Carnide. PS, PSD, BE, PCP e CDS juntos contra o fecho da esquadra

Centenas de pessoas protestaram em Carnide contra o fecho da esquadra. O presidente da junta, Fábio Sousa, do PCP, conseguiu apoio de toda as forças políticas e isolou o governo numa decisão muito contestada

Os 250 capacetes laranja e outros tantos coletes amarelos, encomendados pela junta de freguesia de Carnide, esgotaram rapidamente. Os moradores que quiseram protestar contra o encerramento da sua esquadra da PSP foram muitos mais e transbordavam da pequena praceta em frente às instalações, de portas fechadas desde outubro. Fábio Sousa, o presidente da junta de freguesia, eleito pelo PCP, desafiou os 'fregueses' para ali se juntarem, "colocarem os capacetes na cabeça e mostrarem ao ministério da Administração Interna (MAI) que estão prontos para por mãos à obra e ajudarem a recuperar aquele posto da PSP.

O apelo foi claramente ouvido e o autarca ainda tinha uma surpresa para todos: além do seu partido, que contou com a presença do vereador João Ferreira e do deputado Duarte Alves, o protesto contou também com o apoio assumido de representantes do PS, PSD, BE e CDS. "É mais uma demonstração clara que a segurança é uma preocupação das pessoas e que a nossa luta é justa", sublinhou Fábio Sousa, puxando para o palco improvisado aqueles representantes que elogiaram a sua iniciativa.

A socialista Virgínia Pinto, membro da Assembleia de Freguesia, moradora da freguesia, exigiu a reabertura da esquadra, "pelo menos até haver uma nova", e lembrou que "foi aprovada uma moção na câmara por unanimidade" a reivindicar isso mesmo. "A luta também é nossa", frisou.

A socialista Virgínia Pinto, membro da Assembleia de Freguesia, moradora da freguesia, exigiu a reabertura da esquadra, "pelo menos até haver uma nova", e lembrou que "foi aprovada uma moção na câmara por unanimidade" a reivindicar isso mesmo. "A luta também é nossa", frisou.

O PSD prometeu estar "na linha da frente, quer na Câmara Municipal, quer na Assembleia da República, a defender esta causa".

João Ferreira, do PCP, sublinhou que "desde 2012, quando se falou na reorganização das esquadras em Lisboa, algumas encerraram (conforme noticiou o DN este sábado) e não temos mais polícias na rua". O vereador defende que "a segurança da população só fica assegurada com o policiamento de proximidade proporcionado pelas esquadras". Na sua opinião "é condenável que de feche uma esquadra por falta de condições, sem que nunca tenham sido feitas obras e a responsabilidade é do ministério da Administração Interna".

Uma nova esquadra?

Ao DN, o MAI tinha dito na passada sexta-feira que "face à dimensão e natureza das obras necessárias, a reabertura da esquadra está em análise no quadro do reordenamento do dispositivo na cidade de Lisboa" e que "as decisões nesta matéria assentam exclusivamente em critérios de natureza operacional".

Esta segunda-feira, a poucas horas do protesto popular, o secretário de Estado Antero Luís veio dizer ainda não tinha o plano da PSP para a reorganização das esquadras em Lisboa mas, ao mesmo tempo, afirmou que prevê construir uma nova esquadra em Carnide. Ao DN, Fábio Sousa, revelou a sua leitura: "É uma clara tentativa de desmobilizar. Mas o resultado está à vista. Não conseguiu". O MAI diz que pediu à junta para identificar outras instalações que possam albergar a esquadra, mas Fábio Sousa diz que "o MAI e a Câmara sabem bem que não há edifícios disponíveis - há terrenos livres, mas terá que ser uma construção de raiz e, enquanto isso, têm que ser feitas obras e reaberta a antiga".

Na manhã desta segunda-feira, o DN visitou as antigas instalações, acompanhada por dois assessores do ministério da Administração Interna e pelo subintendente Francisco Alves, que comanda a 3ª divisão da PSP, a que pertence a esquadra de Carnide.

