De Almeirim ao Nepal de bicicleta porque "só um obrigado não ia chegar"

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De Almeirim ao Nepal de bicicleta porque "só um obrigado não ia chegar"

Pedro Bento vai percorrer cerca de 11 mil quilómetros de bicicleta em 73 dias para angariar dinheiro para os bombeiros de Almeirim e para pagar os estudos a dois jovens nepaleses.

"Não se consegue explicar o que se sente quando se está a fazer isto. Levantamo-nos sempre com uma motivação tão grande, porque o objetivo é chegar aquele sítio. Depois de lá chegarmos é sempre uma coisa tão simples. O que conta é mesmo o caminho, conhecer as pessoas, falar com elas e perceber porque estão ali". Pedro Bento, 40 anos, vai de bicicleta sozinho até ao Nepal. Parte este sábado do quartel dos bombeiros de Almeirim rumo a Katmandu, capital do Nepal.

Leva o equipamento que tem no corpo, outro no alforge e uma terceira muda de roupa para a noite. Na bicicleta, comprada para o efeito por servir para a estrada e para a terra batida, vai ainda uma tenda individual, ferramentas, saco de cama, colchão e água. Alimentação e local onde dormir descobrirá pelo caminho.

Prevê gastar cerca de oito mil euros, um investimento quase 100% seu. Mas quer voltar a Portugal com mais dinheiro: dez mil euros. Para doar aos bombeiros de Almeirim que o assistiram há dois anos quando teve um acidente de mota e para dois estudantes nepaleses afetados pelo sismo de 2015.

A viagem

Parte de Almeirim e segue pelo sul de Portugal para Espanha. Passará por França, Itália, Eslovénia, Croácia, Montenegro, Albânia, Bulgária, Turquia, Irão. Neste último país, Pedro Bento vai apanhar um avião até ao aeroporto de Goa, na Índia, para evitar o Paquistão e o Afeganistão, zonas de conflito. Segue depois da Índia para o Nepal até à capital, Katmandu, que fica a 1400 metros de altitude.

Tudo em 73 dias. O número pouco redondo é o somatório dos dias de férias de Pedro com um mês que conseguiu de licença sem vencimento no seu trabalho como técnico superior de desporto na Câmara Municipal de Almeirim. "Tenho até 30 de junho. Posso chegar antes ou no dia. Depois não, se não sou despedido".

Começa a fazer as contas. Cerca de 11 mil quilómetros (130 mil de acumulado, distância na vertical), 73 dias... "tenho de fazer 150 a 200 quilómetros, oito a dez horas por dia". Para conseguir aguentar o esforço e cumprir as metas tenciona ir com calma, em vez de em ritmo de prova. Mas os planos ficam-se por aqui. Preparou-se fazendo muitos quilómetros em cima da bicicleta nova e "o que for acontecendo vai-se resolvendo na hora".

"A nível europeu é tudo muito igual, mas há países em que eu não sei o que me espera"

O que é que pode acontecer? "Ter um furo, fazer uma lesão, a meteorologia não ajudar...". Pedro termina depressa a enumeração; não pode iniciar a aventura com possíveis complicações em mente. Mas sabe que há zonas mais difíceis que outras; os Alpes impõem respeito com a sua altura e a Índia com a sua "confusão de trânsito e estradas não muito boas". "A nível europeu é tudo muito igual, mas há países em que eu não sei o que me espera. A primeira vez que estive no Nepal, tive de passar uma passadeira ao lado de um nepalês, porque ali ninguém pára. Ele dava um passo, eu dava um passo; ele dava dois passos, eu dava dois passos", lembra.

"Um euro por quilómetro"

Não é só o desconhecido que o move: Pedro Bento pedala por uma causa ou melhor por duas. O dinheiro que angariar através de uma campanha de crowdfunding será doado aos Bombeiros Voluntários de Almeirim e ao projeto "Dreams of Katmandu" que quer concretizar sonhos de pessoas afetadas com o sismo de 2015 no Nepal. O seu objetivo são os dez mil euros, cerca de "um euro por quilómetro", explica.

Esta foi a forma que encontrou de agradecer a ajuda do corpo de bombeiros da sua terra aquando de um acidente que teve há dois anos, porque "só um obrigado não ia chegar". No dia 1 de abril de 2017 foi fazer de mota o reconhecimento do percurso de uma prova de BTT em Almeirim e despistou-se junto a uma barragem. Partiu nove vértebras e a omoplata direita. Encontraram-no dois jovens que chamaram de imediato os bombeiros e foram estes que o transportaram para o hospital "da forma mais correta e rápida", diz. Também foram estes que o levaram nos meses seguintes até à fisioterapia.

