Regressar à Lua para poder chegar a Marte

O último astronauta na Lua, Eugene Cernan, defendia o regresso para se poder rumar a Marte. A NASA tem planos para levar a primeira mulher à Lua em 2024, e a Europa e a Rússia querem estabelecer ali uma estação científica. Mas ainda não há data para ir ao Planeta Vermelho.

Eugene Cernan, Gene, como todos diziam, o último homem na Lua, falecido em janeiro, aos 82 anos, a escassos meses das celebrações do meio século da chegada à Lua, falava da sua experiência enquanto um dos 12 astronautas - e únicas pessoas até hoje - que saíram da Terra e por breves dias pisaram outro mundo, como quem fala de um amor perdido. Um amor feliz, único, mas perdido há demasiado tempo.

"O que sente lá em cima, na Lua, é quase inexplicável. Talvez ainda não estejam inventadas as palavras para o dizer", lembrava, em 1994, em Houston, nas celebrações dos 25 anos da primeira alunagem, a um grupo internacional de jornalistas - o DN também estava lá, a escutar as suas palavras.

Cernan tinha a convicção de que os Estados Unidos deviam regressar o mais depressa possível às ousadas missões que na década de 1960, com os programas Mercury, Gemini e depois Apollo, fizeram vibrar a América e o mundo, e que culminaram naqueles 12 astronautas a caminhar na Lua e a espetar lá uma bandeira, a dar saltos patuscos e a conduzir rovers na sua paisagem despida e poeirenta, e a trazer as primeiras amostras daquele chão que até aí tinha permanecido intocado.

O regresso tão ansiado por Gene Cernan, porém, não aconteceu. Chegou a existir esse propósito, quando o então o presidente George W. Bush criou em 2005 o programa Constelation, que previa o regresso dos voos tripulados da NASA à Lua, para a partir daí encetar outros mais ambiciosos e mais complexos rumo a Marte. O regresso à Lua chegou a estar agendado para 2020. Para Marte não havia data, mas 2030 passou a ser apontado como horizonte possível, e nesta altura não está sequer posto de parte, embora seja talvez otimista.

Os planos, que passavam pelo desenvolvimento de novos e mais potentes foguetões, de uma nave e módulos lunares mais avançados, acabaram no entanto por se gorar, por subfinanciamento. O Constelation foi cancelado em 2010 sem nunca ter feito a altos voos. Cernan foi um dos que se bateram contra o seu fim.

Marte manteve-se imperturbável e longínquo, visitado apenas por sondas e robôs rolantes com laboratórios químicos e câmaras que, à distância, têm, mesmo assim, feito sonhar a humanidade. Mas não é a mesma coisa do que uma pegada humana.

Talvez pela aproximação da data redonda e porque o feito de há meio século continua a ser ainda extraordinário, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu em 2017 reativar um programa de voos tripulados à Lua, e mais além - leia-se Marte. Há algumas semanas, na antecipação das comemorações dos 50 anos da primeira alunagem, o administrador da NASA, Jim Bridenstine, confirmou que em 2024, a data agora definida para o regresso americano à Lua, será a vez de a primeira mulher ali marcar a sua pegada.

Depois de décadas em que apenas sondas não tripuladas americanas, europeias, da Índia, do Japão e da China foram enviadas para a órbita lunar - a chinesa Chang-4, fez em janeiro uma alunagem no lado oculto do satélite, no que foi uma estreia absoluta -, o programa da NASA estipula assim o regresso dos voos tripulados ao satélite da Terra.

O Artemis, como se chama, em alusão à deusa grega da Lua, que era também irmã de Apolo, prevê os primeiros testes dos lançadores e da cápsula Orion melhorada já em 2020, mas ainda sem tripulação a bordo. Desta vez, as missões serão um esforço conjunto da NASA e de empresas privadas americanas do setor do espaço, que já estão, de resto, a participar nos voos orbitais para a ISS, a Estação Espacial Internacional, para já no transporte da carga, em breve também no das tripulações.

Entre elas destaca-se a Space X, do multimilionário Elon Musk, que está a desenvolver a nova geração de superfoguetões para a viagem e que tem igualmente planos para abrir as futuras viagens ao turismo lunar - uma forma de ajudar a financiar o programa.

Os Estados Unidos, porém, já não são os únicos com projetos para ir à Lua. Enquanto a China, o Japão, a Índia e países europeus vão mantendo planos para enviar até lá as suas sondas, e continuar a desvendar os seus mistérios, a Agência Espacial Europeia e a Rússia têm um plano conjunto para voos tripulados à Lua também, para aí estabelecer, num horizonte ainda não definido, uma estação científica permanente. É uma ideia de fundo, na medida em que isso facilitará a futura ida a Marte.

No programa da NASA, o propósito é colocar em torno da Lua pequenas naves para ali manter astronautas. E, a partir de 2024, o projeto dos Estados Unidos é realizar um voo para a Lua todos os anos.

"Em nome da humanidade"

Naquele dia 14 de dezembro de 1972, antes de subir as escadas para regressar ao modulo lunar, e a casa, Gene Cernan despediu-se. Três anos antes, Neil Armstrong havia proferido as famosas primeiras palavras de um ser humano na Lua - "um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade" -, que hoje completam meio século e nos pertencem a todos.

A Cernan coube pronunciar as últimas, que ele quis que fossem um até à vista. "Aqui Gene", disse, antes de começar a subir os degraus do LEM, o módulo lunar. "Estou sobre a superfície da Lua, a dar os últimos passos, de regresso a casa por algum tempo - mas acreditamos que não será por demasiado tempo. Regressamos como viemos e, se Deus quiser, voltaremos em paz e com esperança, em nome de toda a humanidade."

Em 1994, então com 60 anos, Cernan tinha ainda bem presentes cada uma destas palavras, mas sabia que se tinha enganado na estimativa do tempo para o regresso à Lua. Um quarto de século já era demasiado.

Emocionado, naquele dia, há 25 anos, explicava: "Tínhamos um propósito e uma vontade forte. Cumprimos o sonho e regressámos vivos." Era sua responsabilidade, acreditava, passar a palavra às novas gerações, e lamentava que os voos tripulados não ultrapassassem a órbita terrestre. "Não temos um grande objetivo, como aconteceu connosco, capaz de aglutinar vontades e de produzir algo realmente importante." Para Gene Cernan, voltar a pisar a Lua era imprescindível para dar um outro passo, ainda mais ambicioso. "Depois virá Marte, claro", dizia. Não chegou a ver nenhum deles.

Ir a Marte é uma viagem ainda mais complexa. A duração mínima é de 14 meses, mais do dobro do tempo máximo que um astronauta hoje passa na ISS e os riscos são incomparavelmente maiores. Por isso o horizonte mais provável para uma tal empresa talvez seja só em 2040. Ou 2050.

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