"Não abandonem a Susana"

Mais de 200 pessoas estiveram hoje no espetáculo solidário a favor de Susana Palma, a quem a vida trocou as voltas num segundo.

A sala do Teatro da Luz, em Lisboa, está cheia. Os amigos de Susana Palma, do Quarteto dos Três Irmãos, Paulo e Pedro dedicam-lhe uma canção. Pedro conta que foi no mar que se conheceram, que ficaram ainda mais amigos e que aprenderam a comunicar pelo olhar.

"Saí sem pressa, saí para ver o mar e para nele entrar. Quando o tempo voltar a parar. Silencio. E volto a mergulhar." Atrás deles, imagens de Susana a mergulhar nos mares dos Açores, na Graciosa, numa viagem há quatro anos com Pedro. Inevitavelmente, rostos que se enchem de lágrimas ou de sorrisos, mãos e olhares que se cruzam.

Foi assim o tempo todo, durante as mais de duas horas do espetáculo solidário para ajudar Susana Palma, organizado pela Associação Edificar a Esperança que os amigos criaram por ela e para ela e por outros que voluntariamente aderiram a esta causa. Foi um tempo em que houve também gargalhadas enquanto as filhas apresentavam o espetáculo, ou quando Pedro e Paulo subiam ao palco, houve palmas com o número de ballet de Ester Gonçalves, com as danças escocesas da amiga Catarina e com o fandango de Raquel. Luís Caracol cantou e uma amiga da plateia foi convidada a subir ao palco para cantar de improviso. E assim, ao longo do tempo, "ficámos todos com a Susana mais perto do coração", como diz Pedro.

Mas o momento, "o murro no estômago", como alguém comenta quase em surdina ao fundo da sala, ou a surpresa que fez algumas mãos irem direitinhas ao peito para suster a respiração, aconteceu no final, quando Pedro e Paulo anunciam que, para terem todos a Susana "perto da vista, perto do coração", ela estava ali. "Não posso", solta alguém. E de imediato a tentação foi bater palmas. Isso é que não, pedem os amigos. "Pode não ser aconselhado. Vamos todos aplaudir com as mãos levantadas." E assim foi. Susana entrou no palco do Teatro da Luz pelas mãos da filha mais velha, Inês. Olhou, de frente, para a plateia e aceitou as flores que Sofia, a mais nova, lhe deu. Um beijo, um abraço, e "parece que ela está a entender o que se passa", comentam também. Será que sim? Susana sai logo de seguida, a viagem até ao Hospital do Mar tem de ser feita e ela precisa de descansar.

Mais uma vez, choros, abraços e sorrisos. Pedro Vieira, o pai das filhas de Susana e um dos fundadores da associação, alertava antes no discurso de agradecimento, "a Susana é hoje uma outra pessoa e naturalmente a precisar mais de todos vós do que, se calhar, há um ano." Pedro mencionou um a um todos os que têm cuidado, apoiado e amado a Susana, e quem mais para fazer isso do que a mãe, ali presente, Dona Inácia. Mas, como sublinhou, o passado já lá vai. Agora é tempo do presente e do futuro. Portanto, há que não esquecer: "A Susana está numa maratona e o futuro é incerto. Não se sabe até onde pode ir, mas isso não nos atenua a determinação. Não abandonem a Susana."

A vida trocou as voltas a Susana Palma dois dias antes de fazer 41 anos, no dia 26 de agosto de 2017. Uma queda de um muro de três metros provocou-lhe um traumatismo cranioencefálico grave. Esteve em coma durante um mês. Saiu e resistiu a infeções respiratórias e pulmonares, a uma meningite e a encefalites. Sobreviveu, quando todos os médicos diziam aos amigos que "os exames são de morte e não de vida". Recuperou muito do ponto de vista motor, anda, "já corre alguma coisa", às vezes fala e os amigos acreditam que "um dia ela vai querer voltar para o nosso mundo e para as nossas vidas". O que aconteceu à Susana pode acontecer a qualquer um, mas se houver interajuda, se não se deixar ninguém para trás, como se faz na escalada, nas caminhadas, no mergulho, tudo será mais fácil.

A seguir a este espetáculo, outras ações se seguirão. A reabilitação da Susana tem custos elevados e os amigos continuam a acreditar que "um dia, sabe-se lá porquê, ela voltará..."

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