Fareed Zakaria: "Vamos ficar bem quando os jovens assumirem o poder"

Jornalista da CNN falou durante a apresentação que fez nas Conferências do Estoril, que decorrem em Carcavelos, Cascais, até quarta-feira.

O mundo vive um momento "perturbador", mas Fareed Zakaria, jornalista na CNN e autor do programa de política internacional GPS, acredita que tudo ficará bem "quando os jovens assumirem o poder".

"Vamos ficar bem quando os jovens assumirem o poder, só temos de garantir que não rebentamos com o mundo antes disso", sentenciou, durante a apresentação que fez nas Conferências do Estoril, que decorrem em Carcavelos, concelho de Cascais, até quarta-feira.

"Otimista" confesso, Fareed Zakaria -- que nasceu em Bombaim, na Índia, e passava os invernos em Goa, a sua "ligação a Portugal" -- acredita nas novas gerações, que são "mais abertas" e "votam com os sonhos" e não com "os medos".

Por isso - acredita o jornalista, aplaudido de pé no final da apresentação -, se os jovens votassem, "não haveria Donald Trump, nem Marine Le Pen, nem 'coletes amarelos'".

Pela primeira vez em Portugal, Fareed Zakaria enfrentou, no início da apresentação, a pergunta que todos fazem: "O que se passa neste mundo doido, de Trump, Brexit e populismos?".

"Temos paz e o crescimento económico está ok", foi logo respondendo.

Reconhecendo que o atual estado das coisas "é perturbador", o jornalista acredita que "as coisas não estão tão mal como se pensa", e a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos é disso exemplo.

"Cortou impostos, o que os republicanos sempre fazem quando chegam ao poder, e diz umas coisas sobre migrações, mas ainda não conseguiu erguer um muro" para impedir a entrada de mexicanos nos Estados Unidos, referiu, para provar que "os populistas nunca fazem tanto como disseram que iam fazer, e a vida continua".

Trump "veio para ficar", Europa "demasiado governada por consenso ao centro"

Claro que os Estados Unidos vivem "o drama diário da presidência Trump", que é "um intérprete de circo", criando um "novo ambiente político". Zakaria acredita que Trump "veio para ficar", mas pode ser "um espetáculo único", até porque "as pessoas continuam a querer políticos sérios, em quem confiam".

Porém, não arrisca prever o que Trump representará quando, a partir do futuro, se olhar para este passado. De todo o modo, rejeita a ideia de uma destituição forçada (impeachment), esperando que "as pessoas votem para ele ser afastado".

Sobre a União Europeia, Zakaria reconhece que é "um projeto mais difícil" hoje do que antes, afetado por "forças de retrocesso e oposição".

Apontando o "desastre" do euro e o "vácuo de poder na política externa" como os principais desafios da União Europeia, Zakaria não tem dúvidas de que "não há solução para a Europa que não seja mais Europa."

Reconhecendo que a Europa tem sido "demasiado governada por consenso, ao centro" e é um continente "acomodado e conformista", o jornalista voltou a dizer, porém, que acredita nos jovens europeus e na sua capacidade de criarem um "sentimento comum" de pertença.

15% das pessoas que nascem na Europa são estrangeiras"

Fareed Zakaria expôs a sua "teoria do crescimento do populismo no Ocidente" recorrendo a "quatro C": capitalismo, classe social, cultura e comunicação.

O capitalismo tem resultado numa "distribuição muito desigual". Além disso, "o poder intelectual é o mais importante na economia digital", reforçando a divisão cidade/campo, este com "menos gente e menos oportunidades", alimentando "a raiva, em resultado da sensação de ser deixado para trás".

Zakaria realça que os menos afortunados "gostam dos ricos, querem ser como os eles, quem eles odeiam são os profissionais, demasiado educados e snobes, que comem comida estranha e fazem ioga".

E Trump apareceu para lhes dizer que os entende, "isso é muito esperto", reconhece. Portanto, a "classe social" é o segundo elemento.

O terceiro tem que ver com a cultura, no sentido da diversidade. "Há imigrantes em todos os países onde o populismo cresce", nota. "Trump muda muito de ideias [sobre outros temas], mas é consistente sobre imigração", exemplifica.

As mudanças culturais são "reais" e "a globalização das pessoas pode ser assustadora", assinala, recordando o Portugal salazarista, "estável, estagnado, mais pobre, com chefes de família e mulheres em casa - e sem imigrantes".

Ora, atualmente, "15% das pessoas que nascem na Europa são estrangeiras", distingue.

O quarto "espantoso" elemento é a comunicação, num "mundo em que factos e verdade não existem" e em que nos tornámos "tribais".

As pessoas querem apenas "confirmar aquilo em que acreditam", buscando informação que "apoia as suas ideias", analisa.

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