Facebook Dating ainda não chegou e já causa impacto

Ainda em construção, a secção para relações amorosas que o Facebook vai lançar está a causar impacto dentro e fora da rede social

Um terço dos casais em divórcio no Reino Unido cita o Facebook como causa para a separação e há estudos a apontar para a influência negativa da rede social nas relações amorosas. Ciúmes, utilização excessiva do parceiro e descoberta de traições são alguns dos efeitos apontados com frequência. O que o Facebook não tentou fazer até agora foi precisamente o contrário: dar aos utilizadores ferramentas próprias para encontrarem o amor.

Isso mudará este ano, quando a rede social lançar na sua aplicação móvel uma secção dedicada aos encontros amorosos denominada "Facebook Dating."

Depois do anúncio, feito pelo CEO Mark Zuckerberg no evento anual F8, produziram-se efeitos colaterais inesperados. A secção de relacionamentos amorosos ainda está a ser construída, mas a firma de investigação Trustify já começou a notar um aumento súbito do volume de casos com perfis falsos que tentam seduzir utilizadores no Facebook. São tentativas de "catfish", expressão inglesa que denomina casos em que alguém constrói um perfil falso online com o propósito de envolver uma vítima num relacionamento amoroso. Nem sempre a intenção é financeira, mas a Trustify calcula que fraudes deste género tenham custado mais de 5 milhões de dólares às pessoas que caíram no engodo durante os últimos três anos.

O outro efeito que o anúncio do Facebook Dating causou foi na futura concorrência. O Match Group, que opera diversas apps de encontros - incluindo Tinder e Match.com - teve inicialmente de lidar com o nervosismo dos investidores perante a perspetiva de perda de negócio com a secção gratuita do Facebook. Agora, está a tomar iniciativas para se precaver. O grupo acaba de anunciar a compra de uma posição maioritária (51%) na aplicação Hinge, que se foca nos Millennials como mercado-alvo e promove relacionamentos de longa duração. É mais uma peça a juntar-se ao puzzle que já inclui Tinder, Match, OkCupid, Meetic e OurTime. Todos têm alvos diferentes e bem definidos, o que espelha a intenção do grupo de ter uma oferta que abranja todos os públicos antes do Facebook entrar em cena.

Efeitos sociais são uma questão em aberto

O impacto das redes sociais na forma como as pessoas se relacionam vem sendo estudado com resultados diferentes. Por um lado, o súbito acesso a fontes inesgotáveis de potenciais parceiros tornou mais fácil relações casuais e colocou um travão nos rituais tradicionais de encontros. A Vanity Fair chamou-lhe "o apocalipse dos encontros", em especial na faixa etária dos 20 aos 30. Um estudo do Kinsey Institute, assinado pelo diretor de pesquisa Justin R. Garcia e publicado na Review of General Psychology, descobriu que a maioria dos estudantes universitários tem mais relações casuais ("hookups") que encontros; atividades como ir ao cinema, jantar ou beber café antes de passar ao sexo tornaram-se muito menos frequentes. O efeito da entrada do Facebook neste espaço é ainda imprevisível.

"O que nós sabemos em termos de investigação é que a questão não é tecnológica, a questão é das pessoas, que usam a tecnologia que estiver à sua disposição para os fins que elas pretendem", explica ao DN o sociólogo e professor catedrático do ISCTE-IUL Gustavo Cardoso. "O Facebook nem faz com que as pessoas se aproximem mais nem que se afastem. Tudo depende do objetivo que têm quando fazem utilização dele."

A diferença aqui será a escala. Até agora, nenhum site ou app de encontros tinha tido acesso a uma base de utilizadores ativos tão grande: 2,2 mil milhões de pessoas. É isso que aponta Luís Santos, professor e membro do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. "A escala é muito relevante no caso do Facebook. Se eu olhar para o meu bairro, os utilizadores de Tinder serão poucos; mas de Facebook são quase as ruas todas." Isto significa que o potencial de aumento da rede de relacionamentos é grande, mas também poderá gerar situações bizarras, como encontrar lá o vizinho que é casado. "Vai induzir novos curto-circuitos de relacionamento mas também algumas reavaliações de perceções pessoais que temos uns sobre os outros, principalmente em áreas de proximidade geográfica."

