Tolentino Mendonça: "A crise vai recentrar-nos"

Tolentino Mendonça foi hoje nomeado cardeal pelo Papan Francisco. O DN recupera uma longa entrevista originalmente publicada na Notícias Magazine em Dezembro de 2011 em que se fala de religião, Angola, poesia, música e muito mais.

Tem 47 anos, nasceu na Madeira, viveu a infância em Angola, passou por Roma, está em Nova Iorque a investigar e vai ser consultor cultural do papa. É poeta, melómano, gourmet e... padre. Um padre especial, que conquistou leigos e a comunicação social, sem nunca de desviar do seu caminho.

Está em Nova Iorque, a fazer uma investigação sobre religião e espaço público na New York University. Vive e trabalha junto de Washington Square... consegue-se descortinar Deus numa cidade destas?

Sim. As cidades são constituídas por redes de relações, por pessoas e as suas histórias individuais... E nessas histórias há Deus.

O que é que gosta de fazer em Nova Iorque?

Antes de mais, trabalho. E ando muito a pé. Dizia São Francisco de Assis que andar a pé é uma forma de orar. É também a minha forma de oração.

Ser padre é um trabalho solitário?

Truman Capote diz que estamos sempre sós debaixo dos céus com aquilo que amamos. Um grande amor provoca uma grande solidão. O amor é mesmo isso, é estarmos diante daquilo que amamos na nossa nudez. É o território do despojamento radical perante o outro. Nesse sentido, a condição de padre, como a condição de marido ou de quem vive outro grande amor, é de uma desejada solidão. Mas, ao mesmo tempo, como padre, sou uma obra dos outros, vivo numa relação permanente com eles, numa comunidade que marca a minha vida. Realizo-me nessa espécie de tráfego quotidiano que me aproxima e reenvia continuamente para os outros.

Lembra-se do momento em que decidiu ser padre?

Não consigo identificar um dia ou um acontecimento preciso. Mas sei que Deus sempre andou por perto. Há um conjunto de coisas que vão emergindo, até as percebermos não só consistentes, mas decisivas. Em vários momentos, no seminário, na Madeira, por exemplo. Não foi um momento único, até porque o tempo de seminário é um tempo longo e de discernimento vocacional. Na minha vida Deus foi uma questão central desde muito cedo e por Ele passaram questões importantes do meu próprio ser.

Deus é sempre muito importante quando se é miúdo. As orações são muito ingénuas quando somos crianças, são sempre para que os nossos desejos se transformem em realidades...

A infância dá-nos uma perceção muito grande da presença de Deus. Mas acho que isso não passa ou pode não passar.

Foi assim consigo?

Sim, foi.

Era olhar em volta e pensar: «Há aqui mais qualquer coisa»?

Era a disponibilidade para viver uma história em que Deus é um centro e nos estimula. Lia as passagens da Bíblia e sentia que aquela história continuava a fazer sentido. A realização da minha vida também passava por dar corpo, à minha maneira e neste tempo, àquelas histórias, à possibilidade de vida que elas guardam.

Esteve em Angola na infância. Até que idade?

Até aos 11 anos. O meu pai era pescador, vivíamos no Lobito.

Como foi a sua infância lá?

Guardo uma sucessão de imagens felizes. Vivíamos praticamente na praia. Era uma pequena comunidade de pescadores madeirenses, com as suas famílias. Tive a sorte de crescer aí. As tradições que marcavam eram madeirenses... mas inscritas naquele território novo e inesquecível. São dessa altura as minhas primeiras leituras, muitas delas feitas através da memória da minha avó que nos contava romances de cor. Daqueles romances verbais, de cavaleiros, e assim.

Hoje sei que os meus pais viveram grandes aflições... mas o amor dos pais é capaz de transformar uma situação complicada numa espécie de aventura que preserva os filhos e não lhes tira o chão

Nunca sentiu nenhuma espécie de racismo?

Não. Tinha amigos de todas as cores.

