Google volta à China e na mala leva a censura?

Expressões como direitos humanos, democracia ou religião poderão ficar de fora no regresso da empresa à China.

A Google está a desenvolver uma versão do seu motor de busca para ser utilizada na China, permitindo a censura, segundo uma investigação do site de notícias The Intercept. A Reuters confirmou a notícia junto de duas fontes na Google. Ainda não houve, no entanto, reação oficial: o porta-voz da empresa, Taj Meadows, disse à agência de notícias France-Presse que não comentaria " a especulação sobre planos futuros".

O gigante da internet saiu da China em 2010 evocando falta de liberdade de expressão. Em 2019, pode voltar com filtros aprovados pelo governo, de acordo com o site The Intercept. O plano já está a ser criticado por organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional e mesmo por empregados da Google. Um funcionário disse à Reuters que se transferiu da unidade em que trabalhava para evitar estar envolvido no projeto e outro disse à AFP que "algumas pessoas estão muito zangadas".

O projeto, com o nome de Dragonfly, bloqueará termos como direitos humanos, democracia ou religião. O protótipo estará pronto nos próximos seis a nove meses e o acesso é feito através de uma aplicação móvel, refere ​​​​​a reportagem que revela documentos confidenciais fornecidos por alguém conhecedor do alegado plano.

Como irá funcionar? O motor de busca identifica e filtra de forma automática os conteúdos (texto ou imagens) que estejam bloqueados pelo sistema que censura milhares de páginas web na China, conhecido como Grande Firewall. A Wikipédia e a BBC estão entre os exemplos das páginas filtradas.

O The Intercept conta ainda que o diretor executivo da Google, Sundar Pichai, encontrou-se com Wang Huning, uma figura importante do Partido Comunista Chinês, em dezembro de 2017. Nesta altura o projeto já estava a ser desenvolvido há uns meses.

Na China, o jornal Securities Daily, um órgão de comunicação estatal, cita um representante do governo que afirma que o regresso do Google não está confirmado. Admite que tem havido contactos entre o país e a empresa mas não foi feito nenhum acordo.

A Google saiu da China em 2010 quando políticos norte-americanos começaram a acusar a empresa de se aliar à censura do regime chinês. Na altura, o cofundador da Google, Sergey Brin, justificou a decisão com a vontade de tornar o Google uma rede mais aberta.

No entanto, em 2016, o diretor executivo da empresa, Sundar Pichai, declarou numa conferência que o "Google é para toda a gente" e que a gigante quer "estar nos servidores dos utilizadores chineses".

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.