Um dos maiores cientistas espanhóis obrigado a retirar oito artigos

Sociedade de Bioquímica e Biologia Molecular dos Estados Unidos detetou erros em imagens e gráficos de estudos coassinados pelo bioquímico espanhol Carlos López Otín, que se diz vítima de uma caça às bruxas.

Autor de mais de 300 artigos científicos, é o espanhol mais citado no campo da Biologia, descobriu mais de 60 genes humanos e foi um dos responsáveis pelo projeto que conseguiu sequenciar o genoma de uma das leucemias mais prevalentes. Carlos López Otín é um dos cientistas europeus mais respeitados na área da bioquímica, mas agora também tornou-se notícia por ter sido obrigado a eliminar do seu currículo oito investigações publicadas entre 2000 e 2007.

O pedido de retirada dos artigos partiu da Sociedade de Bioquímica e Biologia Molecular dos Estados Unidos, que detetou erros em imagens e gráficos de estudos coassinados pelo cientista espanhol. López Otín diz-se vítima de uma caça às bruxas.

A sociedade norte-americana de bioquímica explica nesta semana na sua revista Journal of Biological Chemistry que algumas das imagens usadas nos artigos, assinados por mais duas dezenas de investigadores, foram "duplicadas, rodadas ou manipuladas de forma inapropriada". Acusações que Carlos López Otín não nega, mas garante tratar-se de erros formais que não interferem nos resultados principais dos artigos. De tal forma, continua o cientista num comunicado enviado ao El Mundo, "que foram amplamente validados pela comunidade científica, tendo sido citados em mais de 800 artigos".

Os estudos agora retratados descreviam a identificação de novos genes de protéase e uma caracterização preliminar com enzimas proteolíticas (ligadas à digestão), sobre as quais não existe a mínima dúvida entre a comunidade científica, continua o especialista. "Se os resultados demonstrados num artigo estão certos, as experiências reproduzíveis e os seus resultados validados pela comunidade científica, qual é o benefício da retirada do mesmo?", interroga López Otín, que propôs corrigir os artigos, em vez de os retirar.

Uma proposta secundada por meia centena de cientistas espanhóis, que defendem o trabalho de Otín e pediram à revista Nature Cell Biology, que retirou um dos artigos há um mês, que permitisse que os erros detetados fossem corrigidos. "Os erros devem ser resolvidos, mas a retirada dos artigos faz um fraco favor à ciência", defende Juan Valcárcel, especialista em genética, citado pelo El Mundo. Argumentos que não colheram junto da revista, que manteve a decisão inicial.

Agora, Otín admite estar "desolado", não só porque os resultados do seu trabalho demonstraram ser válidos, mas também porque "apesar do enorme esforço investido em cada um dos artigos, em algum ponto dos ditos trabalhos havia falhas que nunca deviam lá ter estado".

Otín faz parte dos quadros da Universidade de Oviedo, estando neste momento a fazer investigação na Universidade Descartes, de Paris.

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