E quando voltou para Lisboa?

Aos 11 anos.

Veio na ponte aérea?

Exatamente.

Quais as primeiras imagens da cidade?

Lembro-me da imagem aérea. Uma paisagem noturna, uma malha urbana a perder de vista. Até aí tinha vivido num contexto diferente. Era como se falasse outra língua.

Como foi, para um menino, mudar assim de vida?

Hoje sei que os meus pais viveram grandes aflições... mas o amor dos pais é capaz de transformar uma situação complicada numa espécie de aventura que preserva os filhos e não lhes tira o chão. Acho, por isso, que não me dei completamente conta do que estava a acontecer. Embora tenha sido a minha iniciação a um certo tipo de sofrimento humano: vi matar um homem, por exemplo. Certamente muita coisa se alterou.

E os seus pais, como é que reagiram à mudança?

Há um texto da Natalia Ginzburg em que ela diz: «Não há casa nenhuma que hoje em dia tenha as coisas todas intactas, arrumadas, que não tenha sinais de um sofrimento, que não tenha a memória de uma guerra, de uma deportação ou de um regresso difícil.» Nas nossas vidas isso está sempre a acontecer: há uma época em que nos parece que o sofrimento é um cenário longínquo, a vida parece estável, e, de um dia para o outro, tudo se modifica. É preciso recomeçar tudo outra vez, a meio da vida, numa etapa mais avançada. Nós não estamos poupados. É importante esquecer, e não esquecer. É importante esquecer para recomeçar e voltar, sem nos esquecermos. A história da Europa, no século xx, foi de roturas cíclicas que obrigou sempre várias gerações a mudar de vida.

É o que está outra vez a acontecer-nos agora...

Pois, não sei se estamos suficientemente conscientes disso e, ao mesmo tempo, com capacidade e energia. Não é só a lamentação por o mundo nos cair, mas também a capacidade de refazer e reconstruir.

Essa mudança tornou os seus pais mais ou menos religiosos?

A minha família tem um fundo religioso forte, já dos pais dos meus pais. Uma das minhas memórias é ver o meu pai ler a Bíblia e fazer as suas orações. Essas são memórias que me marcaram, pela forma como ele expressava a sua fé.

Marcou-o ao ponto de determinar o seu destino?

Não.

Tem irmãos?

Sim, quatro.

Nenhum deles o seguiu na vocação?

Não. Casaram, têm filhos, as suas famílias. Penso que para ser padre é preciso um conjunto de fatores, uma disponibilidade, uma cultura...

Depois de Angola, regressou à Madeira. Como é que foi?

Eu tinha nascido lá. Era a terra dos meus pais. Todas as histórias que me tinham sido contadas passavam por aquele lugar. A verdade é que a ilha tem um impacte enorme. É também um universo onírico... Acho que isso ajudou a refazer a vida, sem olhar demasiado para o que se perdeu. A dimensão de insularidade é muito forte, a relação com os elementos, com o mar. A paisagem da Madeira é muito intensa, as montanhas, a beleza da terra... É uma coisa da qual nunca mais nos livramos. A ilha não é o lugar do crescimento, mas sim da exposição radical ao mundo. Aliás, a história da Madeira remete para isso. É um porto, lugar de visita, de passagem, onde a presença do estrangeiro se confunde com a essência da terra. A descrição dos sítios mais espetaculares da ilha foi feita por estrangeiros, no século xviii. A própria terra é mudada no olhar do outro e isso faz que a experiência da Madeira seja, de facto, uma experiência de universalidade. O Ferreira de Castro dizia que um café do Funchal era a esquina do mundo. A ciência do mundo está ali presente, também nos limites óbvios que uma experiência de insularidade tem.

Tenho uma família enorme, sinto que sou pai - é engraçado que a palavra padre quer dizer pai. Tenho relação de paternidade espiritual com uma série de pessoas, sinto-me irmão e filho e, por outro lado, sinto que o meu coração é um coração entregue

A revolução estava a acontecer em Portugal, quando chegou. Isso marcou-o?

