Nara Vidal: "O Brasil é um país que está num dos seus piores momentos"

Escritora, tradutora e professora brasileira, Nara Vidal vai falar no dia 18 no TEDxLisboa sobre o silenciamento das mulheres e o feminismo, um tema que está muito presente na sua literatura. Crítica ferrenha do governo de Jair Bolsonaro, diz que viver fora lhe permite olhar para o seu país natal de uma forma mais privilegiada e deseja que as presidenciais deste ano permitam que o Brasil volte a olhar para a frente.

O que podemos esperar da sua intervenção na TEDxLisboa?
Com o tema muito amplo, muito interessante, que é o "Sementes", fiquei pensando que um dos meus grandes interesses políticos e quotidianos é precisamente a questão do feminismo. E imaginei que fosse uma boa ideia propor uma fala onde eu possa comentar a questão do silenciamento das mulheres, que é um braço das discussões do feminismo. Eu acho que trazer esse tema para o TEDx é uma boa ideia, porque é um tema que interessa a todos, não interessa só às mulheres, deveria interessar a todos porque é um tema político, e eu acho que é um momento oportuno de se falar sobre machismo... Sempre é, porque é um tema sempre atual, infelizmente, e vai ser por muito tempo ainda.

No ano passado viveu cerca de dois meses em Cascais no âmbito das Residências Literárias da Fundação D. Luís I.
Em outubro do ano passado fui convidada pela Fundação D. Luís I e fiquei ali durante dois meses e meio trabalhando um livro sobre as personagens femininas na obra de Shakespeare, que é um livro que sai no ano que vem no Brasil. Eu fui a primeira mulher a ser convidada para fazer parte dessa residência, então é muito significativo nesse sentido também, porque existe aí toda essa questão da mulher poder ter um espaço para criar sem interrupções, ter tempo para criar um trabalho intelectual. Foi muito interessante fazer parte dessa residência, fiquei dois meses e meio e foi ótimo! Eu adoro vir para Portugal e foi, sem dúvida, uma experiência excelente.

E uma residência assim, principalmente para uma mulher, permite uma concentração na escrita que não se consegue ter com filhos, a casa...
É claro! Esse é um dos grandes problemas. Existe ainda uma perceção de que a mulher, como mãe, como mulher simplesmente, às vezes nem tem a questão da maternidade envolvida nesse aspeto... mas a ideia de que uma mulher ou uma mãe não tem condição de se ausentar da vida doméstica para tratar de trabalho, de carreira, principalmente esse tipo de trabalho que eu faço, que é um trabalho intelectual e criativo e visto como supérfluo muitas vezes. E absolutamente não é. A ideia de uma mulher, uma mãe, sair, deixar a vida doméstica e trabalhar no seu projeto criativo e intelectual durante dois meses e meio é ainda estranha para muita gente.

Este ano publicou o seu romance Eva, que fala da violência doméstica entre mãe e filha, e um dos temas que tem focado na sua literatura é a questão da violência contra a mulher.
É verdade. É interessante porque esse tema não é premeditado, antes de escrever eu não penso "vou escrever um livro que vai falar sobre a violência contra a mulher". Mas é muito interessante que é um tema que vem naturalmente, para mim isso tem um significado muito profundo e que é a nossa realidade como mulheres ainda é muito envolvida nessa questão da violência. E não é só da violência às vezes psicológica, a violência como agressão física, é mesmo uma violação do corpo da mulher, como um território que, às vezes, através do machismo, é visto como um território que é aceitável que seja um território de violência, um território de exploração. Então quando eu escrevo esses temas vem naturalmente, porque acho que infelizmente são temas que ainda nos cercam naturalmente e isso precisa de ser pensado, porque isso precisa de ser combatido.

Também publicou várias obras de literatura infantojuvenil. De onde vem este interesse? Tem a ver com os seus filhos?
Sim, tem a ver com os meus filhos. Eu publiquei o primeiro livro tinha 36 anos e a minha filha tinha uns dois anos, ela hoje tem 13, e eu escrevi uma espécie de coleção de histórias bilíngues, porque eu moro na Inglaterra já há muito tempo, são quase 21 anos. Os meus filhos nasceram aqui já, eles têm esse processo de aquisição de duas línguas ao mesmo tempo - eu falo só português com eles, mas a vida deles é predominantemente em inglês - e eu tenho essa espécie de resistência, eu preciso falar português com eles, porque faz parte da nossa identidade, é uma coisa que eu não estou disposta a negociar de maneira nenhuma. Então os filhos escutam português de mim, como parte da identidade, não só minha, mas a minha passada a eles e eu escrevi essa coleção de livros bilíngues exatamente com essa questão em mente, que era a aquisição de duas línguas ao mesmo tempo, que isso é um processo muito fascinante. A partir daí eu comecei a escrever livros para crianças, não mais bilíngues, em português só, e fui publicando esses livros e publiquei também dois livros para jovens, mas já tem tempo que eu não publico nada para esse público.

