Nobel da Química vai para cientistas que "aplicaram princípios de Darwin" no laboratório

Quebraram uma barreira e produziram pela primeira vez a evolução em direto no tubo de ensaio, o que abriu caminho a terapias revolucionárias. Os premiados são Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter

Os norte-americanos Frances H. Arnold, George P. Smith e o britânico Gregory P. Winter são os vencedores do Nobel da Química deste ano, pela "revolução" no laboratório usando os princípios da evolução para desenvolver novas proteínas para "resolver problemas químicos da humanidade", anunciou esta quarta-feira a Academia Sueca.

Nascida em 1956, Frances Arnold, do California Institute of Technology, recebe metade do prémio pelo seu trabalho. A cientista produziu em laboratório pela primeira vez a evolução dirigida de enzimas, ou seja, de proteínas que catalisam as reações químicas. Esse trabalho seminal, publicado em 1993, resultou no que hoje são técnicas rotineiras para a produção de medicamentos e biocombustíveis.

Para a Fundação Nobel, a tecnologia criada por esta cientista, atualmente com 62 anos, tem na base técnicas e procedimentos "mais amigos do ambiente para a produção de substâncias químicas", como são os produtos farmacêuticos e os biocombustíveis no contexto das energias renováveis mais ecológicas.

George P.Smith, que nasceu em 1941 nos Estados Unidos, e é atualmente professor emérito da Universidade de Missouri, em Columbia, e o britânico Gregory P. Winter, nascido em 1951, em Leicester, e coordenador emérito do Laboratório de Biologia Molecular, em Canridge, no Reino Unidos partilham a outra metade do prémio, que tem o valor global de 865 mil euros.

Novas terapias nas doenças autoimunes

Geroge Smith é distinguido pelo seu trabalho revolucionário de 1985, quando desenvolveu, na palavras da organização Nobel, "um método elegante" para levar vírus a infetar bactérias, um processo que permite fazer evoluir novas proteínas.

Na esteira desse trabalho fundador, o britânico Gregory Winter levou o processo mais além e conseguiu criar pela primeira vez anticorpos que podem ser utilizados em novas terapias na medicina.

O primeiro medicamento desenvolvido no âmbito destes novos processos foi lançado no início do terceiro milénio, em 2002, e contribuiu para mudar para melhor a vida dos doentes que sofrem de artrite reumatoide, psoríase (uma doença de pele autoimune) e doenças inflamatórias do intestino.

Mudar o paradigma para as renováveis

A investigadora Lígia Martins, que coordena o laboratório de Tecnologia Microbiana e Enzimática no ITQB, o Instituto de Tecnologia Química e Biológica, da Universidade Nova de Lisboa, e que trabalha há uma década, justamente, nesta área, explica que, com o seu trabalho publicado em 1993, Frances Arnold criou "um novo conceito de engenharia de proteínas", através "da evolução dirigida e controlada", em que "o alvo é uma única enzima, que codifica a proteína que se pretende alterar para obter uma determinada característica".

Nos procedimentos, no laboratório, induzem-se alterações aleatórias no DNA, após o que são rastreados todos os resultados para se poder identificar a enzima certa: aquela que codifica a proteína indutora das características pretendidas. Ou seja, a chave evolutiva para o objetivo final.

Usando esta tecnologia desenvolvida pela cientista norte-americana, que hoje viu reconhecido o seu trabalho com o Nobel da Química, a equipa de Lígia Martins procura identificar enzimas passíveis de ser usadas em biotecnologia industrial para a produção de substâncias e materiais através mais amiga do ambiente.

"A ideia é substituir, na produção industrial de materiais, por exemplo, os processos químicos tradicionais por processos biológicos, que são mais amigos do ambiente, utilizando esta tecnologia", explica ao DN Lígia Martins.

O seu grupo está, nomeadamente, estudar, um polímero de origem vegetal, chamado lenhina, que, se tudo correr bem, poderá no futuro tornar-se uma fonte renovável de materiais plásticos biodegradáveis com muito menores custos ambientais em relação aos plásticos tradicionais, que são derivados do petróleo.

Mas este é um movimento mais vasto, "uma vaga de fundo", como lhe chama Lígia Martins. Há muitos grupos por toda a Europa e nos Estados a trabalhar para tornar possível esta mudança de paradigma". Uma mudança que só se tornou uma possibilidade por causa do trabalho hoje distinguido com o Nobel.

Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter sucedem assim a Joachim Frank, Jacques Dubochet e Ricahrd Henderson, que foram distinguidos no ano passado pela Academia Sueca com o Nobel da Química pelo desenvolvimento da criomicroscopia eletrónica, uma nova técnica que simplifica e melhora as imagens das biomoléculas e que permitiu analisar, entre outros, o vírus zika de uma forma que ainda não tinha sido possível, determinado uma viragem no combate à doença.

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