Salman Rushdie está ligado ao ventilador e arrisca perder um olho

Com a cabeça a prémio desde o decreto do ayatollah Khomeini de 1989, escritor foi levado para o hospital após um homem o esfaquear no pescoço e no abdómen. Atacante foi identificado como Hadi Matar, de 24 anos, residente em Fairview, New Jersey.

Salman Rushdie, que passou anos escondido depois de uma fatwa iraniana ter "ordenado" a sua morte, ficou a respirar através de um ventilador e pode perder um olho após o ataque com faca de que foi alvo num evento literário no estado de Nova Iorque, na sexta-feira.

O autor britânico de Os Versículos Satânicos, livro que provocou fúria entre alguns muçulmanos que o catalogaram como uma blasfémia, teve que ser transportado de helicóptero para o hospital para uma cirurgia de emergência após o ataque.

Na noite de sexta-feira, o agente de Rushdie disse, num comunicado obtido pelo The New York Times, que "as notícias não são boas". "Salman provavelmente perderá um olho; os nervos de seu braço foram cortados; e o seu fígado foi esfaqueado e danificado", disse o agente Andrew Wylie, que acrescentou que Rushdie não conseguia falar.

Carl LeVan, professor de política da Universidade Americana que participou no evento literário, disse à AFP que o agressor correu para o palco onde Rushdie estava sentado e "o esfaqueou repetida e violentamente". Várias pessoas correram para o palco e conseguiram deitar o suspeito ao chão antes que um policial presente no evento o prendesse. Um médico na plateia administrou atendimento médico até a chegada dos socorristas de emergência.

Há muito que as autoridades iranianas se distanciaram da fatwa que em 1989, um ano após a publicação de Os Versículos Satânicos, o ayatollah Khomeini emitiu contra Salman Rushdie, prometendo uma recompensa de três milhões de dólares a quem o assassinasse. Mas ainda em 2016, media estatais iranianos juntaram mais 600 mil dólares ao prémio. E a prova que, depois de ter passado um década em fuga na sequência do decreto religioso, a vida do escritor britânico-americano nascido em Bombaim ainda corre risco é o ataque que sofreu esta sexta-feira, quando um homem esfaqueou no pescoço e no abdómen durante um evento em Nova Iorque.

O homem que o atacou foi detido por um agente da polícia estadual que se encontrava na sala e o entrevistador também ficou ferido na cabeça, sem gravidade. O atacante foi identificado pela polícia como Hadi Matar, de 24 anos, residente em Fairview, New Jersey. O estado de saúde de Rushdie é que continuava incerto, com o seu agente literário a dizer que estava a ser submetido a uma cirurgia, que durou várias horas. O que a polícia confirmou.

A governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, confirmou à CNN que o escritor estava "vivo" e "a receber todos os cuidados de que precisa". E destacou "um indivíduo que passou décadas a dizer as verdades aos poderosos. Uma pessoa que tem andado por aí sem medo, apesar das ameaças que o perseguiram durante toda a sua vida".

Do mundo literário e político logo surgiram reações. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse-se "espantado" com os acontecimentos: "Estou espantado por sir Salman Rushdie ter sido esfaqueado enquanto exercia um direito que nunca devíamos deixar de defender", escreveu no Twitter, acrescentando: "os meus pensamentos estão com a sua família. Todos esperamos que ele esteja bem".

Nascido em 1947 em Bombaim (atual Mumbai), na Índia, Rushdie ganhou fama mundial com o seu romance Filhos da Meia-Noite, em 1981. Esta metáfora sobre a independência sangrenta da Índia e do Paquistão valeu-lhe o prémio Booker nesse ano. Mas foi com Os Versículos Satânicos, de 1988, que a sua vida mudou para sempre. No ano seguinte, o ayatollah Khomeini, guia supremo do Irão e líder da Revolução Islâmica, emitia uma fatwa (decreto religioso) apelando à sua morte e oferecendo uma recompensa de três milhões de dólares a quem o executasse. O romance foi considerado por alguns muçulmanos como desrespeitoso em relação ao profeta Maomé.

Nascido numa família de muçulmanos não praticantes, Rushdie, ele próprio ateu, passaria os nove anos seguintes escondido, saltando de casa em casa, sem poder dizer aos filhos onde se encontrava e vivendo sob o pseudónimo Joseph Anton, que mais tarde daria nome ao seu livro de memórias em que relata essa vida em fuga.

A fatwa nunca foi oficialmente levantada, mas Rushdie voltou aos poucos a uma vida mais ou menos normal. Sobretudo depois de em 1998 as autoridades iranianas terem anunciado que não apoiam o decreto que defende a sua morte.

"O meu problema é que continuam a ver-me sob o único prisma da fatwa", comentou certa vez Rushdie, determinado a manter a sua identidade de homem das letras, sem se tornar símbolo de nada. Mas a ascensão do islamismo radical fez com que o seu nome se referisse repetidamente, especialmente no Ocidente, à imagem de um combatente contra o obscurantismo religioso e a favor da liberdade de expressão.

Cansado de ser "invisível"

A partir de 2003, cansado de ser um "homem invisível", Salman Rushdie começou a multiplicar as viagens e aparições públicas, embora sempre sob a proteção do governo britânico. Nos últimos anos fixou-se em Nova Iorque, onde levava uma vida quase normal, escrevendo obras impregnadas de sátira e irreverência.

A fatwa nunca foi revogada e muitos tradutores de Os Versículos Satânicos sofreram ataques ao longo dos anos. O tradutor japonês do romance, Hitoshi Igarashi, foi esfaqueado até a morte em Tóquio em julho de 1991.

Em 2008, Rushdie foi feito cavaleiro pela rainha Isabel II. O anúncio dessa distinção, um ano antes, provocou protestos no Irão e no Paquistão, onde um ministro chegou a afirmar que tal afronta justificava atentados suicidas.

Em 2018, o escritor garantiu que Os Versículos Satânicos é uma obra amplamente "incompreendida". "É um romance sobre imigrantes do sul da Ásia em Londres e sua religião apenas um aspeto dessa história", afirmou.

Tendo aparecido em filmes como O Diário de Bridget Jones ou na série americana Seinfeld, Rushdie permaneceu inabalável na sua defesa da liberdade de expressão e, após o atentado que dizimou a equipe da revista satírica francesa Charlie Hebdo em 2015, insistiu que a religião deveria ser alvo de piadas. Com agências

helena.r.tecedeiro@dn.pt

atualizado às 9.00

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