Porque morrem as baleias na praia?

Centenas de baleias arrojaram na Austrália, um acidente que a ciência ainda não consegue explicar, mas há várias causas que podem estar na sua origem.

Cerca de 500 baleias-piloto encalharam esta semana na Tasmânia. Quase todas morreram naquele que é considerado o maior arrojamento ocorrido na Austrália desde que há registo. Especialistas apontam possíveis causas para esta ocorrência mas ninguém sabe ao certo porque dezenas de animais vivos, a maior parte deles saudáveis, ficaram presos em baixios.

Para Filipe Alves, que investigou a ecologia das baleias-piloto para a sua tese de doutoramento, a característica mais fascinante destes animais é constituírem grupos familiares coesos com fortes laços sociais entre si. Com uma estrutura social matrilinear, as fêmeas ficam no grupo onde nascem e o mesmo acontece com a generalidade dos machos. Um grupo pode integrar até quatro gerações. Com uma esperança de vida longa, os machos podem viver até aos 45 anos e as fêmeas um pouco mais, até aos 60 anos. Tal como as orcas e as belugas, as baleias-piloto também passam pela menopausa. Estas fêmeas mais velhas são fundamentais na transmissão do conhecimento às crias. Preferindo lulas e polvos, estes animais conseguem mergulhar até mil metros de profundidade para se alimentarem. Enquanto as progenitoras mergulham, as crias ficam à superfície, ao cuidado das "avós".

Atualmente reconhecem-se duas espécies de baleias-piloto: a baleia-piloto de barbatana longa e a de barbatana curta ou baleia-piloto tropical. Curiosamente esta última espécie, como relata Philippe Verborgh, investigador do Museu da Baleia na Madeira e que estuda estes animais há vários anos, "talvez por causa do alimento, têm sido avistados mais exemplares de baleia-piloto tropical no Algarve". Há até dois ou três casos documentados de hibridização, em que animais das duas diferentes espécies acasalaram e deram origem a crias que, por sua vez, já se reproduziram.

"As baleias-piloto, tal como o nome indica, são guiadas por um elemento do grupo e deslocam-se normalmente em V, como os bandos de pássaros", explica Filipe Alves, investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/Arditi e do Observatório Oceânico da Madeira. Geralmente os grupos são constituídos por 15 a 50 indivíduos mas podem chegar às centenas. Filipe Alves relata que, por norma, em outubro, a sudeste da Ilha da Madeira, pequenos grupos destes cetáceos encontram-se e juntam-se, formando grupos maiores. A reprodução é a principal razão apontada pelo investigador para este fenómeno. Aliás, das necropsias realizadas a baleias-piloto que arrojaram em grupo, concluiu-se que as crias do grupo arrojado eram filhas de machos pertencentes a outros grupos.

Porque arrojam as baleias?

O arrojamento de baleias e golfinhos não é incomum. Todos anos cerca de 170 cetáceos dão à costa em Portugal. Menos vulgares são os arrojamentos em massa envolvendo centenas de animais. Há várias possíveis causas para estes eventos.

Para o investigador Philippe Verborgh, os laços fortes que unem estes animais fazem com que "nenhum animal fique para trás". Se uma baleia-piloto tem um problema, isso terá impacto no grupo todo. O que pode explicar estes arrojamentos em massa. "Um indivíduo com um ferimento ou doente ou idoso, pode conduzir o grupo para áreas pouco profundas com fundo de areia", explica o investigador. E além disso, a topografia de muito baixo declive associada a fundos arenosos, não permite ao animal utilizar um sistema sensorial biológico que possui para se orientar e encontrar alimento, a ecolocalização ou biossonar. A baleia emite um som e através do eco que recebe, o animal obtém informações precisas sobre presas, obstáculos, onde estão os outros indivíduos do grupo, o que estão a fazer. Não sendo possível recorrer à ecolocalização ou se esta fornecer informações erradas, como por exemplo não alertar para águas pouco profundas, o animal pode ficar numa situação difícil.

"Já houve casos de desequilíbrios no sonar biológico destes animais provocados por manobras militares e de prospeção petrolífera", afirma Filipe Alves, "que provocaram este tipo de incidentes".

Por vezes a fuga de predadores, como as orcas por exemplo, pode ser a causa destes animais ficarem presos em zonas de baixa profundidade. Mesmo quando se consegue devolver a baleia ao mar, isso não significa que ela não volte a arrojar, pelo que é necessário tentar manter alguma vigilância. Há ainda relatos, como conta Philippe Verborgh, investigador do Museu da Baleia na Madeira, de animais que voltaram ao mar aberto mas que não se foram embora. "Só quando morreram todos os elementos do grupo ainda em terra, é que os sobreviventes abandonaram o local". Mais uma prova dos laços fortes que os unem.

Dificuldades no salvamento

Daren Glover pertence ao Project Jonah sediado na Nova Zelândia, uma organização que tem prestado socorro a cetáceos arrojados, sobretudo baleias-piloto, nos últimos 40 anos. Um país, tal como a Austrália, onde estes acidentes tendem a ocorrer com mais frequência "talvez porque existem nestes territórios, zonas de mar profundo muito próximas de terra o que faz com que os animais se aproximem mais da costa e as praias de areia podem enganar, levando-os a pensar que continuam em águas profundas", explica Daren Glover. "Cada evento é único e tem os seus desafios específicos. A nossa primeira preocupação em relação às baleias é avaliar o seu estado, condição física e sinais de stress, e a probabilidade de a fazer regressar ao mar", e acrescenta "em relação às pessoas temos desenvolvido protocolos para que ninguém se magoe pois são animais corpulentos, fortes que em stress podem reagir e provocar ferimentos em quem os está a tentar salvar".
As baleias-piloto podem atingir as duas toneladas de peso e os sete metros de comprimento.

O colapso dos pulmões e a compreensão de outros órgãos internos é um dos principais problemas quando estes animais ficam presos em terra por causa da sua dimensão. A desidratação, a falência renal e as queimaduras, pois a pele das baleias não está preparada para apanhar sol, são outros dos principais problemas. Muitas vezes estes salvamentos são muito exigentes do ponto de vista físico para quem tenta ajudar pois poderá ser necessário esperar várias horas dentro de água, pela próxima maré, para encaminhar as baleias para o mar aberto.

Filipe Alves, investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/Arditi e do Observatório Oceânico da Madeira, considera ainda um desafio a convivência com as populações dos territórios onde estes incidentes acontecem. "Se em muitos locais as pessoas querem ajudar, em vários países onde a proteína animal é escassa, as comunidades tentam cortar a carne da baleia para consumo".

O que pode constituir um risco para a saúde pública. E claro, quando se trata de um arrojamento em massa, o número elevado de animais implica mais pessoas disponíveis para ajudar. Apesar de já sabermos muito sobre as baleias-piloto, estes animais ainda guardam muitos segredos o que os torna fascinantes, capazes de nos surpreenderem à medida que os vamos conhecendo melhor.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG