Emigrantes regressam a Fátima com velhos hábitos e novas promessas

Fátima volta a receber milhares de emigrantes, na peregrinação em que já era esperado o regresso de multidões. Mas há apenas quatro grupos estrangeiros inscritos para esta peregrinação dedicada também ao migrante e refugiado. Entre velhos hábitos, há agora novas promessas: os cães, cuja entrada é oficialmente proibida, estão cada vez mais presentes e são alvo de promessas, como qualquer membro da família.

Cá fora, o comércio, a restauração e a hotelaria mantêm o mesmo queixume dos últimos meses: uma crise sem paralelo. Mas dentro do Santuário cumprem-se as palavras de D. António Marto, bispo da Diocese de Leiria-Fátima, quando em maio passado vaticinou o regresso das multidões em agosto. Apesar de poucos grupos inscritos (apenas quatro portugueses, mais um espanhol, um polaco e outro alemão), os emigrantes têm assomado em força ao santuário mariano, em pequenos grupos familiares, cumprindo promessas ou simplesmente para agradecer e pedir graças para mais um ano. "Tem sido assim toda a semana", tal como garante ao DN fonte do Santuário de Fátima, que hoje e amanhã espera milhares de peregrinos no recinto.

Nesta peregrinação internacional aniversária - que além de celebrar a quarta aparição da Virgem Maria aos pastorinhos, integra desde há 48 anos a peregrinação nacional do migrante e refugiado - a maioria dos emigrantes portugueses com quem o DN falou não vai ficar para as cerimónias desta noite e de amanhã. Isso quer dizer que não vão ocupar hotéis, quando muito ocuparão as mesas dos restaurantes à hora de almoço.

Nas ruas, o movimento é bastante. Mas Gracinda Vieira, 75 anos, mais de 30 como proprietária de uma loja de artigos religiosos junto ao Santuário, diz que "nunca se viu um negócio tão fraco". "As pessoas vêm, mas não compram. Na melhor das hipóteses, levam velas." A conversa é interrompida por uma peregrina que pergunta por "velas a 15 cêntimos". Mas ali, naquela loja, só há a 20. A mulher agradece e vai percorrendo o corredor do comércio à procura de mais barato. Porque as velas são o artigo mais presente nesta peregrinação. E como dentro do Santuário só existem até pouco mais de meio metro, é lá fora que os peregrinos encontram as velas da altura das pessoas (normalmente para cumprir promessas).

Uma promessa por Nany, le petit chien

Dália e João Barata seguram duas velas com 1,70 metros, a altura da filha "que se curou de uma grande depressão". Naturais da Sertã, estão emigrados em França há 29 anos. Nos mais recentes cumprem a promessa anual de acender e queimar no tocheiro as duas velas da altura da filha, bem como algumas mais pequenas que perfaçam o peso de Nany, o cão que foi desenganado pelo veterinário, em França, por causa da insuficiência renal. "Mas eu vim a Portugal e ofereci a promessa de aqui voltar todos os anos, acendendo o peso dele em velas, em cada ano", conta Dália ao DN, enquanto segura Nany ao colo.

Não há um ano que passem sem ir a Fátima. "Este lugar tem um significado especial. E à medida que passam os anos e as adversidades da vida nos põem à prova, mais aumenta a nossa fé", explica. O caso de Dália e João não será o único, antes um sinal dos tempos. A entrada de animais no recinto é oficialmente proibida, mas há cada vez mais condescendência. Nesta peregrinação, são muitos os cães que os donos levam ao Santuário.

Mais atrás, na imensa fila que começa no exterior do Santuário, com extensão de várias centenas de metros, a família Pereira permanece unida, à espera da sua vez de chegar ao queimador de cera. Nelson Pereira e a mulher, Soazig, levam também um bouquet de flores, além de velas. Viajaram de Amarante, com o irmão dele, Micael Pereira, e a cunhada, Márcia Moreira, mais duas crianças. Não têm promessas para cumprir, mas fazem questão de ir ali todos os anos.

Os dois irmãos já nasceram em França, Soazig também, mas Márcia emigrou apenas em 2017, quando se casou com Micael. É médica num hospital da região pariense, e desde que chegou a Portugal, para as férias de agosto, não para de se espantar com as diferenças encontradas em tempo de pandemia. "Costumo dizer que os dois países são o oito e o oitenta em matéria de medidas de segurança sanitária. Portugal é o 80. Às vezes tenho a sensação de exagero", diz ao DN, ela que mesmo quando morava em Portugal já gostava de visitar o Santuário. "Pela tranquilidade e pela sensação de paz que temos aqui."