Nós vínhamos a chegar de uma guerra, e na condição de refugiados... Quem passou por essa experiência extrema sabe. Acho que a revolução vai marcar a posteriori, pelo quadro democrático que estabelece.

Foi no Funchal que entrou no seminário. Em adolescente uma pessoa tem sempre imensas dúvidas. Não as teve também?

Era muito mau sinal se não tivesse. «Caminhante não há caminho, o caminho faz-se andando.» Claro que tive dúvidas e que as tenho. A romancista americana Flanery O'Connor costuma dizer que ter fé é mais difícil do que não ter. A fé é uma luta constante.

Nunca sentiu falta de ter uma família?

Tenho uma família. Não sinto que não tenha. Tenho uma família enorme, sinto que sou pai - é engraçado que a palavra padre quer dizer pai. Tenho relação de paternidade espiritual com uma série de pessoas, sinto-me irmão e filho e, por outro lado, sinto que o meu coração é um coração entregue. Nesse sentido, é uma vida diferente. A vida de um padre é uma pergunta, é uma vida que parece um bocado excêntrica fora da configuração comum. Mas há muitas maneiras de acendermos o fogo...

Era um jovem. Não sentiu falta, por exemplo, do elemento feminino no seminário?

Nós andávamos no liceu normal, tinha muitas amigas.

Hoje sente que há cada vez maior afastamento da sociedade em relação à Igreja, ou que quem se assume como católico é ainda mais católico?

Há uma reconfiguração da experiência de crente. Dantes a religião era um dado predominantemente sociológico e passamos para um outro modelo em que o fundamental passa por uma adesão pessoal. Durante séculos, quer o modelo paroquial quer o territorial funcionaram. Hoje há mobilidade. As pessoas procuram referências, pertenças, novas comunidades e, se calhar, também alimentam a sua prática espiritual de uma forma mais pura, mais aberta, menos unívoca do que noutros tempos. Fazem mais perguntas.

Quando é que essa mudança aconteceu?

Em Portugal, a partir dos anos 1960. Hoje sente-se isto de uma forma muito viva, a Igreja é muito desafiada a dialogar.

A Igreja gosta desse diálogo?

Não se trata de gostar. A pergunta que se coloca é: está a Igreja mais ou menos preparada para esse diálogo? Em grande medida acho que é um diálogo que ainda não acontece. A Igreja ainda não está preparada para dialogar com a nova realidade.

Qual o seu papel, como padre, nessa mudança?

A Igreja é permeável e espera o contributo de todos. E eu sou mais um.

E gosta de ser mais um?

Sim. É o ideal para minha vida.

Não gostava de ter um papel mais importante nessa mudança?

Mas eu tenho um papel nessa mudança, em várias escalas. Tenho uma comunidade que acompanho e muitas pessoas para quem sou uma referência de conforto e de diálogo com a própria vida. Tenho também um trabalho a nível da Pastoral da Cultura e um outro de formação universitária.

Esteve em Roma, quando fez o doutoramento. O Vaticano atrai-o?

Sou muito feliz com as coisas que faço, sinto-me realizado. A vida quotidiana atrai-me muito.

Acabou de ter um convite importante - para o Conselho da Cultura que funciona junto do papa. Um convite destes não é uma porta aberta para outros?

Não, um convite destes é só um convite destes... Fico feliz por poder colaborar. É também um momento de aprendizagem.

Já tinha organizado a receção cultural ao papa Bento XVI, quando ele esteve em Portugal, e participou numa exposição em que lhe dedicou um poema. É importante, para si, como padre e como pessoa, ter conhecido o papa?

É importante por aquilo que o papa é, pelo que representa, e não pela relação pessoal que ele possa ter comigo. Podemos todos colaborar uns com os outros, de muitas formas.

