reúnem muitos dos cartoons que fez para o DN e capas de outras publicações

Entre o livro O Rosto do Alpinista, de 2007, e o Déjà-Vu há um percurso não tanto no traço mas sobretudo na passagem da caricatura para o cartoon de opinião. Porquê?

A caricatura é um exercício fisionómico e o cartoon é um desenho de opinião, que pode ser autónomo. Por acaso, o meu percurso começou como cartoonista, em Macau. Basicamente, davam-me o espaço e eu fazia desenhos. Tinha 17 anos, nem percebia bem a minha sorte. Ao trabalhar para o DN, comecei a perceber que, pela própria mecânica de um diário, às vezes não tinham tempo de pensar o que me haviam de dar. Resolvi propor fazer um desenho de opinião.

Como chegou aqui?

A primeira coisa é aprender a gramática visual que uma pessoa cria para si. Em 2007, eu tinha já a minha linguagem. Depois percebi que as linguagens visuais facilmente se copiam ou são vazias. O que me preocupa é ter uma voz que eu ache que é a minha. Passa por um raciocínio mais meu do que qualquer traço. Comecei então a pensar que devia, além de fazer desenhos bonitos, fazer desenhos que dissessem alguma coisa. Tive a sorte de o DN aceitar esse desafio e confiar em mim. Este novo livro é o culminar de sete anos de tentar fazer isso. É uma coisa que se treina, ter ideias e pensar. É um músculo que se não se exercita perde-se. Se se exercita, às vezes vai para sítios que não esperávamos.

Por exemplo?

Uma pessoa tem de experimentar caminhos e dar com a cabeça nas paredes de modo a evoluir e a ter acidentes felizes, também. Nas primeiras ilustrações que fiz para o DN descobri que havia técnicas de pensamento que podia desenvolver de modo a desenrascar sempre uma ideia. Isso funciona muito através de analogias visuais. Uma vez disseram-me apenas: "Faz uma capa sobre intelectuais." Comecei a pensar: intelectuais, cérebro, o que é que o cérebro parece? E fui para a noz e para um novelo de lã. Fiz uma ilustração com um novelo de lã, vários fios que saíam da realidade e que se enrolavam dentro da cabeça. Começou por uma analogia visual.

Vai fazendo tentativas desenhadas ou é tudo na sua cabeça?

Agora começo a ser mais espontâneo. Mas tenho de saber o que vou desenhar e depois executo. Tendo em conta os prazos curtos, não posso estar muito a divagar. Se alguém entrar em minha casa, vê-me no sofá e diz: "Não estás a fazer nada." Não, eu estou a trabalhar. Estou a olhar para o teto a tentar pensar numa ideia. Às vezes, fico muitas horas assim. Entro em stress.

A pensar "não estou a conseguir, não vou conseguir"?

Há sempre ideias de várias categorias. Há a ideia que acho muito boa, a ideia média e a ideia que é a desenrascar. Normalmente, não tenho de recorrer à de desenrascar, só se for muito à pressa. Tranquiliza--me saber que posso arranjar outra maneira de abordar a questão. Mas tento sempre uma ideia que não seja óbvia. Vendo cartoons e, estando na profissão, há sempre uma ou outra ideia-chave que pode ser usada, metáforas visuais. Isso foi muito notório nos atentados de Paris. Toda a comunidade mundial de cartoonistas pôs-se a ter ideias sobre aquilo. E é fácil ter a mesma ideia que tem outro criador.

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