Só 10% dos fisioterapeutas trabalham no Serviço Nacional de Saúde

Há 12 mil fisioterapeutas em exercício em Portugal, dos quais 70% formados nos últimos oito anos. Dados revelados pela Associação Portuguesa de Fisioterapeutas (APFISIO), que exige a criação de uma Ordem

Portugal conta atualmente com 12 mil fisioterapeutas no ativo, um número que cresceu bastante nos últimos anos, visto que em 2010 existiam apenas três mil profissionais em exercício. Contudo, apenas cerca de 1 400 trabalham no Serviço Nacional de Saúde (SNS), uma realidade que, segundo a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas (APF) - APFISIO, é insuficiente para as necessidades do país e exige que haja regulação, nomeadamente através da criação da Ordem dos Fisioterapeutas.

Os dados são revelados pela APFISIO, a propósito do Dia Mundial da Fisioterapia, que se assinala este sábado. "A profissão cresceu imenso nos últimos oito anos. Desde 2010, formaram-se 70% dos profissionais, um aumento que está relacionado com a consolidação das unidades privadas", afirma Emanuel Vital, presidente da associação, lembrando que a Entidade Reguladora da Saúde passou a emitir registos para o funcionamento das Unidades Privadas de Fisioterapia em 2013.

Esta multiplicação de profissionais levanta, segundo o representante, algumas preocupações. "Há uma proliferação da prática, pelo que é importante que haja regulamentação, a fim de garantir a qualidade e a segurança dos cuidados prestados em fisioterapia", diz ao DN.

A criação da Ordem dos Fisioterapeutas foi aprovada na generalidade na Assembleia da República em 20 outubro de 2017, aguardando a aprovação na especialidade na Comissão Parlamentar do Trabalho. "É urgente e inevitável a criação da Ordem", alerta Emanuel Vital, destacando que é importante que a profissão "se desenvolva em modelos exigentes e de boas práticas".

No âmbito do Forum APFISIO - O Fisioterapeuta em Portugal: Traços de uma Identidade, que se realiza este sábado, a APF vai apresentar a "Caracterização da Atividade Profissional dos Fisioterapeutas". Uma das novidades do estudo é o facto de as unidades privadas de fisioterapia terem ultrapassado os hospitais como principais locais de atividade dos fisioterapeutas em Portugal, seguindo-se, por ordem decrescente, as unidades de medicina física e de reabilitação e as instituições particulares de solidariedade social (IPSS).

"Portugal é um dos países onde as pessoas vivem mais tempo com maior incapacidade. Um das razões é a falta de investimento do SNS nos serviços de fisioterapia. Se o SNS estivesse dotado do número adequado de fisioterapeutas nos cuidados de saúde primários e hospitalares, os portugueses podiam ter melhor qualidade de vida", assegura o presidente da APFISIO, lembrando o reforço que tem sido feito a este nível nos cuidados continuados.

De acordo com um estudo feito em 2015, com base nas necessidades da população, o rácio de um fisioterapeuta para
6 000 habitantes constitui o valor que permite um planeamento mais adequado
de intervenção em saúde na área da fisioterapia, mas Portugal encontra-se muito longe desse valor.

20% tem mestrado ou doutoramento

No âmbito do estudo, foram enviados 3 900 inquéritos e obtidas 212 respostas. Segundo o mesmo, 70,8% dos fisioterapeutas são mulheres, uma percentagem em linha com as entradas e saída registadas nos cursos universitários; e a faixa etária maioritária fica entre os 26 e os 35 anos, embora os autores considerem que a faixa com menos de 25 anos está sub-representada na amostra, uma vez que mais de dois terços dos fisioterapeutas em exercício se formaram entre 2010 e 2018.

No que diz respeito à formação, 24,1% dos inquiridos concluíram o mestrado e 4,7% são doutorados - para além de 66,5% terem licenciatura e de apenas 4,7% se ficarem pelo bacharelato. Além disso, dois terços dos fisioterapeutas têm no seu curriculum três ou mais cursos de formação contínua com carga horária igual ou superior a 30 horas.

Atendendo às respostas, o presidente da APFISIO acredita que "perto de 20% dos fisioterapeutas têm mestrado ou doutoramento".

Ângela Maria Pereira, de 52 anos, que terá sido a primeira fisioterapeuta em Portugal com o mestrado e doutoramento em Ciências da Fisioterapia, conta o que a levou a prosseguir a formação académica. "A fisioterapia é uma ciência comprovada, mas precisamos de esclarecer dúvidas no dia a dia. A curiosidade e a vontade de prestar melhores cuidados são algo que todos temos. Aliado à docência, tratar melhor os meus doentes sempre foi o meu objetivo", diz a fisioterapeuta do Hospital Garcia de Orta e docente e coordenadora da licenciatura de Fisioterapia na Escola Superior de Saúde Egas Moniz.

Destacando que existe atualmente um "reconhecimento social grande da profissão", a especialista ressalva que nem todas as pessoas sabem quem são os fisioterapeutas, pelo que é muito importante que exista regulação.

Relativamente ao baixo número de profissionais a trabalhar no SNS, Ângela Pereira refere que, em contexto hospitalar, "há outros profissionais que fazem as funções dos fisioterapeutas". E, por outro lado, "quem não tem acesso aos serviços de fisioterapia no SNS, recorre ao privado, mas devia poder usufruir destes no serviço público".

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