O seu interesse por Shakespeare é um interesse antigo e foi o que a levou a trocar o Brasil por Inglaterra em 2001. Como é que surgiu esse interesse?
Eu fiz a Faculdade de Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e ali tive contacto com a literatura em língua inglesa e então fui estudar um pouco sobre Shakespeare. Eu tive uma professora muito importante para mim, a professora Glória, e ela leu connosco em aula - pela primeira vez eu li uma peça de Shakespeare, Macbeth. E essa peça foi muito importante para mim porque abriu ali todo um interesse que eu cultivo com muita paixão até hoje por Shakespeare. Eu acho que a obra dele tem muito de nós humanos, a cada peça a gente se encontra, todo mundo tem alguma coisa em algum lugar escrito por Shakespeare e eu gosto muito desse aspeto humano que nós nos encontramos nas peças dele. É interessante porque os plots são geralmente um pouco mais banais, mas é que as personagens são muito ricas. As personagens fazem das peças o que elas são e eu gosto muito desse aspeto humano nas peças, das características das personagens, da força que trazem e dessa identificação que a gente pode ter com elas. Quando terminei a Faculdade de Letras, quis vir para Inglaterra para continuar a estudar Shakespeare. E agora, no ano que vem, sai esse livro sobre essas personagens femininas do Shakespeare, que é um projeto que me ocupa com muito interesse.

Já recebeu vários prémios ao longo da sua carreira e um deles foi conquistado com o livro Sorte, a sua primeira ficção longa, que demorou seis anos a escrever. Estes anos são fruto de um parto difícil, tendo em conta que estava mais habituada a escrever contos e histórias curtas?
São processos bem diferentes. Eu acho que para escrever uma novela, um romance, uma ficção mais longa, geralmente tenho muita calma, muita tranquilidade, o que não acontece nos contos. Geralmente, os contos são um pouco mais frenéticos, eu escrevo com uma certa urgência, não sei bem precisar a razão disso. Mas os romances, a ficção mais longa, eu levo muito tempo, porque gosto muito de um aspeto na escrita dos romances que é o das pesquisas, de tomar tempo para pesquisar aspetos sobre as personagens, sobre os lugares. Por exemplo, eu vou lançar em Portugal um livro este ano que se passa na década de 1930 no Brasil, no governo de Getúlio Vargas, e que fala sobre o movimento eugenista no Brasil, que era aquela tentativa do governo no branqueamento do brasileiro, uma coisa tão absurda. Essa parte da história do Brasil me interessa muito. Então, por exemplo, esse livro que vai sair foi um livro também que me levou muito tempo, porque tem todo o contexto histórico. É uma ficção, sem dúvida, como Sorte também, mas tem todo um contexto histórico, uma cortina por trás das personagens que é de referência histórica e que me interessa muito. Eu acho interessante fazer essas descobertas, coisas que ficaram veladas durante muito tempo e que são parte da história, isso interessa-me muito. Agora, os contos já são mais parece que urgentes, parece que é uma coisa mais frenética. O último livro de contos que escrevi foi durante a pandemia e eu escrevi muito rapidamente, em questão de poucas semanas. Eu digo escrevi, mas depois tem todo o processo de revisar, refinar, editar, de estar.

E esse livro sobre o eugenismo é um inédito?
É um inédito, vai sair primeiro em Portugal, ainda não saiu no Brasil.

Vive há mais de 20 anos em Inglaterra. Qual tem sido a sua relação com o Brasil nestas duas décadas? Como vê o seu país à distância?
É interessante porque eu acho que consigo enxergar o Brasil de uma maneira muito privilegiada estando distante. Acho que quando a gente está no lugar é claro a questão do ponto de vista, a gente precisa sair de um lugar para enxergar esse lugar. Então eu acho que vivendo aqui, sendo uma cidadã daqui, acho que isso me trouxe outras questões que, talvez, se eu não tivesse essa experiência, não teria. Questões, por exemplo, como é que eu vejo a importância de políticas sociais no Brasil hoje em dia, que aqui é muito forte, a própria questão do feminismo, a questão dos direitos da mulher, da igualdade no trabalho, igualdade no pagamento dos salários, dos direitos, a questão do racismo, várias questões. Eu acho que essa minha experiência como cidadã aqui, na Inglaterra, me levantou muitas questões que talvez teriam vindo um pouco atrasadas no Brasil e eu olho o Brasil hoje com essa visão mais crítica. Eu vou sempre ao Brasil, a família está lá, tenho amigos em toda parte, e é um país que está muito maltratado neste momento, é um país que está num dos seus piores momentos, e eu só espero que, se é um ano de eleições, a gente consiga voltar a ter um país que possa olhar para a frente. Para mim, é muito complicado, muito doído ver o Brasil estar onde está nesse momento. Eu sou uma crítica ferrenha contra o atual governo, então eu sofro muito de ver o Brasil da maneira que está. Por exemplo, a gente teve um discurso aí no 7 de Setembro [bicentenário da independência] medo, que foi um discurso marcado por machismo, referências preconceituosas, e então eu queria muito que o Brasil se livrasse disso. É um país que tem muito potencial, um país rico, mas com uma cultura impressionante, eu queria muito que a gente conseguisse sair desse atraso, desse retrocesso, em que a gente se encontra agora.