Há ainda que considerar aspetos positivos, visto que os estudos sobre a matéria também os apontam. Os investigadores Josue Ortega da Universidade de Essex e Philipp Hergovich da Universidade de Viena, por exemplo, publicaram em setembro passado uma pesquisa com resultados surpreendentes: os sites e apps de encontros estão ligados a um aumento do número de casais interraciais e melhor integração social. "Costumávamos casar com pessoas a quem estávamos de certa forma conectados", dizem os investigadores, por exemplo amigos de amigos, colegas de escola ou vizinhos. Os encontros online, dizem, modificaram este padrão e introduziram maior diversidade nas relações.

Como funciona

O Facebook Dating será uma secção disponível no canto superior direito do ecrã dentro da rede social. Cada pessoa terá de construir um perfil separado da sua cronologia, que não será mostrado aos amigos. O utilizador pode então navegar na página de exploração de eventos na sua cidade e grupos relacionados com os seus interesses. Se encontrar algum que lhe agrade, tem de "desbloquear" o seu perfil para se tornar visível aos outros membros do grupo ou participantes nos eventos. Para enviar mensagens iniciais a potenciais parceiros, deve comentar algo sobre uma das características dispostas no perfil. As mensagens são só de texto e não estão ligadas ao Messenger nem ao WhatsApp. Tudo é "opt-in."

Este design é mais parecido com o da aplicação Hinge, que o Match acaba de adquirir, que com o Tinder ou Bumble, visto que o utilizador não desliza para a esquerda ou para a direita conforme as fotos lhe agradam e não é levado a uma página de perfis sem contexto. Tudo porque Mark Zuckerberg não pretende que o Facebook Dating seja uma forma de arranjar mais parceiros sexuais, e sim uma porta de entrada em relacionamentos duradouros.

Tinder vs Facebook

Essa é uma distinção importante perante o Tinder, onde a descoberta de potenciais parceiros é muito mais rápida e dá menos trabalho. Em Portugal, o ISCTE está a estudar o impacto do Tinder através de uma investigação da autoria de Rita Sepúlveda, com orientação de Gustavo Cardoso. "Embora não tenhamos resultados, há uma coisa que parece evidente: a cultura europeia do sul de construção de relacionamentos é diferente da cultura anglo-saxónica", refere o professor. "As coisas não funcionam da mesma maneira, embora a tecnologia seja a mesma." A utilização do Tinder é vista de forma negativa, como último recurso ou apenas para relações casuais, pelo que o Facebook "vai tentar ultrapassar essa questão cultural" posicionando-se nos relacionamentos "sérios."

Luís Santos também aborda esta temática. "É engraçado como estas empresas de tecnologia parecem estar a vender-nos espaços que são completamente anódinos do ponto de vista moral, mas as suas perceções são carregadas de moral. O outro dating também não é sério?", questiona. "A própria forma como a coisa está concebida é no sentido de poder criar uma segunda persona no Facebook, com detalhes diferenciados - mas é "sério'. Diria que eles também pensaram isso sobre a disseminação de informação na plataforma. É tudo muito incontrolável", conclui.

A parte negativa, considera Gustavo Cardoso, prende-se com o modelo comercial. "Vamos ter anúncios também e isso é negativo porque vai dar mais presença do Facebook nas nossas vidas e cria ainda maior probabilidade de monopólio nos relacionamentos", explica. "O Facebook e outras empresas assim são grandes demais e não têm suficiente controlo sobre as coisas que fazem."

Acresce ainda a questão da privacidade, até porque o Facebook ainda está a recuperar de sucessivos escândalos. A CEO do Match Group, Mandy Ginsberg, referiu essa questão ao reagir à novidade. "É lisonjeiro que o Facebook esteja a entrar no nosso espaço e veja a oportunidade global que nós vemos, numa altura em que o Tinder está em grande crescimento", comentou. "Estamos surpreendidos com o momento, dada a quantidade de dados pessoais e sensíveis que fazem parte deste território." Ginsberg disse que a sua empresa "entende esta categoria melhor do que ninguém" e que a entrada do Facebook será... revigorante.

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