Paco Arango. O realizador "louco" que diz ter dez mil filhos

Vem a Lisboa promover filme 100% solidário. Quem o for ver estará a ajudar crianças com cancro

Quem é Paco Arango? A pergunta faz soltar uma gargalhada do outro lado do telemóvel, mas a resposta chega sem hesitação: "Sou um louco." Um louco que diz ser solteiro e que tem dez mil filhos, tantos quantas as crianças com cancro que conheceu. É a elas que se tem dedicado. É por causa delas que gostaria de ter um dom: o de curar. "Há quem diga que gostaria de ter o dom de voar, de ser invisível, eu gostava de curar", diz.

Paco fala com o DN por telefone, a partir de sua casa em Madrid, de onde parte na segunda-feira para viajar até Lisboa. Traz uma missão muito específica: falar, sensibilizar, alertar para a mensagem do seu último filme, O Que de Verdade Importa, uma história de vida, "uma mistura de comédia e drama com muito realismo e magia".

Uma história que surge do seu desejo de curar, o corpo e a alma. Conta que há muito tinha uma preocupação: "Sentia que tinha muita sorte na vida. Tinha uma família saudável, bem economicamente e não sabia como ajudar os outros. Um dia, um amigo disse-me: 'Porque não vais trabalhar com crianças com cancro?' Um dia, numa quarta-feira, entrei num hospital em Madrid e nunca mais de lá saí. Foi há 17 anos. Todos os dias lá vou. Criei a minha fundação, Aladina, que apoia crianças. É a isto que me dedico. É este que eu sou. Um louco que procura ajudar crianças e que adora cinema", afirma, lançando outra gargalhada. Para acrescentar: "Ah, sou solteiro e tenho um cão, Batman, que entra no filme."

Paco nasceu numa família milionária. Os avós, oriundos da Andaluzia, emigraram para o México, o pai, Plácido Arango, nasceu e cresceu lá, ele também. Nasceu a 28 de março de 1967, mas vive há muito em Espanha. Estudou cinematografia em Boston e em Los Angeles. Escreveu guiões, produziu séries para televisão e agora realiza as suas próprias histórias.

O Que de Verdade Importa é o seu segundo filme. O título foi buscá-lo ao nome da fundação que se tornou parceira nesta iniciativa, já que em inglês é The Healer - O Curandeiro. "Achei que a expressão não fazia muito sentido em português e espanhol e que o nome da fundação tinha tudo que ver, porque a história é sobre o que de facto importa", explica. E o que de verdade importa é que este filme é 100% solidário. A receita reverterá a favor de crianças com cancro em todo o mundo. Em Portugal, o dinheiro irá para o IPO de Lisboa, para a construção de uma nova unidade de transplante de medula. A que existe, considerada centro de referência, é de 1987, mas 20 anos depois o seu alargamento é uma necessidade. As obras já estão em curso e vão permitir aumentar o número de transplantes realizados por ano, passando de 100 para 160, soube o DN. Paco contou ao DN que as verbas do filme irão para Lisboa, mas que ele próprio assumiu uma promessa: "O que o filme fizer em Lisboa será dado de igual forma ao IPO do Porto."

Por isso, salienta, "é muito simples a mensagem que levo: se queres fazer o bem, não me dês o teu dinheiro, vai ver o filme". Paco espera que através do cinema a sua mensagem chegue "diretamente ao coração das pessoas e, assim, elas possam pensar na vida e fazer o bem".

Ao avançar para este projeto sabia que só teria sucesso se conseguisse reunir atores importantes. Escolheu-os, diz que foram colaborantes e solidários à sua maneira. "Uma coisa é o filme e o que eu faço com o meu dinheiro, outra são os atores. E, claro, estes foram pagos como tinham de ser", conta.

O filme chega às salas de cinema em Portugal a 13 de setembro, mas já passou por Costa Rica, Brasil, Espanha, México, Colômbia, El Salvador, Panamá, Guatemala, Peru e Chile. "Foi um sucesso. Em todos estes países, as pessoas saíram à rua para ir ao cinema. Foi visto por mais de 3,5 milhões de pessoas e já reunimos quatro milhões de euros para ajudar crianças. Estou muito contente de o filme chegar a Portugal, espero que o resultado seja o mesmo."

Paco desvenda um pouco. "Alec era um jovem irresponsável. Tinha um dom, o de curar, mas não o queria usar. Até que conhece uma jovem que o faz perceber que a vida é para ser celebrada." A história começa em Londres, mas viaja até à Nova Escócia, no Canadá, aldeia de onde é oriunda toda a família de Alec, protagonizado por Oliver Jackson. Este engenheiro mecânico, com um negócio próprio à beira da falência, aceita o desafio de um tio, que promete resolver-lhe todos os problemas financeiros. E não sabe no que se mete...

No próximo ano, haverá mais uma obra de Paco Arango nas salas de cinema. O terceiro filme terminou-o há dois dias, conta. E sim, também será 100% solidário. E não, não será sobre cancro. "Depois destes dois filmes precisava de uma coisa diferente, de uma comédia." Foi então que surgiu Los Rodríguez y el Más Allá, mais ao menosOs Rodríguez e o Além. "Tudo começa com uma criança de 12 anos que vai ao sótão da família e encontra uma porta deixada pelo avô que morreu. Quando a criança abre a porta, a comédia começa para a família. Por ali entra-se para um outro planeta, de onde veio esse avô", conta soltando nova gargalhada.

Paco Arango diz-se um homem de fé, crente em Deus. A sua preocupação de há 17 anos mantém-na sempre presente, para fazer mais e mais. Pode assumir-se como "um louco", mas é um curandeiro.

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