Votação polémica agrava mal-estar no Instituto Espanhol

Depois da controvérsia com os horários deste ano letivo, com horas de almoço tardias e poucas pausas, direção promoveu "consulta" aos pais de que saiu vitoriosa. Mas a forma como decorreu a decisão está a agravar a contestação

A polémica em torno dos horários no Instituto Espanhol GIner de los Rios promete prolongar-se no próximo ano letivo. Depois de, neste ano, a direção da escola de Algés ter implementado horários quase sem pausas e sem intervalo para almoço, o qual em muitos casos só acontecia após o final das atividades já para lá das 14.00 , foram feitas algumas alterações - o Ministério da Educação chegou a envolver-se na questão. Mas a contestação por parte significativa dos pais continuou e a direção do estabelecimento de ensino decidiu promover uma "consulta" aos pais, cujos resultados, divulgados ontem, lhe foram favoráveis. Mas a forma como decorreu esta votação está a motivar muitas críticas.

"Já alertámos a direção e a administração educativa, porque o processo é muito pouco transparente", disse ao DN Jordi Rubio, representante da associação de pais no conselho escolar do estabelecimento."Enviaram os votos através das mochilas, inclusivamente através de meninos de três ou quatro anos. Não havia verificação da identidade. Podia ter sido qualquer pessoa".

No final, de acordo com os resultados divulgados nesta quinta-feira, entre um total de 684 famílias, registaram-se 192 votos a favor do horário proposto pela direção e 160 contra. Mas o que chamou mais a atenção dos que contestam as opções da atual direção do estabelecimento foi a elevada abstenção - 232 famílias - e um total de 97 votos anulados.

Para Jordi Rubio, o facto de muitos "boletins" de voto terem sido entregues a crianças em idade de pré-escolar poderá ajudar a explicar a abstenção elevada. "É possível que muitas destas crianças nem tenham dado aos pais os boletins, porque não perceberam que o tinham de fazer", considera, lembrando que houve neste ano "outras duas votações", para os representantes no conselho escolar e para associação de pais, nos quais quem votou "acrescentou fotocópia da sua identificação", o que agora "não foi aceite pela direção".

"No tempo de Franco é que votava sempre o chefe de família"

Por outro lado, muitos encarregados de educação contestam o próprio sistema de voto definido pela direção, com apenas um voto por família, em vez das soluções mais habituais de atribuir um voto por cada filho ou um voto a cada um dos pais, comparando mesmo esse método com o sistema de votação na Espanha...franquista. "No tempo de Franco é que votava sempre o chefe de família, o homem, mesmo que tivesse vários filhos e que alguns deles até fossem maiores de idade", recorda. "Não faz qualquer sentido. Há casos de casais divorciados, com a guarda partilhada, em que votou aquele que estava com a criança na semana em que o voto foi enviado para casa", ilustra.

O número elevado de votos anulados também gerou estranheza. Principalmente por se tratar de uma consulta sobre um tema que tem sido acompanhado atentamente pela generalidade das famílias daquela escola. "Noventa e sete famílias não entenderam como votar e viram o seu voto anulado?", questionou um pai português, que pediu para não ser identificado. "Estamos a falar de pais interessados em votar e em fazerem ouvir a sua opinião. Será que tiveram um voto de protesto anulando-o, ou foi anulado por não cumprirem a normativa expressamente definida para esta votação?".

Os pais ouvidos pelo DN garantiram ainda que a direção tinha apresentado esta votação como uma consulta não vinculativa, e que serviria apenas para definir horários de entrada e saída - sendo o que tem motivado críticas são os intervalos e a hora de almoço - mas terá agora informado que se encontra legitimada para definir os horários do próximo ano.

O DN tentou, sem sucesso, contactar o Instituto Espanhol nesta sexta-feira à tarde.

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