É muito importante não eliminar o atrito. Mas fazer dele, de uma forma cordial, um ponto necessário para o encontro.

Foi muito surpreendente este convite para o Pontifício Conselho da Cultura do qual fazem parte o arquiteto Santiago Calatrava, o compositor Arvo Pärt e o filósofo francês Jean-Luc Marion, discípulo de Jacques Derrida?

Tem havido uma colaboração com o Pontifício Conselho da Cultura a partir de Portugal, na Pastoral da Cultura ligada à Conferência Episcopal, da qual faço parte. Tem havido troca de experiências. Mas foi uma surpresa, o convite do cardeal Ravasi.

O que é que eles fazem exatamente?

É um organismo da Santa Sé para promover o diálogo entre a fé e a cultura. Faz um desafio permanente à Igreja para ir ao encontro do mundo, para que o perceba melhor. Estiveram com um Pavilhão na Bienal de Veneza - em festivais de cinema, exposições de grande dimensão. Agora há um projeto muito interessante que se intitula «O Pátio dos Gentios» - uma cátedra de diálogo entre crentes e não crentes. Arrancou na UNESCO com grandes intelectuais europeus e vai passando de cidade em cidade, e esperemos, em breve, ter uma estação portuguesa.

E qual vai ser o seu papel?

É fazer parte de um conselho que é chamado a acompanhar o trabalho do Pontifício Conselho. Ir sugerindo e avaliando.

Durante muito tempo não havia cultura sem religião católica...

Exatamente. É uma realidade congénita, a ligação da fé e da cultura. E a cultura no Ocidente nasceu muito do impulso e da energia criativa da própria fé. Nos últimos séculos ou a Igreja se divorciou ou a cultura se autonomizou. Há um distanciamento e um silêncio. O trabalho de um artista é sempre um trabalho espiritual porque remete para a procura da verdade. A arte e a fé são matérias comuns, remetem para a procura, a interrogação e para a abertura radical ao outro. O próprio sentido de transcendência, mesmo que não explicitado, está sempre presente no trabalho do artista. Essa espécie de estaleiro da transcendência, de grande atelier da transcendência, é uma coisa que faz existir uma proximidade muito grande entre a fé e a arte.

Houve uma polémica recente com um livro do José Rodrigues dos Santos, em que a Igreja resolveu intervir. Concorda com esse género de intervenções?

A Igreja é chamada a estar no espaço público de uma forma franca, colaborando para o diálogo e para a procura da verdade.

Mesmo que seja para censurar?

O espaço público é também um espaço de conflito - e o conflito é muito importante. A diversidade de opiniões é que torna a procura comum da verdade uma coisa séria.

Da maneira como fala dir-se-ia que até gostava que houvesse mais polémicas.

É muito importante não eliminar o atrito. Mas fazer dele, de uma forma cordial, um ponto necessário para o encontro. Nesse sentido, a posição da Igreja tem toda a legitimidade. Ela é chamada a intervir no espaço público. Não é a única voz, mas também não pode ser uma voz excluída.

Em momentos de crise, como o que estamos a passar, acha que a Igreja devia intervir mais na vida pública?

Já intervém muito sobretudo num plano de proximidade, menos público, em que as pessoas não são números, têm um rosto e uma história. Penso que essa rede é, de facto, a coisa mais preciosa nestes momentos. Mais do que um discurso público, importam as ações - dar o peixe, acolher e ser alguém que reconheça a dor dos outros. Como dizia a canção do Chico Buarque, «a dor da gente não sai no jornal».

Veio a Portugal pelo Natal. Teve contacto com a comunidade quando cá esteve?

Sim.

E percebeu o impacte que a crise está a ter?

Percebi o grande sofrimento, a consciência de que estes são tempos muito difíceis, mas também percebi a esperança e a força. Os momentos de crise são momentos de grande configuração, renascimento, e aí os cristãos têm de dar um testemunho de esperança. É um assunto inevitável.

Todos lhe falam disso?

