Existem menos lugares em creches para crianças até aos três anos

Queda de lugares nos privados não foi compensada pela oferta pública e de cooperação.

Apenas metade dos bebés até aos três anos tem lugar numa creche, com as vagas a diminuírem este ano, contrariando uma tendência das últimas décadas. Em 2016, segundo dados da Carta Social do gabinete de estratégia e planeamento do ministério da Segurança Social, existiam cerca de 118 mil vagas, sendo que em abril deste ano a capacidade é de pouco mais de 114 mil.

Os dados mais recentes são esta segunda-feira avançados pelo Jornal de Notícias e explicam também que a queda dos privados não foi compensada pelas instituições que têm acordos de cooperação com o Estado. Havendo este ano 87247 vagas em lugares com acordos de cooperação (em 2016 eram 74340), existe uma queda de 16799 vagas nos privados: de 43660 para 26861.

Desde 2009, terão também fechado cerca de 26% dos associados da ACPEEP (Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular). Assim, a taxa de cobertura mantém-se nos 50%, explica o mesmo jornal, para crianças até aos 3 anos. E segundo Manuela Silva, da associação, em declarações ao JN, o fecho dos privados deixou pais sem qualquer alternativa em alguns concelhos. Acrescenta que os preços praticados eram semelhantes aos das instituições particulares de solidariedade social (IPSS), que são na sua maioria as instituições que têm vagas apoiadas pelo Estado.

Refere ainda o JN que o Ministério do Trabalho e da Segurança Social afirma que foram lançadas candidaturas para novos projetos, no valor de 3,3 milhões de euros, e que reforçou ainda a oferta com contratos de cooperação para que fossem criados três mil lugares entre 2016 e 2018.

Mais de 1500 crianças de 4 anos sem lugar no pré-escolar só em Lisboa

Está determinado por lei a universalidade do pré-escolar a partir dos 4 anos, desde 2015, mas, só em Lisboa, as crianças que não têm lugar na rede pública são cerca de 1600, como escreveu o DN no início de agosto.

Com pais à espera de vagas, o Ministério da Educação admitiu na altura a abertura de mais salas até setembro: "Da mesma forma que aconteceu nos últimos dois anos letivos em que existiu a abertura de 170 novas salas, irão abrir-se neste ano novas salas de pré-escolar na rede do Ministério da Educação em colaboração com as autarquias, para acautelar as necessidades na procura".

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.