Acabou por recuperar "quase totalmente", apesar dos diagnósticos pouco favoráveis que lhe foram sendo feitos. Teve de procurar quatro médicos diferentes até encontrar um que lhe dissesse o que queria ouvir - que ia poder voltar a praticar desporto. E agora é com uma prova de ciclismo que diz obrigado.

Aos bombeiros está destinado 80% do montante angariado para que o quartel possa adquirir novos fatos contra incêndios, um dos equipamentos em falta. A atingir os dez mil euros, será possível comprar uma dezena de fatos, uma vez que cada um custa 800 euros.

Os restantes 20% serão doados à associação "Dreams of Katmandu", para financiar um ano de estudos a dois jovens nepaleses afetados pelo terramoto de 2015, Mingmar e Tenzing Sherpa de 13 e 10 anos respetivamente. Este projeto pertence também a um português, Diogo Queirós, e foi criado para construir casas, escolas e apoiar as vítimas do desastre natural. Pedro Bento não conhece pessoalmente Diogo Queirós (conhecerá no Irão, quando ficar na casa deste durante a viagem), mas teve oportunidade de ver o trabalho da organização no terreno na altura em que foi ao Nepal, em 2016, para fazer a prova de BTT com maior altitude do mundo (5416 metros de altura) no Torondo de la Passe.

Ficou "com uma ligação muito especial" com as famílias vítimas do terramoto e ainda mantém contacto pelo Facebook com várias. Por isso, lembrou-se de apoiar também esta causa.

Como ajudar?

Pedro quer sensibilizar as pessoas com o seu esforço físico e pedir-lhes que doem algum dinheiro através de um NIB disponível na página que criou para o projeto ou da campanha de crowdfunding.

No site, no Facebook e no Instagram "bakonbike2019" vai ser possível acompanhar a viagem. "A tentativa é que as pessoas se envolvam também um bocadinho no projeto e que reconheçam o esforço", diz o atleta que parte com pouco mais de 300 euros na conta de crowdfunding.

"Isto é como um psicólogo"

Atravessar a Europa em direção à Ásia é uma estreia para o ciclista, mas as provas duras não são uma novidade para Pedro. Começou a pedalar aos 18 anos, inscreveu-se logo em corridas nacionais e foi ganhando uns troféus "nas provas da sardinha assada", como lhes chama, mas queria mais. "Comecei a ver revistas e reparei numa prova que surgia sempre, a da Costa Rica. Estes desafios têm outro sabor. Viajo, conheço outras culturas e outras pessoas". "Enquanto há pessoas que vão para a praia nas férias, eu faço isto. Dá-me gozo. Dá-me prazer sofrer", conta a rir.

Tem um objetivo: fazer as dez provas de bicicleta mais duras do mundo. Destas já completou seis, uma na Costa Rica, outra no Canadá, no Chile, em Itália, no Nepal e na Austrália (já depois do acidente) e este ano ainda quer fazer a prova da Mongólia. "Cada uma tem uma característica que a faz ser considerada uma das provas mais duras do mundo". Austrália é a mais longa em distância, Itália tem o máximo de acumulado, ou seja, 36 mil metros na vertical e o Nepal tem o já referido ponto mais alto.

"Deixamos de saber o que estamos a fazer. Só me lembro de determinadas partes do percurso"

E foi neste pico, a 5416 metros de altura, no Torondo de la Passe, que se perdeu. A altura começou a deixá-lo sem oxigénio, apesar de ter passado no teste que mede a quantidade de ar aos 4500 metros. Contraiu a doença da altitude: não conseguia dormir, comer ou beber. "Deixamos de saber o que estamos a fazer. Só me lembro de determinadas partes do percurso", conta.

Levou duas horas e meio a fazer seis quilómetros, distância que habitualmente alcança em vinte ou trinta minutos. Vestia sete casacos para fazer frente aos vinte graus negativos, mas tinha o nariz destapado por esquecimento de uma parte do gorro. "Comecei a deixar de sentir o nariz, deixei de sentir as mãos e comecei a pensar no que se passou com outras pessoas que queimaram o nariz, perderam os dedos...". Parava de dez em dez minutos e não podia beber água, porque esta estava congelada. Às tantas deixou de ver as pessoas com quem ia.

"Isto fortalece-nos um bocado em termos psicológicos. É como um psicólogo

"Não via ninguém, o GPS estava baralhado, o telefone não funcionava e não tinha comer". Serviu para o susto. Acabou por conseguir encontrar o trilho depois de avistar outro ciclista e chegar ao hotel, onde passou o resto do dia deitado a beber chá. Na manhã seguinte, levantou-se para fazer mais sessenta quilómetros, durante seis horas. Numa prova com tempo contado, não há espaço para recuperar. Há que continuar. "Isto fortalece-nos um bocado em termos psicológicos. É como um psicólogo".

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