Chanel, Dior, Vuitton. Entre a festa e o conto de fadas

Outono-Inverno 2021. Online e de novo confinada, a moda parisiense trouxe tons sombrios mas também a promessa de festa. Sob os longos casacos Chanel estão vestidos transparentes.

A pirâmide do Museu do Louvre num dia particularmente luminoso, "Around The World" dos recém-separados Daft Punk a soar e na galeria de esculturas do museu mais visitado do mundo a criatividade de Nicolas Ghesquière para a Louis Vuitton.

Esta quarta-feira, dia de encerramento da semana da moda preta-a-porter de Paris vislumbrou-se um pouco do que poderá ser um mundo pós-covid-19: casacos enormes e cheios de formas, botas altas e chamativas, lãs e lantejoulas. E, sinal dos tempos, um aspeto bastante prático e com algo de desportivo - herança da pandemia que só o futuro dirá quanto tempo se aguentará (embora agora pareça eterna).

Um dia antes, tinha sido Chanel a prender as atenções, via YouTube: imagens a preto e branco, roupas escuras e depois...3, 2, 1... Música e cor. Da escala monumental do Grand Palais para um pequeno clube noturno parisiense em St. Germain, na margem esquerda da Sena, sem público e sem o frenesim típico dos desfiles, um ambiente intimista e reservado criado pela designer Virginie Viard, que há dois anos sucedeu a Karl Lagerfeld à frente da casa fundada por Coco Chanel.

Virginie Viard bebeu da extravagância de Largerfeld e trabalhou de perto com ele, mas impôs uma abordagem minimalista à Chanel - transparências sob longos casacos - e quis mostrar o trabalho no que chamou uma "saída de raparigas". Nas notas sobre o desfile a designer sublinhou o óbvio - "amor pelos contrastes". "Para as roupas volumosas de inverno, queria um espaço pequeno. Pensei nos desfiles de que me falou o Karl, de antes, quando as modelos se vestiam e maquilhavam a si mesmas". Como descreve a AFP, é chegar da rua, onde está frio, e entrar no calor da desta: um longo casaco de tweed sob o qual se vislumbram as pernas e um vestido ou calções muito curtos.

A designer explicou que quis combinar a atmosfera dos desportos de inverno que adora com um certo chique parisiense dos anos 70. Sobressaiu uma referência agridoce: o estilo tão elegante como punk da modelo e designer britânica Stella Tennant, musa de Karl Lagerfeld, que se suicidou em dezembro e cuja marca foi muito para além da sua passagem pelas passerelles ou sessões de fotografia.

Sem os excêntricos estilismos da primeira fila, famosos, modelos e selfies no Instagram, os designers jogaram tudo na apresentação

Nunca como em ano de pandemia a escolha do local para apresentar uma coleção se afigurou tão importante. Sem os excêntricos estilismos da primeira fila, famosos, modelos e selfies no Instagram, os designers jogaram tudo na apresentação. Hermès, por exemplo, criou um desfile/bailado de roupa negra em contraste com o laranja característico da marca em longas cortinas.

E no Dia Internacional da Mulher, Dior, que se apresentou no Palácio de Versalhes e colocou suas modelos no Salão dos Espelhos sem que suas imagens fossem refletidas, quis celebrar uma nova liberdade feminina. A diretora artística da marca, Maria Grazia Chiuri, aliou-se à artista italiana Silvia Giambrone e à coreógrafa israelita Sharon Eyal para reinterpretar o espaço, símbolo do patriarcado inaugurado pelo rei Luís XIV. Bailarinos e modelos interagiam com uma estrutura artística de resina, cera e acácia que cobria os imponentes espelhos do palácio, nos arredores de Paris. "Nos contos de fadas, o espelho é importante para as mulheres, é tanto uma fonte de atração quanto de repulsa", disse Chiuri à AFP."Se queremos construir uma identidade própria, não devemos olhar para ela", acrescentou a estilista italiana, uma das figuras feministas mais influentes da moda.

O vídeo da coleção para o próximo outono-inverno lembra o filme "A Bela e a Fera", de Jean Cocteau, com sua poesia sombria, tão bela quanto angustiante. Com a covid-19, "o tempo ficou suspenso", explicou Chiuri. "É a época das histórias, com florestas encantadas que não vão recuperar as suas cores até que a vida renasça".

A coleção é rica em golas brancas e babetes bordados, evocando o mundo da infância. Os vestidos de noite, longos e esvoaçantes, com tules sobrepostos, remetem ao mundo da vida social e às cerimônias com tapetes vermelhos interrompidos pelo coronavírus.A paleta de cores varia de cinza a vermelho. Do lado de fora do palácio, uma princesa punk caminhava com botas e meias embutidas. Outra usava um vestido de tule bordado com rosas com um efeito rasgado, como se estivesse ferida.

Alguns pesos pesados decidiram manter-se fora do calendário oficial - tinha sido assim com Versace em Itália, foi assim com Yves Saint Laurent.

Virtual mais uma vez, a semana a moda de de Paris abriu na segunda-feira com alunos de design do Instituto de Moda de França a cortarem a fita do evento que mostra ao mundo o melhor das mais conhecidas marcas de pronto-a-vestir, deixando uma nota de esperança num ano atípico e onde ainda não se vislumbra o regresso à normalidade. Todas as apresentações decorreram online como já tinha acontecido em Nova Iorque, Londres e Milão e também à semelhança do que se passou nestas cidades, alguns pesos pesados decidiram manter-se fora do calendário oficial - tinha sido assim com Versace em Itália, foi assim com Yves Saint Laurent. O belga que dirige a marca do grupo Kering, Anthony Vacarello, anunciou a retirada estratégica há um ano e ainda não foina apresentação da coleção do próximo outono-inverno que mudou de ideias.

Os estudantes de design de moda mostraram ao que vêm e entre eles as opiniões também se dividia. A pandemia "limitou a pesquisa", mas deu a oportunidade para observar as ruas de Paris, almejando o dia em que as ruas vão voltar a encher-se de cores e sons - e pessoas, disse um deles. Outra estudante deu uma perspetiva otimista do evento. "Não é que não tenhamos audiência, é só uma maneira diferente de nos relacionarmos com a audiência."

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