Recebidos por Judy Garland

A Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, reabre em setembro, depois do período de verão

Um lugar onde a voz de Judy Garland a cantar Somewhere over the rainbow nos chama para entrar na sala nem precisava de existir para nos deixar alegres. Imaginá-lo já chegaria. Mas existe. É a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, ali num palacete novecentista da Barata Salgueiro. Além do arco da entrada, outras letras, luminosas à noite, denunciam-na ao descer a rua: "cinema", lê-se. Mais discreto é o desenho fosco de película nas portas de entrada.

Foi fundada no começo dos anos 1950 por Manuel Félix Ribeiro, que dá nome à sala maior. Luís de Pina, que foi diretor da casa (a quem sucederiam no tempo João Bénard da Costa, Maria João Seixas e agora José Manuel Costa), dá nome à sala mais pequena. Estou a deixar de fora o Palácio Foz, primeira residência, onde agora funciona a Cinemateca Júnior e núcleos do Museu do Cinema.

O mapa mais recomendável (e prático) da Cinemateca é, parece-me óbvio, a programação de cada mês. Por isso, este que aqui se apresenta terá qualquer coisa de sentimental.

Na Cinemateca vi filmes que nunca teria visto de outro modo e outros que achava já ter visto (em casa), mas só ali percebi que o que vira não era mais do que o primo pálido do verdadeiro filme, que naqueles ecrãs me aparecia.

Como já nasci na era do ruído, aprendi quão confrangedor pode ser tossir ou engolir em seco numa sala cheia de estranhos durante um filme mudo, mas também quão cómico é ouvir as gargalhadas incontroláveis dos mesmos estranhos (outros, mas os mesmos) a ver um filme como The Whole Town's Talking, do John Ford.

Gosto daquele átrio das salas de cinema, encimado por uma espécie de céu estrelado onde, se estivermos realmente no centro, a nossa voz faz eco. É ali que, a cada sessão, nos esperam as "folhas da Cinemateca", algumas que pedem para ser guardadas (cada um terá os seus motivos), tantas vezes assinadas por Bénard da Costa sobre o "mais belo dos filmes", este ou aquele. Gosto das salas, onde algumas vezes nos deixavam sentar nas escadas quando a sessão estava esgotada (não sei se ainda é assim).

Quanto a coisas práticas: os bilhetes são mais baratos do que os do cinema, o ótimo terraço do café-restaurante não tem pombos, ou são raros (e isso sim, é raríssimo em Lisboa), há uma livraria e, em setembro, há Frank Capra, Howard Hawks, João César Monteiro, Orson Welles, Milos Forman, Straub e Huillet, além da estreia do novo filme de Godard, Le Livre d'Image. E, claro, a voz de Judy Garland n' O Feiticeiro de Oz a avisar que a sessão vai começar.

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Rosália Amorim

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