Mais de um terço das estações do metro não são acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida

Os constrangimentos com que se deparam fazem com que algumas pessoas tenham medo de sair à rua e desistam

Foi em 2011 que Sérgio Lopes tentou usar o metro de Lisboa pela primeira vez. O objetivo era simples: tratar do Cartão do Cidadão. Mas para Sérgio, tetraplégico desde os 20 anos, ir da Póvoa de Santa Iria ao centro da cidade, na cadeira de rodas elétrica, revelou-se uma tarefa difícil. Acabou por desistir. Sete anos depois, ainda há 20 das 56 estações do metro sem acesso pleno para pessoas com mobilidade reduzida. Nas 36 que têm, através de elevadores, é comum encontrá-los avariados, e o problema do desnível entre as carruagens e plataforma continua por resolver.

Para Sérgio, de 35 anos, sem carta de condução, os transportes públicos são a única alternativa. Uns dias antes de experimentar o metro pela primeira vez, teve o cuidado de ligar para o apoio ao cliente e explicar a sua situação, referindo que a sua cadeira elétrica é muito pesada - 170 quilos - e que não seria fácil ajudá-lo. Asseguraram-lhe que não teria qualquer problema na deslocação, embora lhe tenham pedido para ligar antes para saber se as duas estações que ia usar tinham os elevadores a funcionar, já "que chegam a estar avariados durante muito tempo". Mas quando chegou à estação de metro do Oriente, vindo do comboio, Sérgio viu-se confrontado com um desnível de cerca de seis centímetros entre a plataforma e a carruagem do metro. Tentou entrar várias vezes, mas só conseguiu subir para a carruagem com a ajuda de outros passageiros. Acabou por se enganar na saída, desistir do objetivo inicial e voltar para casa.

Elevadores avariados

Va Nancassa, de 29 anos, com paraplegia completa, também já se deparou inúmeras vezes com elevadores em manutenção e costuma apresentar queixa. Em 2017, o Metro de Lisboa recebeu 160 reclamações sobre elevadores fora de serviço. Va desloca-se numa cadeira de rodas manual e, como não tem carro, serve-se do comboio urbano e do metro para ir a Lisboa, já que mora na Amadora. O jovem precisa sempre "da ajuda de terceiros": nos comboios urbanos, por causa das rampas íngremes; no metro, por causa do desnível. Nas estações do metro, geralmente recorre a um botão localizado junto aos canais de acesso para pedir assistência. No entanto, já esteve mais de meia hora à espera sem obter resposta.

O botão também serve para que um trabalhador do metro desbloqueie o canal de acesso especial - mais largo - que às vezes está bloqueado por só funcionar num dos sentidos. Mas há um problema: o botão não é acessível a todas as pessoas com deficiência, queixa-se Sérgio. "Os acessos e a falta de mobilidade fazem com que as pessoas cheguem a ter medo de sair à rua, porque sabem que vão ter uma data de constrangimentos. E a maioria desiste", lamenta Sérgio.

No site do metro, aconselham as pessoas de mobilidade reduzida a viajarem acompanhadas. "Mas deveria haver uma maior facilitação para termos a liberdade de decidir se queremos andar sozinhos ou não", explica.

Para Va, os autocarros estão fora de questão, porque a frota da Carris - em que apenas 197 dos 600 autocarros são acessíveis - só serve a partir da zona de Alfragide. Às vezes, a única e última alternativa é recorrer a um táxi. Só que alguns taxistas recusam-se a transportá-lo, uma vez que as distâncias que pede são demasiado curtas. "Não posso ir a todos os sítios como uma pessoa normal", lamenta. "Fico mesmo chateado e desmotivado quando chego a algum lado e não consigo entrar."

Fonte do Metro disse ao DN que está a ser lançado um projeto piloto, no corrente ano, para se disponibilizarem rampas de acesso ao metro em seis estações da rede: São Sebastião, Marquês de Pombal, Restauradores, Saldanha e Alameda. "Contamos continuar este projeto no sentido de equipar todas as estações com a brevidade que nos for possível", acrescentou. Sérgio alerta para o cuidado que é preciso ter nestas soluções: para ele, as rampas da CP - que ajudou a testar - são boas; mas para uma pessoa com cadeira de rodas manual, como Va, são problemáticas. Isto porque cada caso é um caso.

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