Querido pai: já somos gays há muito, muito tempo

"Em maio passado, depois de 18 anos juntas, casei-me com a minha companheira de longa data. Não sei o que os meus pais teriam pensado sobre isso, mas gostaria que eles pudessem ter estado lá." O DN republica neste mês de agosto algumas histórias de Amor Moderno, um exclusivo DN/The New York Times

A primeira carta não foi minha, embora tenha passado tanto tempo a falar sobre isso com o meu irmão Charles que a sentia de alguma forma como minha. Eu tinha ido a São Francisco passar o dia de Ação de Graças e nós lemos e relemos a carta que ele estava a planear enviar ao nosso pai, mudando uma palavra aqui e ali, reorganizando frases.

Sugeri-lhe que substituísse gay por "homossexual", palavra que seria mais provável que o nosso pai tivesse ouvido, geralmente na mesma frase com "abominação", do púlpito da igreja Menonista que ele e a nossa mãe tinham frequentado durante décadas.

Eu apoiava o meu irmão, respeitava a sua coragem e senti-me lisonjeada por ele valorizar a minha opinião sobre uma coisa tão importante. Mas não entendia totalmente.

"Achas mesmo que ele precisa de saber?", perguntei. "Como é que isso o vai ajudar?"

"Não é por ele", disse Charles. "Eu estou a fazer isto por mim. Já passei dos 60 anos e ele ainda acha que eu me vou casar se encontrar a mulher certa."

"Não é que ele te tenha rejeitado", disse eu. "Ele acha que os seus filhos médicos são as pessoas mais importantes do mundo."

"Não sei como ele vai reagir a isto, mas preciso que ele saiba quem eu sou."

Mais tarde desabafei com a minha companheira: "Charles está obcecado com aquela carta."

"Parece que é importante para ele que o vosso pai saiba", disse ela.

Eu acho que o nosso pai está a fazer o melhor que pode", respondi. "Ele nunca foi além do oitavo ano e foi agricultor a vida inteira. O mundo dele é bastante restrito. Ele é saudável, mas tem 95 anos. Não se sabe como vai reagir a uma coisa destas."

"Tu também podes despreocupar-te."

Na manhã seguinte, o meu irmão perguntou-me se eu o queria acompanhar até ao marco do correio. O sol brilhava, refletido nos edifícios de São Francisco contra um céu azul radioso. Caminhámos até ao bairro de Fillmore e eu fiquei a vê-lo deitar a carta na ranhura do correio.

"Lá vai ela", disse ele.

"Agora já não há recuo", respondi.

Regressámos a casa pelo caminho mais longo, através de Alamo Square Park, com as icónicas Damas Pintadas alinhadas na luz da manhã.

"Gostava de saber quem vai ser o primeiro a visitá-lo depois de ele receber a carta," disse o meu irmão. "Quem é que vai ter de a processar com ele." Dois dos nossos oito irmãos que viviam perto da casa de repouso na Pensilvânia visitavam-no todas as semanas.

"Eu sei que o Abe vai lá todas as quartas-feiras à tarde", disse eu, "e acho que o Ike vai às sextas". Abe é psiquiatra; Ike é um agricultor aposentado e diácono menonista. Somos 12 irmãos ao todo.

"Duvido que a carta vá lá chegar até quarta-feira," disse o meu irmão.

A minha companheira e eu voltámos para a Virgínia e a preocupação de recuperar o atraso no trabalho e de preparar as festas distraiu-me do pensamento sobre quando a notícia teria atingido o patriarca da família. Não demorou muito até começarem a surgir os relatórios pormenorizados, e todos tão especiais que comecei a registá-los para não os esquecer.

Ike, o irmão agricultor, foi o primeiro a quem o nosso pai mostrou a carta.

"Tu sabias disto?", perguntou o nosso pai.

"Praticamente toda a gente sabe."

"Eu não sabia", disse o meu pai. "Não fazia ideia."

Na quarta-feira seguinte, quando da visita de Abe, o pai tinha mais perguntas.

"Como é que isto acontece?"

Abe respondeu: "Parece que algumas pessoas já nascem dessa forma."

"E são muitas que nascem assim?"

"Cerca de uma em dez, calcula-se."

"Bem, se é assim que as pessoas nascem, não parece ser com certeza uma coisa que deva dividir as famílias."

Essa proclamação percorreu toda a família e ecoou pelos corredores do lar de terceira idade de Fairmount, passando pelas salas dos enfermeiros e continuando através dos campos até às simples igrejas menonistas de tijolo à vista.

Depois de o meu pai ter recebido e processado a carta do meu irmão, ele parecia passar boa parte do tempo no seu quarto solarengo contemplando esta nova realidade. Era evidente que ele pensou sobre a teoria do um em dez e, do seu ponto de observação com vista para a entrada do lar de idosos, ia contando os visitantes, questionando-se. Ele falou aos membros da família que o visitavam sobre os parentes e vizinhos solteiros.