E acha que o Brasil e os brasileiros aprenderam a lição nestes quatro anos e vão dar a volta por cima?
Como eu queria dizer que sim! Porém é uma luta difícil. Eu sei que as pesquisas mostram que nós vamos ter um segundo turno e, infelizmente, eu acho que ainda há no Brasil uma parte da sociedade, principalmente, uma classe média... Eu acho que o Brasil tem uma parte da sociedade que ainda preza uma maneira de viver que valoriza formas de servidão que já não têm mais espaço na democracia. É preciso tirar um pouco desse preconceito, ampliar um pouco as políticas sociais para que essa mobilidade social aconteça mais rapidamente. Existe uma parcela da sociedade que não quer essa mobilidade social, ou seja, ela quer continuar tendo o que chamam de privilégios, por exemplo, têm empregadas e tem pessoas que prestam esse tipo de serviço que é mal remunerado... Isso é muito complicado, a gente precisa lutar por mais igualdade, por mobilidade social, são pessoas que precisam frequentar as escolas, frequentar universidades, terem cada vez mais acesso à informação, mais acesso à educação. É um país que sofre muito disso, desse projeto que foi a falta de educação no Brasil e que agora a gente vê como reflexo desse preconceito. Existe esse problema do analfabetismo funcional no Brasil, ou seja, as pessoas leem mas não leem, não interpretam, isso é muito grave. A gente precisa muito tentar dar uma oportunidade de educação que possa ajudar nesse problema o mais urgentemente possível.

E voltar a viver no Brasil é uma opção?
Pode até ser que sim. É sempre mais difícil, com todo esse tempo fora, voltar ao Brasil, porque não deixa de ser um lugar que você deixou para trás um pouco. Mas acho que gostaria muito de ter a oportunidade, a experiência, de voltar para o Brasil, mas um Brasil completamente diferente desse que está agora. Para esse Brasil de agora não quero voltar de jeito nenhum. Para mim é muito vergonhoso observar e acompanhar tudo que tem acontecido no Brasil nesses últimos quatro anos. Mas não é uma coisa que eu não pense talvez voltar a morar durante um tempo no Brasil, mas que seja um país com mais oportunidades, mais educação, um lugar justo, um pouco mais justo. Claro que as desigualdades sempre apontam, mas gostaria de voltar para um lugar diferente, um lugar de mais oportunidade, mais igualdade.

No dia 7 celebrou-se os 200 anos da independência do Brasil. Como é que a Nara vê Portugal?
É uma relação de afeto porque eu tenho muitos amigos aí, e para mim vai muito mesmo pela questão da língua, com todas as diferenças culturais, com todas as diferenças que existem, eu acho que isso enriquece essa minha convivência com o país. Para mim, morando na Inglaterra há tanto tempo, a questão da língua começa a pesar de uma maneira muito forte, e todas as vezes que eu vou ter a oportunidade de trocar ideias e conviver com pessoas que falam português para mim é muito interessante, passa a ser cada vez mais interessante.

Uma das suas atividades é escrever crónicas para o Tribuna de Minas, um jornal do seu estado natal. É uma forma de manter a ligação ao Brasil?
É uma forma de manter a ligação ao Brasil, sem dúvida. A minha própria escrita é uma maneira de manter essa língua viva, essa identidade que está ligada totalmente à língua, mas a questão de escrever para o Tribuna tem também uma outra ideia, é um lugar onde eu posso escrever sobre questões mais políticas, eu gosto muito de levantar essas questões. Eu tive férias mas volto no fim de setembro a escrever na Tribuna e vou abordar mesmo as eleições, porque a parte política me interessa muito e é um espaço que eu tenho para fazer isso. Sou muito livre ali na Tribuna, eu posso escrever sobre qualquer aspeto, qualquer tema que eu queira, e a questão política, nesse momento, no Brasil é urgente, eu gostaria muito de abordar isso com mais profundidade através dessa oportunidade que eu tenho de fala que é a minha escrita.

ana.meireles@dn.pt

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