Kiev avisa que invasão russa pode acontecer "num piscar de olhos"

Chefe da diplomacia ucraniana pede ações da parte da comunidade internacional antes que seja tarde, alegando que "será mais difícil e caro mitigar a crise" se Putin não for travado.

"Se a Rússia decidir empreender uma operação militar, as coisas vão acontecer num piscar de olhos", avisou ontem o chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba, apelando à comunidade internacional que passe já à ação. "Não importa o quão difícil seja a dissuasão agora, será mais difícil e caro mitigar a crise se não conseguirmos travar [o presidente russo, Vladimir] Putin e permitirmos que ele decida falsamente que pode lançar outra ofensiva. É melhor agir agora, não mais tarde", acrescentou.

Nas últimas semanas a Ucrânia, junto com os EUA, a NATO e a União Europeia, têm feito soar o alarme devido às movimentações de tropas russas junto à fronteira ucraniana, alertando para uma possível invasão. Numa conferência de imprensa com meios internacionais, Kuleba indicou que há mais de 115 mil tropas à volta da Ucrânia e na península da Crimeia (anexada em 2014) e nas regiões ocupadas pelos separatistas pró-russos de Donetsk e Luhansk (que têm alegadamente recebido reforços de Moscovo).

"O que estamos a ver é muito sério. A Rússia destacou uma grande força militar nas regiões próximas da fronteira ucraniana", avisou o ministro, deixando contudo claro que os militares ucranianos estão agora mais bem preparados do que estavam em 2014 - o conflito matou, desde então, mais de 13 mil pessoas. O exército está "incomparavelmente mais forte" e irá "ripostar", indicou. Na semana passada, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou também a Rússia de estar a preparar "um golpe de Estado na Ucrânia para o dia 1 ou 2 de dezembro".

Moscovo nega planos

O Kremlin tem negado as acusações de que estará a preparar qualquer ação militar, acusando por seu lado Kiev de "provocações". Na semana passada, Putin, num telefonema com o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, alegou que essas "provocações contínuas" têm como objetivo "exacerbar a situação". Moscovo tem também apontado o dedo aos norte-americanos, que acusa de estarem a passar "falsas informações sobre a concentração de forças russas" junto à fronteira.

"Putin acredita que o Ocidente é fraco e indeciso, especialmente agora. Pode ter a confiança de que este é o momento certo para mudar o balanço de poder na região para seu próprio proveito", acrescentou Kuleba. "No pior cenário, a Rússia pode tentar minar toda a arquitetura de segurança do pós-Guerra Fria na Europa e redesenhar as fronteiras europeias à força outra vez, como fez em 2008 na Geórgia e em 2014 na Ucrânia", referiu o chefe da diplomacia.

Nesse sentido, insistiu: "Apelamos aos parceiros para que aprofundem a cooperação com a Ucrânia nos setores da segurança e defesa. Quanto mais forte for a Ucrânia, menos provável é que a Rússia arrisque outro ataque militar de larga escala", referiu, lembrando que os ucranianos não têm qualquer plano para uma ofensiva militar em Donetsk ou Luhansk, estando centrados em procurar "soluções políticas e diplomáticas".

A ideia de que os ucranianos estariam a pensar recorrer à força para solucionar os problemas nestas regiões foi passada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que no domingo alegou que as acusações de que a Rússia estaria a preparar uma invasão podiam ser uma tentativa de Kiev esconder os seus próprios planos. Segundo a imprensa oficial russa, o presidente ucraniano pediu ontem ao Parlamento que passe uma lei que permitirá a presença de forças estrangeiras no país, como parte de exercícios multinacionais em 2022.

Erdogan oferece ajuda

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse ontem que a Turquia está preparada para servir como mediadora entre a Rússia e a Ucrânia. O país que faz parte da Aliança Atlântica tem boas relações tanto com Moscovo como com Kiev, apesar de ter sido criticado pelos russos por vender drones militares no início do ano aos ucranianos. Ancara também se opôs à anexação da Crimeia em 2014, mas isso não impediu o aprofundar das relações de cooperação ao nível da defesa e do setor energético.

"Quer seja como um mediador ou falando com eles sobre o tema, ao ter estas conversas com a Ucrânia e com Putin, se Deus quiser, queremos ser parte da solução para isto", disse Erdogan, segundo os media turcos, no avião de regresso de uma visita ao Turcomenistão. O Kremlin não comentou a oferta, mas Kuleba disse na conferência de imprensa que Kiev "aceita qualquer esforço que possa ajudar a pôr fim à guerra e a devolver os territórios ucranianos que estão atualmente sob controlo russo".

A Ucrânia, assim como a crise na fronteira entre a Bielorrússia e vários países europeus, será discutida na reunião de chefes da diplomacia da NATO, que decorre hoje e amanhã em Riga, na Letónia.

susana.f.salvador@dn.pt

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