"O RSI permitiu que as pessoas ciganas fossem à escola"

Cientistas, ativistas e mediadores debatem a realidade das comunidades ciganas em Portugal, no Brasil e em Espanha. Defendeu-se que, em Portugal, o Rendimento Social de Inserção foi "a grande medida" para integrar a comunidade.

"O Rendimento Social de Inserção (RSI) foi a grande medida do governo, que obrigou não só a comunidade cigana a mexer-se mas, principalmente, obrigou as instituições a integrar a comunidade. Trouxe uma grande mudança, principalmente à vida das mulheres ciganas", defendeu Sónia Matos, da direção da Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas (AMUCIP), no seminário internacional "Ciganos em Portugal, Espanha e Brasil". O debate começou esta segunda-feira e termina hoje, no ISCTE, em Lisboa.

A ativista e uma das cinco fundadoras da AMUCIP (2000) - "uma viúva e quatro solteiras" -. e explicou: "Até então, a mulher cigana tinha um objetivo, saber ler e escrever e sair da escola no 4.º ano, depois passava para a escola cigana: a feira e o cuidar da casa e dos filhos. Costumo dizer que o processo de integração na sociedade da mulher cigana é idêntico ao da mulher portuguesa em geral, só que com 40 anos de atraso".

O RSI, criado em 1996 como Rendimento Mínimo Garantido, serviu para Sónia Matos, e como ela outras raparigas, chegarem a casa e dizer : "Tenho este contrato e sou obrigada a ir à escola.". Por outro lado, "também obrigou as escolas a acolher os ciganos".

Sónia Matos falava no painel "Contextos, ação política e associativa", numa mesa com mulheres ativistas e da académia e um membro do governo brasileiro. Debate muito centrado em torno do papel da mulher cigana. E depois de ter sido dada voz aos mediadores ciganos, esta mesa composta por homens, "Contextos, participação e mediação" era a proposta de discussão e muitos foram os exemplos de discriminação que sofre quem é de etnia cigana,

Vinte e três anos depois da introdução do RSI, a maioria das crianças ciganas vai à escola, mas não progride nos estudos. "Não adianta dar o acesso quando não se garante o sucesso", defendeu Cátia Montes, bombeira e a terminar a licenciatura em Educação Social, uma das bolseiras do programa Opré Chavalé (erguei-vos jovens em romani). O mesmo sublinhou Piménio Ferreira, engenheiro físico, muito crítico da Academia pelos trabalhos realizados sobre a comunidade.

No entanto, há cada vez mais ciganos com o ensino superior, como é o caso de Piménio e, futuramente, de Cátia. E participam nestas iniciativas com voz própria e não precisam que alguém lhes dê voz, disse Mirna Montenegro, do Instituto das Comunidades Educativas, que começou a trabalhar com estas populações em 1992.

"O RSI permitiu, inadvertidamente, que as pessoas ciganas fossem à escola. Assisti a pequenas coisas, por exemplo, a ver como as meninas ciganas fingiam-se de parvas [não transitando de ano] para ficar mais tempo na escola, porque era um espaço de liberdade. Essas meninas são agora mulheres, têm filhos e metem os filhos nas creches, antigamente nem sequer iam para os jardins-de-infância. Essa mudança é das mulheres", sublinhou Mirna Montenegro.

Olga Magano e Manuela Mondes, do Centro de Investigação de Estudos de Sociologia (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa) e Jamilly Cunha e Renato Athias, da Universidade Federam de Pernambuco (Brasil) constituem a comissão organizadora dos seminário que termina esta terça-feira.

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