Quebra na esperança de vida registada em 2015 pode ser sinal de alerta

Estudo que envolveu 18 países da OCDE observou um recuo temporário na esperança de vida em 12 deles. Mas quase todos recuperaram, à exceção dos Estados Unidos e Reino Unido

A esperança média de vida registou, de 2014 para 2015, quebras generalizadas que se estenderam a um conjunto de 12 países da OCDE, incluindo os Estados Unidos, que tiveram o pior desempenho e que podem estar a braços com um problema mais estrutural, a exigir "uma reflexão urgente", segundo um estudo publicado este mês na revista científica British Medical Journal (BMJ).

Naquele país, o declínio na esperança média de vida já vem de trás, estando curso há três anos seguidos, depois de um período idêntico de estagnação, e parecem estar ali em causa problemas mais profundos.

Os resultados surpreenderam os próprios autores da investigação, uma equipa que foi liderada por Jessica Ho da Universidade de Southern California, e Arun Hendi, da Universidade de Princeton, ambas nos Estados Unidos. Os investigadores decidiram olhar para as tendências em 18 países da OCDE e acabaram por se deparar com aquele episódio de quebra generalizada nas esperança de vida entre 2014 e 2015.

Apesar de no biénio seguinte (2015 para 2016) quase todos os países terem recuperado e até ultrapassado as perdas, a quebra, pela sua extensão geográfica, deixa preocupações no ar, admitem os autores.

Em relação aos Estados Unidos, que não recuperaram sequer, antes mantiveram o caminho no recuo da esperança de vida, os cientistas sugerem a possibilidade de as desigualdades sociais poderem ter aqui um contributo importante, o que, dizem, deve ser investigado, para aprofundar eventuais mudanças nas políticas sociais.

"Embora não tenhamos examinado a forma como as desigualdades económicas podem estar a contribuir para o declínio da expectativa de vida, é possível que maiores desigualdades num país o tornem mais vulnerável a este declínio", escreve a equipa de Jessica Ho no BMJ, sublinhando que estudos anteriores "já apontam para a existência desta correlação"

Gripe severa e uma epidemia de opiáceos

O estudo abrangeu um total de 18 países da OCDE - incluindo Portugal, que tem vindo a crescer na esperança média de vida, e que em 2016 apresentava como valores, citados neste estudo, 84,32 anos para as mulheres, e os 78,11 para os homens.

Como escreve a equipa no seu artigo British Medical Journal, "esta foi a primeira vez em décadas recentes que tantos países desenvolvidos, no total de 12, registaram em simultâneo declínios tão apreciáveis na esperança média de vida, tanto para homens para para mulheres".

Comparando com outras quebras registadas anteriormente, esta foi, aliás, a mais acentuada, chegando ao dobro de anteriores episódios no caso das mulheres, e a mais 70% no caso dos homens. Valores que colocam a quebra de 2014-2015 "em destaque", sublinham os autores, "tanto pela sua dimensão geográfica como sua magnitude".

As causas? A gripe especialmente severa naquele período, as pneumonias e outras doenças respiratórias são apresentadas como um dos fatores decisivos para aqueles valores. Mas as doenças cardiovasculares, o Alzheimer e as doenças mentais e dos sistema nervoso também figuram nos top das causas de morte durante aquele período. Já nos Estados Unidos a história não se conta bem assim.

Os valores das quebras observadas entre 2014 e 2015 na esperança média de vida variaram entre menos 0,03 anos na Suécia, e menos 0,55 na Itália, para as mulheres, e entre menos 0,003 na Bélgica e menos 0,43 na Itália, para os homens, mas é nos Estados Unidos que o fenómeno assume contornos particulares.

Desde logo, o recuo já vinha de trás naquele país, mas ao contrário dos outros países, com exceção do Reino Unido, que seguiu exatamente a mesma tendência, não se registou ali uma recuperação no biénio seguinte.

Os Estados Unidos têm a mais baixa esperança de vida entre todos os países estudados - 81,40 anos para as mulheres e 76,40 para os homens - e apresentam ainda uma outra particularidade: a idade em que se concentra mais este declínio não é nas faixas etárias mais idosas, como nos outros países, mas nos 20 e nos 30 anos, estando diretamente relacionada com as mortes por overdose, como mostrou uma outra investigação também publicada no British Medical Jounal na semana passada.

Coordenado por Steven Woolf da universidade americana de Virginia Commonwealth, essa segunda investigação avalia sobretudo estas mortes precoces associadas ao consumo de drogas e álcool, que para além do risco de overdose contribuem também para o aumento de óbitos associados a doenças do coração, dos pulmões ou do fígado. "A epidemia dos opiáceos é só a ponta do icebergue", alerta Steven Woolf.

Tomados em conjunto, os dois estudos são uma espécie de alerta, sobretudo para os Estados Unidos. É isso mesmo que diz o especialista Domantas Jasilonis, do Instituto Max Planck, na Alemanha, num editorial publicado na mesma revista, no qual alerta para a possibilidade de as descontinuidades nas tendências sociais e as situações de desigualdade e de austeridade económica poderem conduzir a crises prolongadas nos sistemas de saúde dos países.

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