Kathy Sullivan: de passear no espaço a mergulhar no local mais fundo do oceano

A antiga astronauta, que foi a primeira norte-americana a realizar um passeio espacial a 11 de outubro de 1984, tornou-se agora na primeira mulher a visitar o local mais fundo do oceano, a Depressão Challenger, na Fossa das Marianas.

De caminhar pelo espaço mais de 200 quilómetros acima do nível do mar, a descer quase 11 quilómetros até às profundezas do oceano. A antiga astronauta da NASA Kathy Sullivan, que a 11 de outubro de 1984 se tornou na primeira norte-americana a realizar uma atividade extraveícular na órbita do planeta Terra, tornou-se no último domingo também na primeira mulher a alcançar o ponto mais fundo do oceano.

"36 anos depois do meu passeio espacial, tornei-me na primeira mulher a mergulhar até ao local mais fundo do oceano que se conhece -- a Depressão Challenger", escreveu no Twitter Sullivan, de 68 anos.

Para assinalar o momento, quando regressou ao navio de apoio depois do mergulho no submarino Limiting Factor, Sullivan falou com os astronautas atualmente na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), que está a mais de 400 quilómetros de altitude.

"Como oceanógrafa e astronauta este foi um dia extraordinário, um dia único na vida, vendo a paisagem lunar do Challenger Deep e depois comparando notas com meus colegas da ISS", indicou Sullivan, num comunicado.

Mais de 22 dias no espaço

Kathryn "Kathy" Sullivan, que tem formação em geologia e oceanografia, juntou-se à agência espacial norte-americana NASA em 1978, tendo feito parte do primeiro grupo de astronautas a incluir mulheres. Viria a participar em três missões (outubro de 1984, abril de 1990 e março de 192), passando cerca de 532 horas, ou seja, mais de 22 dias, no espaço.

Foi durante a primeira missão que se tornou na primeira astronauta norte-americana a efetuar um passeio no espaço (oficialmente atividade extraveícular, ou EVA na sigla em inglês), que durou três horas e meia -- a primeira astronauta a fazê-lo, menos de três meses antes, tinha sido a soviética Svetlana Savitskaya.

O objetivo do passeio de Sullivan, que efetuou junto com o astronauta David Leestma, era demonstrar que era possível o reabastecimento de satélites.

Sullivan deixou a NASA em 1993, entrando no Hall of Fame dos astronautas (que distingue aqueles que se destacaram nesta atividade) em 2004.

Na presidência de Barack Obama, acabaria por ser nomeada subsecretária do Comércio para os Oceanos e a Atmosfera e administradora da agência científica responsável por estes temas, a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), à qual se tinha juntado depois de deixar a NASA.

A 11 quilómetros de profundidade

A Depressão Challenger foi descoberta pelo navio britânico HMS Challenger, que fez a circum-navegação do globo entre 1872 e 1976. Desde então, muitas expedições tentaram medir a profundidade desta fissura a sudoeste da ilha de Guam, na Fossa das Marianas, no Pacífico, com várias a alegar terem sido as primeiras a atingir o local mais fundo -- havendo desacordo sobre qual a sua verdadeira profundidade.

Os primeiros a descer ao fundo da Depressão Challenger foram o suíço Jacques Piccard e o norte-americano Don Walsh, a bordo do Trieste, a 23 de janeiro de 1960, tendo chegado a 10 910 metros de profundidade. Mais recentemente, em março de 2012, o realizador norte-americano David Cameron (Titanic) mergulhou sozinho a bordo do Deepsea Challenger, chegando aos 10 908 metros. Já o explorador Victor L. Vescovo, que financiou a missão de Sullivan e mergulhou com ela, disse em abril de 2019 ter alcançado os 10 928 metros de profundidade.

Sullivan participa na missão da Caladan Oceanic, da EYOS Expeditions, que inclui vários mergulhos até à Depressão Challenger -- um deles levará o filho de Don Walsh, Kelly Walsh, 60 anos após o do pai.

A antiga astronauta e Vescovo estiveram cerca de uma hora e meia no fundo do oceano -- dizem ter alcançado os 10 925 metros --, levando depois cerca de quatro horas a regressar à superfície. No fundo, a temperatura dentro do submarino era de -5 graus centígrados e a pressão 16 mil psi (cujos efeitos são visíveis no copo de poliestireno que mergulhou também).

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG