Homens são julgados pelo potencial, mulheres só por provas dadas

Estudo desenvolvido pela Web Summit mostra que ainda há um longo caminho a percorrer no que respeita às mulheres na tecnologia.

A realidade está a melhorar, mas ainda há muito poucas mulheres nas áreas tecnológicas e as que existem têm de sobreviver ao preconceito: os homens são avaliados pelo seu potencial, as mulheres só contam se já tiverem trabalho feito que fale por elas, garantem oradoras, investidoras, empresárias e outras mulheres questionadas no âmbito da Web Summit.

As questões da igualdade têm estado particularmente presentes nesta edição, sobretudo depois de uma fotografia da comunidade portuguesa de startups ter revelado a quase inexistência de mulheres nesta área. A Web Summit promoveu este inquérito e o DN questionou especialistas sobre a falta de mulheres na tecnologia. As respostas, bem interessantes, estão aqui:

Quanto ao estudo promovido pela organização do evento, revelou que mais de um terço das mulheres inquiridas admite que no último ano o desequilíbrio de sexos se atenuou, mas quando são cargos de liderança que estão em causa, não chegou ainda essa realidade (só 17% consideram haver melhorias recentes). E se a maioria se sente respeitada e confiante nas suas funções (74%), sobretudo graças a esse maior equilíbrio entre mulheres e homens e a uma cultura mais saudável no que respeita à igualdade nessas empresas, há quem assuma que essa confiança resulta em grande parte do facto de "não ligar o que os outros pensam e simplesmente trabalhar no duro".

Seja como for, há hoje uma maior disponibilidade e assertividade, que permite às mulheres em áreas tecnológicas seguirem o impulso de tentar chegar ao topo (75% atestam-no). "As coisas parecem estar a mudar, mesmo porque há cada vez mais eventos, iniciativas e encontros com o foco de empoderar as mulheres no setor digital", sublinham, ainda que um terço das inquiridas acredite que as mulheres chegam maioritariamente à liderança pela necessidade de cumprimento de quotas.

Apesar desses sinais positivos, mais de metade (61%) ainda consideram que têm de se esforçar muito mais do que os homens para chegar ao mesmo lugar -- e as opiniões dividem-se no que respeita a serem tratadas da mesma forma que os colegas e à igualdade de salários -- e a maioria acredita que tem mesmo de ter provas dadas. "Os homens são avaliados com base no potencial, no que podem atingir, as mulheres só contam depois de terem trabalho feito", houve mesmo quem afirmasse. O que encontra justificação num preconceito que ainda existe de que os homens são mais competentes e "as mulheres mais emotivas e propícias a dar mais opiniões do que resultados". Há ainda o fator maternidade a somar a esta equação, que funciona contra as mulheres: as empresas não se desligam do custo de as suas colaboradoras quererem ser mães e os governos não fazem o suficiente para colmatar essa falha, garantem as inquiridas no estudo da Web Summit.

Licenças iguais para mãe e pai, educação para a igualdade e imposição de quotas são alguns dos caminhos apontados para desfazer este tipo de preconceitos. "Precisamos de mudar mentalidades" e isso faz-se através da educação, do conhecimento e do "empoderamento de filhas pelos pais, de mulheres por outras mulheres", afirmou uma das colaboradoras do estudo. "Se continuamos a encorajar as miúdas a brincar com bonecas e os miúdos com gadgets, como podemos esperar que a imagem que têm da sociedade se altere", questionou outra.

Por fim, houve quem concluísse que é absolutamente necessário mudar a cultura tecnológica se o que se quer é atrair mais mulheres a esta área. "A maioria de nós não se sente atraída pela cultura tipicamente associada às tecnológicas e é por essa razão que se afastam e não tentam chegar ao topo, optando antes por áreas menos agressivas ou competitivas."

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