Quando Sanford, o meu irmão mais novo, o foi visitar, o meu pai disse-lhe: "Sabes, estive a pensar sobre Eli." Eli era um vizinho amish. "Todos esses anos, ele trabalhou naquela quinta sozinho. Lembro-me de que quando era mais jovem ele namorou raparigas, mas nunca deu certo. Pergunto-me se seria essa a história que se passava com Eli. Faz-me sentir mal por ele nunca ter encontrado alguém."

E, em seguida, começaram as perguntas sobre mim.

"Isso faz-me pensar na Mary Alice", disse o meu pai. "Então e ela?"

"Eu acho que deve ser o pai a perguntar-lhe", disse Sanford.

É claro que o meu pai não o iria fazer. Não era o tipo de coisa sobre a qual pudéssemos falar.

Quando Sanford me contou essa conversa, soube que tinha chegado a hora de esclarecer as coisas, de deixar que o meu pai soubesse que eu era uma em dez. Eu poderia ter enviado um irmão para lhe contar a novidade. Ou poderia tê-la gritado ao telefone ao meu pai com deficiência auditiva ou na minha próxima visita. Uma carta parecia ser a maneira mais sensata para lho comunicar.

Depois da carta corajosa do meu irmão, eu sabia que a minha seria um anticlímax, não só por a do meu irmão ter chegado primeiro, mas também porque eu era uma das suas quatro filhas e na nossa família, especialmente do ponto de vista do meu pai, nada que viesse de uma filha parecia ter a mesma importância que teria se viesse de um filho.

Assim, escrevi a minha carta e enviei-a, mas durante a minha visita seguinte o assunto nunca veio à baila. O meu pai foi tão simpático para a minha companheira como sempre tinha sido. Eu ainda considerei perguntar-lhe sobre a carta, mas nunca o fiz.

Se a minha mãe ainda fosse viva, acho que a conversa teria sido passada para ela. Tinham vivido na casa de repouso juntos durante alguns anos antes de ela morrer aos 95, apenas algumas semanas depois de terem comemorado os 74 anos de casados.

Durante anos depois de ela ter morrido, o meu pai olhava para a cadeira dela quando precisava de lhe dizer alguma coisa, e eu tenho a certeza de que ele teria gostado de saber o que ela pensava das cartas. Só espero que ela tivesse sido tão compreensiva como o meu pai foi, mas nunca o saberei.

O lar de idosos onde os meus pais moravam era dirigido por menonistas conservadores e era consistentemente reconhecido pela qualidade dos cuidados ministrados e pela sua limpeza. Muitos dos membros da equipa consideravam o seu trabalho como uma vocação religiosa. Havia um fluxo constante de voluntários que limpavam os óculos dos moradores, engraxavam os seus sapatos, massajavam pés e enchiam os salões e as capelas de música.

O meu pai comia as suas refeições na sala de jantar principal, mas insistia em ter um frigorífico grande no quarto para armazenar o seu gelado de cereja preta, que os meus irmãos zelavam para que nunca lhe faltasse. Ele guardava as taças e as colheres no frigorífico juntamente com bolachas e rebuçados para as crianças. Todas as noites fazia um lanche.

Sendo um dos poucos homens no lar de idosos, ele era muito procurado pelas viúvas. Sempre deixou claro que não tinha intenção de se casar novamente, mas convidava algumas delas para uma taça de gelado de vez em quando.

A sua visão do céu incluía a reunião com a nossa mãe. Embora ele estivesse ansioso por esse momento, primeiro queria viver até os 100 anos, ou, pelo menos, viver mais do que o seu irmão mais velho, que tinha morrido com pouco menos de 99.

Com o tempo, a preocupação do meu pai sobre quem era ou não gay diminuiu. A realidade confundia-se com a paisagem de quintas cuidadosamente tratadas que se estendiam até onde a vista dele alcançava da janela do seu lar de idosos.

Às vezes eu gostava de imaginá-lo sentado na varanda com os três homens restantes, todos eles com dificuldades de audição, e a gritar: "E eu tenho dois filhos que são gays. O que vocês acham disso?"

O meu pai morreu há uma década, uma semana antes de fazer os 100 anos. Eu acho que saber que todos os seus 12 filhos tinham encontrado alguém com quem compartilhar as suas vidas lhe deu paz. Se ele estiver com a minha mãe no céu, espero que a tenha posto a par das novidades da família. Se ele encontrar Eli lá em cima, o seu vizinho amish, espero que lhe diga como lamenta que ele tenha tido de trabalhar sozinho na quinta todos aqueles anos.

Recentemente, muitas das igrejas menonistas em Lancaster County, na Pensilvânia, decidiram separar-se da Igreja Menonista dos EUA, que optou por acolher os membros abertamente homossexuais. A única coisa que era tão importante como a igreja para os meus pais era a família.

Estou feliz por eles não terem vivido para ver estes tempos. Quem ganharia, a igreja ou a família? Será que o meu pai falaria contra a sua igreja para dizer às pessoas: "Não é o tipo de coisa que deva dividir as famílias"?

Em maio passado, depois de 18 anos juntas, casei-me com a minha companheira de longa data. Não sei o que os meus pais teriam pensado sobre isso, mas gostaria que eles pudessem ter estado lá.

Mary Alice Hostetter é escritora e vive em Charlottesville, na Virgínia.

Exclusivo DN/The New York Times

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