Investigadores já testam pílula que dura um mês

Depois de ingerida, a pílula fica no estômago durante semanas e liberta gradualmente hormonas que impedem gravidez. Os resultados dos testes em porcos foram considerados promissores e os investigadores pretendem testar em humanos dentro de poucos anos.

Milhões de mulheres em todo o mundo usam a pílula e em Portugal este é também o método contracetivo mais usado. Mas a sua toma é muitas vezes esquecida ou feita de forma errada, o que dá origem a gravidezes não planeadas. Mas num futuro próximo poderá existir uma alternativa à pílula convencional. É, pelo menos, isso que espera uma equipa de cientistas que desenvolveu a pílula de um mês.

O estudo foi realizado por uma equipa de investigadores norte-americanos, financiada pela Fundação Bill & Melinda Gates, que consideram o conceito de "pílula anticoncecional oral mensal atrativo", com "o potencial de ampliar as opções" das mulheres.

Desenvolveram uma cápsula, revestida em gelatina, que depois de ingerida expande-se em forma de uma estrela que pode ficar no estômago semanas enquanto liberta, gradualmente, hormonas sintéticas que impedem uma gestação. Desenvolvida para resistir aos ácidos presentes no estômago, a pílula foi testada em porcos, com resultados promissores, e dentro de três a cinco anos deverão começar os testes em humanos.

Os cientistas consideram que esta cápsula pode ajudar a prevenir gravidezes não desejadas, que surgem na sequência do esquecimento da toma do medicamento, refere uma nota do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

"Estamos com esperança que este trabalho - o primeiro exemplo de uma pílula ou cápsula de um mês que temos conhecimento -, potencie, um dia, novas modalidades e opções para a saúde da mulher", afirmou Robert Langer, professor do MIT e coautor do estudo.

"Desenvolvemos este sistema de cápsulas que se parece com uma estrela-do-mar, que pode permanecer no estômago por vários dias, semanas e até um mês de cada vez", disse um dos autores principais do estudo, o gastrenterologista Giovanni Traverso, do departamento de engenharia mecânica do MIT e investigador do Brigham and Women's Hospital, de Boston.

O especialista indica que, com base na investigação, não deverá "haver nenhum problema com bloqueios ou com a digestão e a passagem de alimentos" na presença desta pílula em forma de estrela.

Langer e Traverso usaram esta tecnologia pela primeira vez numa outra experiência: transformar medicamentos de toma diária contra a malária e o HIV em cápsulas que duravam uma ou duas semanas.

Fundação Bill

No trabalho que foi publicado na revista Science Translational Medicine, os cientistas sublinham o facto de que a eficácia da contraceção oral convencional é comprometida quando há falhas na sua adesão.

Os especialistas indicam no seu estudo uma pesquisa internacional que revelou que, "num intervalo de três meses, quase 40 a 50% das mulheres" não tomaram, pelo menos, uma dose da pílula. Uma percentagem semelhante de mulheres admitiu ter tomado o medicamento no momento errado. Como consequência, a possibilidade de gravidez em mulheres que usam pílulas anticoncecionais orais é de 9% ao ano. "É, portanto, necessário identificar métodos para melhorar a adesão na população de pacientes que prefere pílulas orais", refere o estudo.

Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft, está a investir, através da Fundação de Bill & Melinda Gates, 13 milhões de dólares no desenvolvimento da pílula de um mês para que possa ser testada em humanos, com vista a melhorar o planeamento familiar nos países em desenvolvimento, de acordo com o The Washington Post.

Traverso afirma que com o desenvolvimento deste tipo de tecnologias, o objetivo passa por " transformar a experiência das pessoas em tomar medicamentos", de modo a que seja mais fácil, com a administração por via oral uma vez por mês. "Estamos muito empenhados para que esta tecnologia possa chegar às pessoas nos próximos anos", deseja o gastrenterologista Giovanni Traverso.

"Apresentar uma versão mensal de um medicamento contracetivo pode ter um tremendo impacto na saúde global", considera Ameya Kirtane, do Instituto Koch de Pesquisa Integrativa do Cancro do MIT.

Melhorar os métodos de contraceção representa benefícios não só em termos de saúde, mas também ajuda as mulheres a irem à escola e a sustentarem-se financeiramente, salienta o MIT, em comunicado.

Além da pílula convencional, há outros métodos contracetivos como o adesivo cutâneo, o dispositivo intrauterino, anel vaginal, implante subcutâneo. "Mesmo com todos estes dispositivos de ação prolongada disponíveis, há uma certa população que prefere tomar medicamentos por via oral, em vez de implantar algo", afirma Kirtane.

"Em teoria, uma pílula mensal pode ser mais eficaz que os contracetivos orais atuais, que as mulheres devem tomar todos os dias", congratulou.-se Diana Mansour, da Faculdade de Saúde Sexual e Reprodutiva do Reino Unido. Citada pela BBC, a especialista, que não participou no estudo, faz notar que o desenvolvimento deste novo contracetivo ainda está na sua fase inicial.

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