Boris tenta virar a página, mas rebelião está para ficar

Primeiro-ministro venceu moção de confiança, mas não calou divisões no Partido Conservador e há vários desafios pela frente.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, quer virar a página às polémicas depois de ter vencido a moção de confiança dentro do Partido Conservador, mas o tamanho da rebelião entre os seus deputados foi tal (211 votos a favor, 148 contra) que o assunto teima em não desaparecer. O pior para o líder conservador é que vêm aí desafios importantes e, apesar de teoricamente estar livre de nova moção no espaço de um ano, já se fala numa possível mudança das regras para o tentar derrubar.

Numa reunião com os principais ministros do seu gabinete, muitos deles apontados como possíveis sucessores caso venha a ser afastado, o primeiro-ministro falou numa vitória "convincente" e agradeceu o trabalho de todos, alegando que é hora de deixar de lado "aquilo de que os opositores querem falar", isto é, as polémicas como o Partygate. "Agora podemos continuar a falar do que acho que as pessoas neste país querem que nós falemos, que é o que estamos a fazer para as ajudar", afirmou Johnson.

O problema é que, dois anos e meio depois de ter conseguido uma maioria histórica para o Partido Conservador no Parlamento britânico, muitos acreditam que a sua liderança ficou debilitada. E tal como outros líderes conservadores que sobreviveram a moções de confiança apenas para cair algum tempo depois - Theresa May teve um resultado melhor na sua moção em dezembro de 2019 e caiu seis meses depois -, há já quem comece a fazer contas aos meses que aí vêm. E o cenário não é positivo para o primeiro-ministro.

O primeiro desafio é já a 23 de junho, em duas eleições intercalares em Tiverton and Honiton e Wakefield. Ambas as circunscrições estavam nas mãos de deputados conservadores que foram afastados no meio de escândalos sexuais: Neil Parish, após admitir ter visto pornografia no telemóvel na Câmara dos Comuns, e Imran Ahmad Khan, depois de ter sido condenado a 18 meses de prisão por abuso de menores. Uma derrota expressiva pode ser um argumento para os opositores internos demonstrarem que Johnson já não consegue atrair votos como no passado.

Além disso, por muito que o primeiro-ministro queira que as festas no n.º 10 de Downing Street durante o confinamento fiquem no passado, tem ainda de enfrentar uma investigação parlamentar para saber se mentiu ou não de propósito aos deputados quando disse que não houve festas. Caso isso fique provado, o esperado seria a demissão de Johnson. Enquanto isso, o governo vai também perdendo popularidade, perante o aumento do custo de vida, nomeadamente no que diz respeito à fatura energética, com os conservadores a serem acusados de fazerem muito pouco para ajudar.

Finalmente, apesar de as regras das moções de confiança indicarem que o líder está teoricamente livre de enfrentar um novo voto durante um ano, fala-se na possibilidade de se poder alterar esta regra. Nesse aspeto, a conferência anual do partido, no início de outubro, poderá ser o fim da linha para Johnson e ser a altura para entronizar um novo líder e dar-lhe tempo de sarar as divisões e preparas as próximas eleições legislativas, previstas para 2024. O problema é que não parece haver nenhuma figura consensual forte para lhe suceder.

Os próximos meses vão ditar a sorte de Johnson, que é conhecido por não desistir e pode ainda surpreender todos e sair por cima destes escândalos para conquistar uma nova vitória nas urnas.

Possíveis sucessores?

Rishi Sunak: O ministro das Finanças, de 42 anos, era até há pouco tempo o favorito nas apostas para suceder a Boris Johnson. Mas a demora a reagir ao aumento do custo de vida, assim como a polémica em torno da fortuna da mulher - que não pagava impostos no Reino Unido - têm-lhe custado apoios.

Liz Truss: A chefe da diplomacia, de 46 anos, já foi apelidada de "nova Dama de Ferro", numa comparação com Margaret Thatcher. Há mais de dez anos que tem cargos no governo, tendo entrado no Executivo com David Cameron e continuado com Theresa May e Boris Johnson.

Jeremy Hunt: O ex-chefe da diplomacia e ministro da Saúde, de 55 anos, veio a público dizer que ia votar "pela mudança" contra Johnson na moção de confiança. Em 2019, disputou a liderança contra o atual primeiro-ministro e perdeu.

Sajid Javid: O ex-ministro do Interior e das Finanças, agora à frente da Saúde, é outro dos nomes de que se fala para suceder a Johnson. Aos 52 anos, o filho do imigrante paquistanês que conduzia um autocarro também tem sido questionado, tal como Sunak, devido à sua fortuna.

Priti Patel: A ministra do Interior, de 50 anos, é um dos nomes da ala mais conservadora do partido. Tem tido uma posição forte contra os migrantes e, numa altura em que um número recorde de pessoas atravessa ilegalmente o Canal da Mancha, desenhou um plano para os enviar para o Ruanda.

Dominic Raab: O vice-primeiro-ministro e titular da Justiça, de 47 anos, substituiu Johnson quando este teve covid-19. Foi outro dos que em 2019 tentou chegar à liderança do partido. Foi chefe da diplomacia, mas foi despromovido após críticas à sua ação no regresso dos talibãs ao poder no Afeganistão - continuou de férias.

susana.f.salvador@dn.pt

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