Ana Magalhães: Deixar o medo para trás e cumprir um sonho

Ana Magalhães, chef na equipa do Six Senses Douro Valley, em Lamego, foi a grande vencedora da 33.ª edição do concurso Chefe Cozinheiro do Ano. É a quinta mulher a vencer, o que já não acontecia há 23 anos, e ainda conquistou mais dois prémios na iniciativa.

Ana Magalhães, chefe de partida no Six Senses Douro Valley, em Lamego, é a Chefe Cozinheiro do Ano 2022. Pela primeira vez em 23 anos, é uma mulher a vencer o concurso que já distinguiu chefes como Henrique Sá Pessoa, João Rodrigues, António Loureiro e Luís Gaspar. Aliás, em 33 anos que leva a iniciativa esta é apenas a quinta vez que uma mulher se sagra vencedora.

Para Ana Magalhães este concurso "já era um objetivo, não de agora, mas de alguns anos". "Mas talvez por ser mulher sempre tive um bocado de medo de participar", reconheceu em conversa com o DN pouco depois de ter conquistado o título, na quarta-feira, na FIL, em Lisboa. "A minha equipa, amigos e família estiveram sempre a insistir comigo, então acho que chegou o meu momento. Isto, sobretudo, é uma superação própria", admitiu. "Uma coisa que quis foi mostrar quem eu sou, não ser uma sombra, e deixar o medo para trás", afirmou a chefe, que entra no pequeno grupo de mulheres a conquistar aquele que se apresenta como "o maior e mais antigo concurso nacional de cozinha para profissionais", depois de Carla Rodrigues (1999), Celsa Vilalobos (1995), Adozinda Gonçalves (1993) e Adelaide Fonseca (1991).

"Depois de 23 anos, é uma mulher a ganhar esta competição, mostrando que também somos muito capazes. Estou muito orgulhosa do trabalho que fiz", comentou Ana Magalhães, de 26 anos, que além do prémio principal também recebeu a distinção Sustentabilidade Makro (atribuído ao concorrente que revelasse maior atenção e compromisso com práticas de sustentabilidade) e, graças à sua sobremesa, o Prémio Virgílio Gomes (atribuído ao prato que revelasse com maior evidência a evolução da Cozinha Portuguesa). Formada em Gestão e Produção de Cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo de Lamego, Ana Magalhães conseguiu o seu primeiro estágio aos 15 anos no Hotel Rural Quinta de Nossa Senhora do Carmo, passando depois pelo Hotel Vila Park, pelo Falésia Hotel e trabalhou no The Yeatman. Em 2019, juntou-se à equipa do Hotel Six Senses Douro Valley, que considera "a sua casa".

Menu sem glúten

No concurso Ana Magalhães apresentou, como entrada, escabeche de cavala com amêndoa e ervas, Grão-de-bico com línguas de bacalhau como prato de peixe, cabrito assado com arroz de miúdos para o prato de carne e a sobremesa foi leite creme de alfazema, chocolate, mel e limão. Todos os pratos são baseados na família, memórias e aromas de infância da chef. É no entanto o cabrito assado que considera o mais representativo.

O menu que apresentou não contém nem lactose nem glúten, devido às intolerâncias que a própria desenvolveu. "Este concurso serviu também para mostrar que as intolerâncias não são um problema e que tudo tem solução. Todos os sítios que eu e os outros concorrentes visitamos tinham um menu diferente e especial para mim e senti-me muito acolhida nesse sentido", explicou.

Por enquanto, a vencedora da iniciativa quer saborear a vitória. "Ainda não pensei qual pode ser o passo seguinte. Isto foi muita coisa para assimilar", confessou, admitindo que ainda nem sequer tinha assimilado ter ganho a etapa norte do concurso e agora já tem a final nacional para saborear e assimilar.

Cada um dos seis finalistas teve quatro horas e meia para preparar o seu menu, que deveria "defender e preservar as raízes da gastronomia tradicional portuguesa, os produtos e matérias-primas de origem nacional". Todos estavam obrigados a usar o bacalhau no prato de peixe e o prato de carne deveria enquadrar-se na categoria de prato tradicional de tabuleiro. Ana Magalhães foi a que reuniu mais pontuação do júri, que atribuiu o segundo lugar a Fábio Santos, do Restaurante Landeira, em Tomar, e o terceiro a Nuno Dinis Ferreira, do Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Foi ainda entregue o Prémio Helmut Ziebell, que distingue a criatividade, à sobremesa Melosa, Figueira e Laranja, da autoria de Manuel Pires, do Santa Maria Petisca Ria.

mariana.gonçalves@dn.pt

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