Na manhã desta segunda-feira, o DN visitou as antigas instalações, acompanhada por dois assessores do ministério da Administração Interna e pelo subintendente Francisco Alves, que comanda a 3.ª divisão da PSP, a que pertence a esquadra de Carnide. Conforme já tinha sido atestado, em agosto passado, pela delegada de Saúde, as condições são deploráveis, com cinco tampas de esgoto dentro das salas, infiltrações e mau cheiro.

Para o MAI não há solução para aquela situação. Antero Luís sublinhou que "é impossível reabrir a esquadra de Carnide" sem uma solução definitiva em relação aos esgotos, dando conta que esta situação já foi transmitida ao presidente da junta de freguesia. "Se houver oportunidade de desviar os esgotos para outro sítio, a esquadra poderia ser eventualmente reabilitada. Neste contexto, não faz sentido", disse, justificando com a impossibilidade de se desviar os esgotos.

Perceção de insegurança versus estatísticas

Não é essa, no entanto, a opinião da Junta de Freguesia, que reivindica que seja autorizada a aceder ao edifício para fazer um levantamento rigoroso sobre as necessidades. "Os arquitetos e engenheiros da junta dizem que há sempre soluções, que as tampas de esgoto podem ser seladas, que os canos podem ser desviados. De resto, são arranjos de paredes, vedar infiltrações e pintar. Estamos dispostos a ajudar a fazer isso, os comerciantes de Carnide também. O que não percebo é como deixaram chegar a esquadra a este estado", afirma Fábio Sousa.

Essa também foi uma pergunta que o DN fez à PSP, ao MAI e à Câmara de Lisboa, mas ainda não recebeu respostas.

Entre os moradores presentes no protesto ouvia-se falar muito na "insegurança" que começaram a sentir, na "tanta falta" que faz a esquadra, nas "saudades dos agentes que já eram conhecidos de todos e que as crianças chamavam às vezes pelo nome". Ninguém quer ouvir falar em ir às outras duas esquadras da freguesia, uma no bairro da Horta Nova, a 1,6 quilómetros, outra no bairro Padre Cruz, a 2,1 quilómetros - para onde foram os agentes de Carnide. Quanto à terceira hipótese, no seu centro comercial Colombo, já aprovam, embora aleguem que "tem só 3 ou 4 agentes e são gratificados ao serviço do centro comercial".

O ministério da Administração Interna contrapõe a "insegurança" com estatísticas e diz que com a decisão de fechar esta esquadra "foi possível disponibilizar de imediato, 10 polícias para funções operacionais na via pública, que anteriormente estavam afetos ao atendimento ao público e à segurança da instalação".

A tendência de descida, afiança o MAI, é ainda "mais acentuada" no período em que fechou a esquadra. "Entre outubro de 2019 e janeiro de 2020, a criminalidade geral registou uma diminuição de 32,9%, quando comparada com o período homólogo

Fonte oficial do MAI alega ainda que "a criminalidade geral na área de influência das esquadras da PSP em Carnide teve uma diminuição de 12,5% em 2019, quando comparada com 2018". Esta tendência de descida, afiança o MAI, é ainda "mais acentuada" no período em que fechou a esquadra. "Entre outubro de 2019 e janeiro de 2020, a criminalidade geral registou uma diminuição de 32,9%, quando comparada com o período homólogo, entre outubro de 2018 e janeiro de 2019", assinala.

Mas o presidente da junta contaria as estatísticas com "a perceção e o sentimento dos moradores" que o contactam. "Esses números não refletem de todo a realidade, nem aquela que me é transmitida pelas pessoas, nem pelos próprios agentes da PSP com quem falo e que me dizem que é notório o aumento das ocorrências. O problema com as estatísticas é que elas registam a criminalidade participada e o que é preciso saber é se esta diminuição não quer dizer que, não havendo uma esquadra tão central como esta, as pessoas deixaram de participar os crimes", asseverou.

O DN pediu ao MAI os dados comparativos sobre as participações em todas a esquadras de Carnide, para poder confirmar a que se deveu esta descida. Está a aguardar resposta.

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