Sim. Acho que é aquilo que se vive e, sem ambiguidades, é de facto disto que se fala, da dificuldade do presente.

Esta crise veio dar razão à Igreja?

Obriga-nos a uma reflexão mais vasta. E aí, de facto, é uma coisa que a Igreja vem dizendo há muito tempo. Esta é uma crise financeira e económica, mas também antropológica e de sociedade. Está por definir o quadro de valores em que queremos viver - o que queremos da vida, como a felicidade se constrói ou o que é que nos faz felizes. A crise obriga-nos a recentrar. No outro dia ouvi uma provocação muito interessante de Manoel de Oliveira: uma sociedade sem dinheiro, só com trocas. Eu gosto de pensar no dom. Gostava que nos recentrássemos no dom.

Quando saiu a notícia sobre o convite para o Vaticano, havia vários comentários nos sites dos jornais sobre o facto de não intervir politicamente na Madeira. É uma escolha sua não se debruçar sobre estes assuntos?

A maneira como estamos e como nos vestimos é uma escolha política.

Estou a falar de política partidária...

A maneira como vivemos é política. Não compreendo essas críticas porque penso que existe uma dimensão política na teologia, no pensamento, nos percursos biográficos, essa é que é a forma fundamental.

Nunca sentiu necessidade de ter uma intervenção política partidária? Houve vários padres da Madeira que o fizeram.

Não. Penso que um homem de igreja tem de seguir outro caminho. Para poder abraçar a todos não pode fechar os braços a ninguém, não pode optar por ninguém.

Nunca fala de política com as pessoas que o procuram?

Não. A política é algo que me interessa muito, o diálogo e o debate político. Tenho preocupação que os cristãos leigos façam da política um lugar de pensamento e intervenção, e estimulo as pessoas nesse sentido. A votarem, a organizarem-se e a pensarem. Mas sei qual é a minha função e aquilo que eles esperam de mim é outra coisa.

Há uma série de questões fraturantes dentro da Igreja. Participa nessas discussões?

O grande papel da Igreja é o anúncio de uma boa nova, da libertação e da salvação, para ajudar as pessoas a serem pessoas. A nível pessoal, aquilo que posso dar é trabalhar o acolhimento. Para mim é muito importante acolher e não excluir.

Tinha, na igreja do Rato, um grupo de trabalho com homossexuais católicos. É nesse sentido que fala em acolher?

Sim.

E esse não é um lugar de política?

Não. Não é um lugar de reivindicação, nesse sentido, mas de oração, de acolhimento. Todas as pessoas têm o direito de ouvir o Evangelho, rezar e sentirem-se respeitadas e amadas por Deus. O meu trabalho enquanto padre passa por aí.

E dentro da Igreja não se vê esse seu trabalho como política?

Não tenho sentido isso. Tenho sentido que a Igreja compreende o meu ministério e estimula-o. Procuro sempre situar-me dentro daquilo que é a própria Igreja...

Se essas questões fossem resolvidas - as mulheres e o sacerdócio, o divórcio, a homossexualidade, o preservativo -, a Igreja podia ganhar um grande capital?

Se pudessem ser facilmente resolvidas já teriam sido. Não vale a pena ter nenhuma guerra. Acho que deve procurar-se a paz. E está a fazer-se um caminho, até no interior da Igreja. É muito importante acompanhar as pessoas e não ter pressa de chegar a um lugar. Ser fiel às pessoas, quaisquer que sejam as suas histórias de vida e escolhas. Isso cria um património no interior da Igreja.

A política é algo que me interessa muito, o diálogo e o debate político. Tenho preocupação que os cristãos leigos façam da política um lugar de pensamento e intervenção

Como?

As histórias de acolhimento criam um património evangélico dentro da Igreja. Para que vai servir e se vai mudar alguma coisa, não sei. Moisés caminhou quarenta anos e não entrou na Terra Prometida, isso acontece com todos nós. Não sei para o que vai servir a minha vida. Não sei o que é que vão fazer com aquilo que me apaixonou. Não sei e também não me interessa.

