Telejornais não desconstroem a violência doméstica, revela ERC

Estudo da Entidade para a Regulação da Comunicação Social revela que 53% das peças televisivas sobre a ​​​​​​violência entre conjugues e ex-conjugues apresentam elementos sensacionalistas.

Vocabulário que explora o campo semântico da violência, imagens de cadáveres ou de sangue, fontes ligadas às vítimas ou aos agressores e apresentação de ciúmes, infidelidade ou outros conflitos como as causas de situações de violência doméstica: mais de metade das peças televisivas contêm pelo menos um destes elementos. Conclui o estudo da Entidade para a Regulação da Comunicação Social (ERC) Representações da Violência Doméstica nos telejornais de horário nobre, apresentado esta segunda-feira.

A partir da análise de 432 peças sobre violência entre conjugues e ex-conjugues nos telejornais da RTP1, RTP2, SIC e TVI, entre 2013 e 2015, a equipa do Departamento de Análise de Media da ERC indica que faz falta um esforço para desconstruir a problemática da violência doméstica. E que é necessário evitar "pormenores sem valor informativo" como " por exemplo dizer que uma mulher foi assassinada com 19 facadas". "Não é muito relevante saber exatamente de quantas facadas ela foi vítima ou saber a localização dos ferimentos ou a forma como o corpo foi encontrado", explica Túlia Marques, uma das autoras do estudo. "Se dissermos simplesmente que foi um crime de grande violência estamos a dar a mesma dimensão, abstendo-nos deste pormenor", acrescenta.

Do universo de notícias analisado, 53% revelaram um ou mais elementos de caráter sensacionalista, não havendo diferenças entre o serviço informativo público e o privado. Sendo o homicídio a principal razão para mencionar um caso de violência doméstica.

"Normalmente, as peças jornalísticas são muito mais vocacionadas para o acontecimento do que para a problemática. Não há uma grande preocupação em contextualizar, em problematizar, em colocar na esfera dos direitos humanos, recolhendo motivos muitas vezes junto de fontes que têm alguma proximidade junto do agressor ou da vítimas", avança Túlia Marques.

"Também constatámos que uma parte significativa das peças apresenta, ou pela voz do operador [televisivo] ou pela voz das fontes selecionadas, motivos que podem justificar o crime". Fala-se em separações complicadas, em ciúmes, em sentimentos de posse ou em infidelidade em 41,7% das notícias. Túlia lembra-se de uma em particular, que teve como desfecho um homicídio: "a vítima tinha feito uma queixa à polícia de violência doméstica, mas até optou por ficar em casa. Este "mas" dá a entender que fez uma coisa bem - ter feito queixa - mas fez outra coisa mal - ficar em casa.".

"É aquilo a que nós chamamos a culpabilização suave da vítima. No fundo parece que se está a dar a entender que a vítima teve alguma culpa. E é aqui se pode dar alguma contextualização, dizendo por exemplo que estas mulheres são ameaçadas, são subjugadas e que romper com o ciclo da violência não é uma coisa simples", continua a porta-voz.

As vítimas vão sendo apagadas dos casos mediáticos

A tendência para olhar para os motivos prováveis e para as histórias pessoais desvia atenção do recetor do problema social, sugere o regulador, que pôde comprovar estas características através do estudo de dois casos mediáticos de violência doméstica, noticiados durante o período em análise: o de Manuel Baltazar, "o Palito", preso por ter disparado contra a filha e a ex-mulher para além de ter matado a tia e a mãe da última, e o de Oscar Pistorius, que assassinou a namorada.

No caso que envolveu Manuel Baltazar, "as notícias acabaram por se forcar mais na fuga do que no crime", uma vez que o agora prisioneiro esteve dois meses fugido. A cobertura intensiva da fuga, segundo Túlia Marques, fez com que as pessoas lhe começassem a associar características como a astúcia "por ter conseguido iludir as autoridades". "Ao ponto de culminar com uma peça, que passou em todos os canais, que é a chegada de Manuel Baltazar depois da detenção, em que este é aplaudido pela população que o espera à entrada".

Quanto ao atleta paralímpico sul-africano Oscar Pistorius, o caso centrou-se "mais no julgamento da figura pública do que no crime. A dada altura parece que é merecedor de mais atenção perder a glória do que perder a vida. Assiste-se a um desaparecimento das vítimas ao longo da cobertura [mediática]. As vítimas vão-se tornando invisíveis", diz Tânia Marques.

A fragilidade em vez da superação e da prevenção

"A vítima é sempre representada numa situação de fragilidade. Por um lado é compreensível mas mesmo quando são peças que problematizam mais e até recolhem depoimentos, achamos que seria interessante apresentar casos de superação. Porque a vítima até pode romper com aquele ciclo de violência - saiu de casa, está a refazer a vida - mas a ideia que passa é que sai de um pesadelo para outro, porque vive com medo", conclui.

A equipa responsável pelo estudo sugere que seja dado tempo de antena a histórias de pessoas que tenham conseguido reconstruir as suas vidas. Até porque estas podem inspirar outras vítimas de violência doméstica a resolverem o seu próprio caso. A mesma ideia se aplica aos agressores, que também passam muitas vezes por um processo de reabilitação. "Neste universo de 432 peças lembro-me de uma ou duas que apresentavam esta perspetiva", afirma Túlia Marques.

É ainda considerada nos resultados do estudo a falta de atenção dedicada à informação sobre mecanismos de apoio a vítimas de violência doméstica, como a divulgação de linhas de apoio.

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