Prémio Visão Champalimaud distingue primeira terapia genética para curar cegueira congénita

Sete cientistas partilham um milhão de euros, valor do prémio que é hoje entregue em cerimónia na Fundação Champalimaud

O Prémio António Champalimaud de Visão distingue este ano sete cientistas e cirurgiões que ao longo de quase três décadas dedicaram as suas vidas de trabalho a estudar e a desenvolver o que é hoje a primeira terapia genética disponível para curar uma doença humana hereditária: uma forma de cegueira congénita causada por uma mutação no gene RPE65. Os doentes que hoje estão curados e as novas possibilidades que se abrem para muitos outros são a melhor prova disso.

Michael Redmond, do National Eye Institute, nos Estados Unidos, Jean Bennet e Albert Maguire, do Medicine and Chindren's Hospital, em Filadélfia (EUA), Robin Ali e James Bainbridge, da University College, de Londres, no reino Unido, e Samuel Jacobson e William Hauswirth, das Universidades da Pensilvânia e da Florida, respetivamente, recebem hoje o maior prémio do mundo na área da visão.

Os sete cientistas vão partilhar o prémio no valor de um milhão de euros, atribuído pela Fundação Champalimaud em reconhecimento dos seus "extraordinários avanços científicos", que conseguiram "transformar em terapia médica", e por assim "demonstrarem o potencial de futuros desenvolvimentos em terapia genética para curar outras doenças hereditárias", como sublinha a instituição.

Este é também um prémio para uma caminhada que, embora feita de forma independente pelos diferentes grupos de investigação galardoados, acaba por ser também uma jornada comum na criação de novos conhecimentos sobre uma doença, as suas causas e as novas possibilidades para lhe pôr termo.

Foi Michael Redmond quem deu o primeiro passo na caminhada, ao descobrir que que é na ação de um gene, precisamente o RPE65, que está a chave para o saudável metabolismo da vitamina A, cujo papel é decisivo na visão.

Um gene, cães cegos de nascença e uma terapia

Há meio século, um cientista americano chamado George Wald descobriu que a vitamina A tem um papel essencial na visão, e acabou por ganhar o prémio Nobel em 1967 pela sua descoberta. Mas pouco mais se sabia até ao final dos anos de 1980.

"Não sabíamos se se tratava de um processo químico, bioquímico, ou da própria luz e Wald acabou por morrer antes de se saber isso ", explica ao DN Michael Redmond, que teve um papel essencial nessa descoberta.

"Foi no final dos anos de 1980 que percebemos que se tratava de um processo que passava por uma enzima e por aquele gene específico, e isso foi como descobrir o Santo Graal da investigação em visão", conta divertido.

Michael Redmond estava já a trabalhar na biologia da visão quando um grupo de colegas do laboratório, no National Eye Institute, nos Estados Unidos, se deparou com um anticorpo que só afetava as células foto-recetoras da retina, mas cuja função era desconhecida. "Então disseram-nos: "Podem ver o que é isto?".

Foi assim que o grupo de Michael Redmond acabou por descobrir o gene RPE65 e abriu caminho a tudo o que a seguir se desenrolou.

Aquele foi um momento "aha!", como lhe chama o investigador. "Pouco depois, descobriu-se que aquele gene é partilhado por quase todos os animais e conseguimos perceber o que ele faz, que é transformar a vitamina A na forma da vitamina utilizável pelas células da retina para a visão".

Tal como em muitas outras dimensões da vida, na ciência as coisas acontecem frequentemente desta forma: puxa-se por um fio, e a meada desenrola-se por aí fora. Assim aconteceu também neste caso. Encontrado o gene, percebida a sua função e descoberta a mutação que impede a correta síntese da vitamina A para visão, porque não pensar numa terapia genética, para trocar o defeituoso pela sua forma correcta?

"No meu laboratório não tínhamos a tecnologia para tentar desenvolver uma terapia genética, mas havia outros grupos que tinham e nós, que tínhamos desenvolvido um modelo de estudo em ratinhos com esta mutação do gene, apresentámos-lhes o nosso modelo para esses testes", conta Michael Richmond.

Um dos grupos que se aventurou nessa busca foi o de Jean Bennett e Albert Maguire, que são mulher e marido, além de trabalharem juntos nesta área há mais de três décadas. Para eles, a ideia de uma terapia genética surgiu mesmo antes de se saber que havia um gene implicado nesta forma de cegueira chamada Amaurose Congénita de Leber, que hoje, graças a eles e aos outros grupos premiados já tem cura.

"Um dia, talvez em 1985, ele [o marido, que é oftalmologista e cirurgião] perguntou-me se se poderia fazer terapia genética nesta área", lembra Jean Bennett divertida. "Na altura não conhecíamos nenhum dos genes que causam a cegueira, mas respondi-lhe que sim, era uma resposta que me fazia sentido", lembra. "Depois passámos a década e meia seguinte a tentar perceber como íamos fazer isso.".

Acabou por levar mais tempo do que poderiam imaginar. Descoberto o gene e compreendida a sua função, e descoberta a mutação associada àquela forma de cegueira congénita, em ratos e em cães, tudo se tornou então mais claro.

"Tínhamos três desses cães e então decidimos tentar uma intervenção", lembra Jean Bennett. Para a cirurgia, os cães também eram um bom modelo, "porque têm olhos grandes", diz por seu turno Albert Maguire.

Tratava-se de fornecer às células foto-recetoras da retina o gene corrigido. Para isso, os investigadores utilizaram um vírus inócuo, despojado da sua própria informação genética e preenchido com o ADN do gene RPE65, na sna sequência certa. Albert Maguire realizou as primeiras intervenções nos cães em 2000.

"Foi incrível", lembra Jean Bennett. "Poucos dias depois, andavam aos saltos por todo o lado, a brincar, já conseguiam ver".

Depois foi a longa travessia para a realização de todos os testes e procedimentos de segurança para a aplicação da terapia a humanos, que tanto Jean Bennet e o marido, como os outros grupos premiados tiveram de percorrer. Os três grupos, que desenvolveram a terapia independentemente uns dos outros, fizeram os primeiros ensaios clínicos em 2008 e com isso puseram dezenas de pessoas cegas de nascença a ver.

A terapia genética foi formalmente aprovada no ano passado nos Estados Unidos e deverá ser aprovada na Europa ainda este ano. O prémio Champalimaud coroa todo esse trabalho e esforço e, como explicam os premiados, servirá também para continuar a investir neste caminho. "Há muitas outras formas de cegueira que poderão beneficiar desta técnica, e agora o caminho já está aberto", dizem, satisfeitos, os premiados.

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