Como é que não lhe interessa? Isso não interessa sempre a quem escreve livros?

Não, sei lá. Quem é que vai ler os meus poemas? Não sei, não me interessa, não penso nisso.

Então porque é que publica? Já vai no seu oitavo livro.

Publicar é uma exigência do próprio poema que é maior do que o poeta, que se desliga dele e vai ao encontro de outros. A poesia é essa construção de um património humano com os outros, sem a ambição de querer que isso mude algo. Provavelmente tudo vai em direção do esquecimento, e isso está certo.

Qual o papel, neste momento, da poesia na sua vida?

Fundamental, é o pão-nosso de cada dia.

Escreve todos os dias?

Não, mas todos os dias a poesia é um trabalho. A minha atenção e disponibilidade, a minha compreensão do mundo, a combustão das coisas, tem muito que ver com a poesia. Neste momento, estou a preparar mais um livro de inéditos.

Toma notas?

Não tenho um caderno, tenho dezenas, onde vou apontando, escrevendo, guardando material para depois poder trabalhar.

As conversas com a sua comunidade trazem-lhe inspiração?

Sim. Há uma canção dos Belle & Sebastian em que contam a história de um padre que escreve a partir do que lhe contam. Há uma zona de silêncio e de segredo, mas a minha experiência de vida, que também é muito marcada pelos outros, é o objeto da poesia. A poesia não é o sentimento, mas sim a experiência.

E a sua poesia é cada vez mais ou menos religiosa?

A poesia é como o corpo, como a vida. A religião é uma espécie de «subfundo», não tem necessariamente de ser explicitada. A poesia não é lugar de escolhas, mas sim de inevitabilidades.

Tem medo da morte?

Não. Penso como todos. Tenho medo do sofrimento, mas tenho uma confiança de que a morte seja ainda um mergulho na vida, seja essa hipótese de transcendência que a fé nos indica. No outro dia ouvi Luís Miguel Cintra dizer: «Não é possível haver mais nada, se não nada disto fazia sentido.» E eu perguntava-me: mas porquê? Não pode ser só isto. Na história de Jesus de Nazaré, no seu destino, na sua palavra, encontramos um caminho, uma vida que vai para lá da limitação da própria história. Eu acredito na ressurreição dos mortos.

Isso é uma crença.

Sim. É fruto de uma fé. Penso que o ateísmo radical não faz sentido e que uma fé que não se questiona também não.

Essa é a história da sua vida...

Sim, esta é a história da minha vida.

Nos bastidores de uma entrevista

Quando conheci José Tolentino Mendonça não sabia que era padre. Foi como autor de um livro de poesia fantástico: Baldios. Nele não havia nenhuma pista. Como ele diz, a sua poesia é profana, atravessada por uma série de sentimentos universais. Falei dele ao Manuel Dias, o coordenador do DN Jovem, com quem eu trabalhava, e ele contou-me a sua história. Que era padre em Lisboa, poeta publicado, intelectual e professor universitário na Católica, e que começara a escrever nesse suplemento juvenil. Conheci-o pessoalmente só agora, nos jardins da Gulbenkian, numa breve passagem por Lisboa em que aproveitei para entrevistá-lo. São sempre breves estas passagens, agora ele está em Nova Iorque a fazer uma investigação e a preparar uma ópera para Joana Carneiro. Chegou tímido, falou mais quando falou do que mais gosta: religião, cidades, cultura, fé. Menos quando se tratou da sua biografia privada - infância, juventude. Ou dos restaurantes que mais gostava de frequentar em Roma e, agora, em Nova Iorque. «Vou revelar esse segredo?», perguntou. «É um vietnamita familiar, muito pequeno...» E saiu da entrevista sem dizer o nome. Partiria no dia seguinte para a Madeira, onde passaria o Natal com a família, no Machico.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG