Médicos do Garcia de Orta ainda não têm escala para urgência pediátrica na sexta-feira à noite

A Comissão de Utentes da Saúde do Conselho do Seixal convocou uma conferência de imprensa, esta sexta-feira, à porta do hospital para alertar para o risco da urgência pediátrica encerrar alguns dias em abril durante a noite.

A administração do Hospital Garcia de Orta, em Almada, garantiu, esta quarta-feira, que não irá encerrar o serviço de urgência pediátrica em abril ao contrário da informação avançada na semana passada pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. No entanto, fontes do hospital revelaram ao DN que ainda não há escala para assegurar o turno da noite nas urgências pediátricas já esta sexta-feira, dia 10.

Só na última semana foram enviadas três escalas diferentes aos médicos que fazem urgência na pediatria e a última versão deste documento ainda não continha a equipa destacada para a próxima noite de sexta-feira. Em situação normal, os profissionais de saúde conhecem as escalas de urgência com um mês de antecedência.

Durante uma conferência de imprensa convocada pela Comissão de Utentes da Saúde do Conselho do Seixal, onde também estiveram presentes o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses e a Federação Nacional dos Médicos, a administração do hospital garantiu que o serviço tem mantido a "qualidade" mesmo funcionando a mínimos - neste momento, segundo a diretora clínica do hospital, Paula Breia na urgência pediátrica estão apenas três médicos - dois especialistas (por vezes de medicina geral) e um interno.

Três vagas ficaram por preencher no último concurso

Para fazer face à falta de pediatras, a administração do Garcia de Orta pretende contratar novos profissionais. Daniel Ferro, presidente do conselho de administração, declarou aos jornalistas que foram autorizados pelo menos três contratos no quadro permanente para maio e outros três ou quatro profissionais chegariam por concurso em agosto ou setembro.

No entanto, ainda há dois meses ficaram por preencher três vagas para pediatras no hospital, apesar de terem sido "identificados alguns candidatos interessados e que posteriormente não aceitaram", esclareceu o hospital ao DN na semana passada.Os médicos com quem o DN falou e que não quiseram ser identificados acreditam que há uma forte possibilidade de as vagas voltarem a ficar por preencher por considerarem que a oferta não é atrativa.

Na opinião destes profissionais os recursos humanos do hospital estão a ser desvalorizados. No último ano deixaram a unidade hospitalar nove pediatras, segundo a ministra da Saúde, Marta Temido, e estes não foram sendo substituídos, o que coloca uma pressão acrescida em quem fica.

Confrontado com a hipótese de também estes lugares poderem ficar vazios, Daniel Ferro diz que "a garantia vai ser maior. Quando o próximo concurso for lançado há perspetiva de que o serviço já tenha sido reforçado".

Sindicatos pedem melhores condições

Os representantes sindicais presentes esta quarta-feira à porta do hospital criticaram ferozmente as condições das urgências pediátricas. João Proença, presidente da Federação Nacional dos Médicos, apontou o dedo à administração por "não conseguir atrair nem fidelizar pessoas para trabalharem no hospital".

"No caso concreto da pediatria saíram entre sete a oito profissionais e foi aberto um concurso para três profissionais. Naturalmente que quem está no meio entende que saindo sete ou oito e abrindo um concurso para três, esses três iriam fazer o trabalho dos outros oito", lembrou José Lourenço, da comissão de utentes.

Para além de chamarem a atenção para a falta de pediatras, os sindicalistas exigiram melhores condições de trabalho com apoio técnico básico, melhores salários e a reabertura dos Serviços de Atendimento Permanente nos centros de saúde do concelho durante 24 horas para que a população "não seja obrigada a partir das 20:00 a dirigir-se à urgência do hospital", diz José Lourenço.

"Isto é a ponta do icebergue", refere Teresa Faria do Sindicato Nacional dos Enfermeiros. "Não haver admissão de mais profissionais e a forma como somos reconhecidos coloca em causa o nosso Serviço Nacional de Saúde. Não nos esqueçamos de que nós somos a cara, o coração e o profissionalismo frente ao utente, somos nós que estamos lá e não somos reconhecidos. O que tem vindo a acontecer é que todo este desinvestimento leva as pessoas a entrarem em bornout", acrescenta.