"Vinha nem que fosse de joelhos"

É a mesma descrição que faz Felicidade da Silva voltar ao Santuário em cada agosto, desta vez acompanhada de um casal de amigos franceses e os filhos. Natural de São João da Madeira, nunca lhe passou pela cabeça ficar em França, mesmo quando se especulava sobre o fecho das fronteiras. "Eu vinha nem que fosse de joelhos. Preciso muito de vir a Portugal todos os anos, e preciso muito de vir a Fátima também", relata ao DN.

A seu lado, a francesa Carole Marx fotografa cada pormenor da Basílica, ao lado do filho Remy, 12 anos, que ostenta a sua máscara com a imagem de Cristiano Ronaldo. É a terceira vez que vêm a Portugal, mas é a primeira em Fátima. "Parece-me que estamos em Roma ou no Vaticano", diz Carole, encantada com a moldura do lugar.

Noutros anos, o recinto enchia-se de grupos estrangeiros também nesta altura. Basta ver que, dos 280 grupos inscritos em 2019, 212 eram estrangeiros. E em 2018, dos 321 inscritos, 236 vinham dos quatro continentes do mundo, apenas 85 eram portugueses. Essa quebra do turismo religioso é bem notória em Fátima. Um dos poucos estrangeiros que o DN encontrou neste 12 de agosto é Iggy, jovem maestro de 25 anos, natural de Vitória, no País Basco, que anda de bicicleta a percorrer Portugal ao lado dos amigos Jon e Pablo, da mesma idade. É a segunda vez que o espanhol encarna o papel de peregrino de Fátima, embora da primeira vez o tenha feito noutro registo: a pé. Demorou dois meses numa caminhada de fé, ele que é devoto de Nossa Senhora de Fátima. Os três amigos vão ficar apenas por algumas horas, depois seguem viagem.

Tal como aconteceu nas peregrinações de maio e junho, os peregrinos que vão a pé não têm estruturas de apoio, como habitualmente acontecia, ao longo do caminho. A pandemia e as regras sanitárias afastaram os grupos dos pontos estratégicos, como bem pode notar quem se faz à estrada. Como Fernando Pereira, o construtor civil e proprietário de um lar de idosos na Póvoa de Varzim, que todos os anos faz o caminho duas vezes: em maio e agosto. Foi dos poucos que se aventuraram em maio, na peregrinação histórica sem peregrinos, e desta vez voltou a repetir a viagem, sempre com uma imagem de Nossa Senhora na mochila. Há 30 anos que cumpre esta promessa: "Tive um acidente e fiquei muito mal, estava em risco de me amputarem a perna. Prometi que se voltasse a andar, vinha cá todos os anos." E assim faz. Como ele, há muitos residentes em Portugal que estão a aproveitar agosto para colmatar a falta que sentiram das peregrinações recentes. E a Capelinha das Aparições enche-se de devotos, o corredor que atravessa o recinto volta a encher-se de gente de joelhos, que assim paga promessas e agradece à Senhora de Fátima.

Peregrinos oferecem trigo ao Santuário

Hoje e amanhã, esperam-se milhares de peregrinos, na peregrinação internacional aniversária que é presidida pelo bispo de Santarém, D. José Traquina, neste ano eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Esta peregrinação assinala a quarta aparição de Nossa Senhora, a única que decorreu noutra data, a 19 de agosto, e noutro lugar. De acordo com os relatos escritos, a Virgem apareceu numa zona chamada Valinhos, a cerca de três quilómetros da Cova da Iria e a poucas centenas de metros da casa de Lúcia, a mais velha dos três pastorinhos.

Para esta quinta-feira, 13 de agosto, está ainda previsto um gesto característico no ofertório da Eucaristia, que é a oferta de trigo, pelos peregrinos. "Este gesto realiza-se neste ano pela 80.ª vez. A sua história remonta a agosto de 1940, quando um grupo de jovens da Juventude Agrária Católica, de 17 paróquias da Diocese de Leiria, ofereceu 30 alqueires de trigo, destinados ao fabrico de hóstias para consumo no Santuário de Fátima. Desde aquele ano, os peregrinos, já não só de Leiria mas também de outras dioceses do país, e até do estrangeiro, têm vindo a dar continuidade, ano após ano, a este ofertório", refere a Reitoria do Santuário.

Durante o ano de 2019, foram oferecidos 8060 quilos de trigo e 545 quilos de farinha. Consumiram-se, no Santuário, cerca de 15 500 hóstias e 1 089 000 partículas.

O programa da peregrinação mantém-se idêntico ao celebrado neste ano, desde maio. No dia 12, às 21.30, haverá a recitação do rosário, seguido da procissão das velas e da celebração da palavra no altar do recinto. No dia 13, às 09.00, haverá novamente o rosário internacional, seguido da missa internacional, com a bênção dos doentes. A peregrinação termina, como sempre, com a procissão do adeus.

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