"Tenho nove anos de greves para fazer"

Algumas centenas de professores concentraram-se em frente à Assembleia da República, onde o ministro da Educação apresentou o seu orçamento

Apoiada em canadianas, em frente à escadaria principal da Assembleia da República, Maria Manuela Guedes, 56 anos, parece disposta a galgar mesmo assim os degraus que dão acesso ao Parlamento, se sentir que isso fará a diferença na sua luta.

Educadora de infância "com 37 anos de serviço", e com um problema num dos joelhos que já a obrigou a duas operações, faz questão de referir que dá aulas "mesmo assim" às crianças do pré-escolar que acompanha no Jardim de Infância de Rio de Mouro. "Estou a trabalhar. Mas hoje, mesmo sem ser preciso, estou de greve".

E de greve, garante, estará as vezes que forem precisas até ver consagrado o direito que considera ter à totalidade dos nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço que lhe foi congelado. "Deveria estar no nono escalão e estou no sétimo. Se isto ficar assim, já não chego lá. Se pedisse a reforma antecipada, devido à minha limitação física, ficaria a ganhar pouco mais do que o salário mínimo nacional. Isso é justo, ao fim deste tempo todo?", questiona.

Por isso, avisa, "se não me devolverem o tempo de serviço, tenho nove anos de greves para fazer. Tenho muita greve à minha frente. Não queremos o dinheiro já. Se não podem pagar agora a reposição, que o façam em 2023, 2030, 2050...mas pelo menos deixem que quem está a beira da reforma ou, como eu, a dez anos de distância, tenha hipóteses de chegar ao fim da carreira".

Parte do sucesso ou fracasso desta batalha, que se arrasta há mais de um ano, passa pela opinião pública. Nomeadamente pelos alunos e encarregados de educação. Com uma T-shirt preta, do SPLIU, um dos sindicatos de docentes, em que estava escrito: "As famílias, os pais, os alunos, devem apoiar a luta dos professores", André, professor de Educação Moral Católica, está ciente do desafio que é convencer a comunidade educativa a compreender um protesto que, inevitavelmente, acaba por ter consequências para os alunos. "Na escola onde estou ainda sinto algum apoio", diz. "Os pais falam sobre o assunto e têm conhecimento sobre o assunto. Como em todo o lado, há pessoas que estão a favor e há pessoas que estão contra. Ou outros que nem sequer sabem do que se trata, mas ainda se nota que existe um grupinho de pais que estão do nosso lado", conta.

Com a perspetiva de a contestação continuar, este professor de Vendas Novas acredita que será fundamental que a mensagem dos docentes passe para todos. "Com as famílias, circulando informação, se se for dando informação do que é que se pretende realmente, as pessoas conseguem compreender a situação. Se não houver essa divulgação da mensagem, aí poderá não ser tão fácil".

Muitos recados aos partidos

Aos jornalistas, Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, defendeu que ao concentração desta tarde "não é apenas um protesto mas também uma exigência" Mais concretamente sobre os deputados que começarão a discutir o orçamento na especialidade, para que estes "apresentem propostas para fazer o que o governo não quis fazer em relação aos professores".

Isto porque, na perspetiva dos sindicatos, o ministro Tiago Brandão Rodrigues já deixou de ser um interlocutor do qual possam esperar obter respostas. De resto, o responsável pela pasta da Educação foi vaiado a cada vez que o seu nome era referido nos discursos e palavras de ordem dos sindicatos, com Nogueira a concluir que este já excedeu "o seu tempo" no governo.

Mais tarde, ao registar a presença na concentração de representantes do Bloco de Esquerda, PCP e PSD, o sindicalista reforçou o recado aos partidos, dizendo esperar que estes não tenham comparecido em frente à Assembleia da República "só para nos cumprimentar" e que "apresentem propostas". E, para que não restassem dúvidas, deixou claro que "o voto" dos docentes também estará em equação.

Quanto ao que os professores estão dispostos a fazer caso a solução não chegue pela via parlamentar, Nogueira deixou tudo em aberto: "Vamos continuar a fazer as lutas que forem precisas", prometeu.

Na última semana decorreu uma greve ao serviço extraordinário e Nogueira defendeu também que esta tem crescido "de dia para dia" em termos de adesão e impacto, tendo por exemplo cancelado várias reuniões intercalares na escolas. Os docentes contestam as tarefas não inscritas nos horários, que consideram "ilegais" e que, segundo Nogueira, levam a que "cada professor trabalhe em média mais duas horas por dia" do que devia. "Esta é uma das principais causas do desgaste profissional", referiu.

Deixados os recados, o protesto foi breve, com o hino nacional a assinalar o fim de pouco mais de uma hora de concentração, pelas 16.13.

"O maior investimento por aluno em oito anos"

Enquanto os professores protestavam, Brandão Rodrigues defendia, no Parlamento, que o Orçamento do Estado de 2019 "alcança o maior investimento público em educação por aluno desde há oito anos". O ministro da Educação, citado pela agência Lusa, lembrou que este valor vinha a descer desde 2010 e começou a subir "continuamente desde 2016", sendo que, "em 2019, acumula uma evolução positiva nestes quatro orçamentos de mais de 21% de investimento em cada aluno".

Tiago Brandão Rodrigues sublinhou ainda que o orçamento em discussão representa "o esforço da legislatura de aumentar em mais de 15% o investimento dos portugueses na Educação", ao contrário do que aconteceu na anterior legislatura, em que houve "um corte de mais de 13%".

Conclusões contestada pela deputada do PSD - e ex-ministra da Educação, no breve segundo mandato de Passos Coelho - Margarida Mano, que defendeu que face ao produto Interno Bruto a despesa em educação está de facto em queda.

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