Ana e o cancro. A arte de inspirar os outros com as cicatrizes

Quando o cancro apareceu, decidiu que iria dar-lhe luta. Perdeu a mama e ganhou uma cicatriz que fotografou para exposições, inspirando outros homens e mulheres

Um misto de desconforto e dor levou-lhe os dedos debaixo do braço. Do nada, no meio de um jogo de futebol num ecrã gigante - a que assistia com as amigas numa esplanada de Aveiro -, Ana Paula Lopes sentiu o inverno começar a invadi-la em pleno verão. Era julho de 2016, Portugal vibrava com o Europeu de futebol que haveria de ganhar, mas já nada disso lhe importou. "Fui para casa, tomar banho, fazer a palpação, porque eu sabia que os nódulos na axila não eram coisas muito favoráveis." Naquela noite não dormiu. Algo lhe dizia que lá dentro da mama poderia estar a nascer qualquer coisa má, que teria de ser forte. "Mas por outro lado tinha a esperança de que não fosse nada."

Na manhã seguinte, uma sexta-feira, ligou para o Hospital de Aveiro. Ana Paula mora em Albergaria-a-Velha e ainda conseguiu cumprir o dia de trabalho (é arquiteta numa empresa de mobiliário hospitalar), "sempre com aquela nuvem em cima". Já era tarde quando uma médica a atendeu - e desvalorizou, julgando tratar-se de uma consequência da hidrosadenite (uma inflamação na axila) que tivera na adolescência.

"Não lhe deveria ter falado disso, porque saí de lá com um anti-inflamatório", conta ao DN. Como não melhorava e continuava a sentir os nódulos, voltou na segunda-feira, dessa vez para ser vista por uma médica da especialidade que ia de férias e lhe prescreveu uma ecografia à axila - sendo certo que demoraria um mês "até que me chamassem para a fazer", lembra.

Só que o sexto sentido de Ana Paula não a deixava descansar. Usou o seguro de saúde da empresa e foi ao privado, para ser observada por um médico que também era responsável da clínica da mama no IPO do Porto. "Assim que ele me pôs a mão em cima da zona indicada, disse-me logo que eu tinha cancro. A partir daí, chorei o tempo todo", recorda Ana Paula, que só saiu do Hospital dos Lusíadas nesse dia com todos os exames feitos. Tinha ido a conduzir para o Porto, mas o médico aconselhou a que chamasse alguém, para a amparar daquele tombo emocional e físico. O companheiro da altura fez esse papel, alguns amigos também.

Quando hoje faz essa retrospetiva, conclui que a pior dor que sentiu "foi mesmo a biopsia", durante todo o processo. E num ápice, em poucos dias, tinha os resultados e o diagnóstico: um cancro muito agressivo, hormonodependente, grau 3, com ramificação para a axila e elevado grau de proliferação, na ordem dos 80%. "Significa que se desenvolve muito num curto espaço de tempo." Já estava a dar entrada no IPO do Porto - para onde o médico a encaminhou - quando recebeu a convocatória do Hospital de Aveiro para a tal ecografia à axila. Ainda bem que correu contra o tempo, graças a um seguro de saúde.

Leu tudo o que podia. Não tinha casos na família, e por isso era tudo novo e desconhecido. Numa das primeiras consultas, perguntou ao médico qual a esperança de vida que um cancro daqueles lhe dava. "E ele disse-me "não faças perguntas para as quais não estejas preparada para ouvir a resposta". Fiquei em choque. Mas a seguir pensei "comigo vai ser diferente"." E foi.

No início de agosto estava a começar as sessões de quimioterapia que precederam a cirurgia. "Não me foi dada a opção que muitas vezes se dá às mulheres jovens, de preservar os ovócitos, para o caso de vir a querer ser mãe. Porque era muito grave, e o que os médicos tentaram foi salvar-me a vida, rapidamente."

Fez a última sessão de quimioterapia antes da passagem de ano. Foi operada em finais de janeiro. "Inicialmente pensavam preservar alguma parte da mama, mas acabou por ser completamente removida, além de alguns gânglios da axila." Em maio, uma médica do IPO veio felicitá-la: conseguiu dar uma resposta completa aos tratamentos, nenhum tecido retirado tinha réstia de cancro. É também por isso que passa a vida a sublinhar o quão importante "é cada um de nós acreditar que aquilo que nos estão a fazer, como tratamento, vai resultar".

Ana Paula lembra-se bem de uma imagem que construiu, na sua cabeça: "O tratamento era um bando de soldados a travar uma batalha, e e eu era o general que comandava aquilo." Sabe agora que a força da mente - e do amor - foi decisiva para o combate, embora cada um tenha de encontrar as suas próprias âncoras. Hoje, quando fala com quem começa a travar essa luta, diz sempre o mesmo: "Procurem ouvir a vossa voz interior e focar-se no que vos faz bem, enquanto decorrem os tratamentos." Juntou-lhe ainda uma mudança radical na alimentação.

O que aconteceu na sua vida a partir daí foi uma revolução. Ela e o companheiro separaram-se. Ana Paula encontrou no cancro múltiplas formas de ajudar os outros a ultrapassar esse terramoto. Um dia, ao espelho, depois do banho, experimentou fotografar-se. Daí nasceria um dos mais emblemáticos projetos de fotografia na área do cancro da mama, com exposições nos IPO do Porto e de Coimbra, faltando apenas Lisboa. As mesmas fotografias (dela e de outros, mulheres e homens) já estiveram na Estação de São Bento, no Porto. Já posou para Vogue, já foi modelo de biquínis para mulheres que fizeram mastectomia, entre muitos outros projetos. Vale a pena seguir no Instagram as páginas @sweetdecemberproject e @sweetoctoberprojet, que assina como Ana Bee.

"O meu objetivo foi sempre utilizar aquilo que me tinha acontecido para um bem maior, era uma necessidade de cidadania. Porque depois disto nunca mais desperdiçamos um minuto da nossa vida, todos são importantes." Há tempos, numa consulta de rotina, perguntou à médica acerca de uma hipotética recidiva. Respondeu-lhe assim: "O sucesso do teu tratamento só vai ser verificado quando tu morreres, velhinha." Porque quem se agarra à vida desta maneira nunca está disposto a largá-la.

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