Especialistas respondem. É uma violência obrigar uma criança a dar beijos aos avós?

A opinião do professor universitário Daniel Cardoso no programa Prós e Contras, da RTP1, suscitou a discussão e gerou uma chuva de críticas e acusações nas redes sociais. Especialistas ouvidos pelo DN afirmam que se deve respeitar a vontade da criança. Mas não falam em violência

Não é raro ver pais a insistirem com os filhos para darem beijinhos aos avós. O tema foi levado ao programa Prós e Contras, da RTP1, na segunda-feira, 15 de outubro, pelo professor universitário Daniel Cardoso, cuja opinião gerou controvérsia.

"É preciso falar de educação de forma concreta. A educação é quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho. Isto é educação, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças. Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce. E o que acontece? Depois vemos os estudos e quarenta e tal por cento deles e delas acham natural que o namorado lhes controle o telemóvel", disse o doutorado em Ciências da Comunicação.

A onda de críticas não se fez esperar, com acusações e discursos de ódio a "invadirem" as redes sociais.

Mas será que obrigar as crianças a cumprimentar os avós com beijinhos é uma violência? Para a pedopsiquiatra Paula Oliveira trata-se de respeitar a vontade da criança sem confundir este tipo de situação com sendo uma violência. Trata-se de "educar".

"As crianças devem aprender que quando encontram alguém devem dizer boa tarde, boa noite, há um cumprimento. Se é com beijinho ou não depende do hábito da família. Normalmente dentro da família as crianças dão beijinhos naturalmente, não é preciso forçar. Quando elas não dão é porque eventualmente não gostam daquela pessoa. Quando dentro da família não dão é por alguma razão e então não se deve forçar e deve-se respeitar", explica ao DN a pedopsiquiatra do serviço de psiquiatria da infância e da adolescência do hospital de Beatriz Ângelo, em Loures. "As crianças não estão a ser violentadas. Qual é a reação das crianças? Quando muito ficam irritadas. Dizem: 'não quero'. E aí respeita-se", reforça.

"Vivemos numa cultura em que o beijinho faz parte dos nossos cumprimentos"

Não viu o programa da RTP, mas como pedopsquiatra tem uma opinião perante as afirmações do professor universitário. "Não sei quem é o doutor Daniel Cardoso e nem sei a que título ele é convidado nem qual a sua formação sobre desenvolvimento infantil", ressalva para considerar que "as crianças devem ser educadas a serem bem-educadas".

"Nós vivemos numa cultura em que o beijinho faz parte dos nossos cumprimentos. O beijinho aos avós é uma coisa natural, estamos a falar de beijinhos dentro da família e nomeadamente aos avós que são personagens importantes na vida das crianças", defende e dá um exemplo. "Quando os meus [netos] vêm a correr dar-me um beijinho, isto é o normal. É o que se passa quando as coisas correm bem nas famílias. As crianças gostam de dar beijinhos aos avós".

Mas nem sempre é assim. Com o crescimento, os comportamentos alteram-se, bem como a forma de se relacionar com os outros. "A partir de uma certa idade as crianças começam a ter pudor e a não querer grandes intimidades, nomeadamente contactos físicos, e devemos respeitar. Mas isso são coisas completamente diferentes. Acho muito mais importante que se eduque as crianças ou que se ensine a serem educadas, a cumprimentar as pessoas, sejam os avós ou outras pessoas. Porque são regras que fazem parte da vida em sociedade. Se o cumprimento é com beijinho ou não depende muito das culturas", sublinha a pedopsiquiatra.

Um comportamento que tem a ver com as culturas, mas também está relacionado com as "relações familiares e os códigos de cada família, as características de cada criança e o modo como trocam afetos", considera a psicóloga Patrícia Dâmaso.

"Na minha opinião, o que é mais correto em termos de liberdade e proteção da autodeterminação na criança é respeitar e modelar o seu comportamento de acordo com o que são os códigos familiares", defende a médica do serviço de psiquiatria da infância e da adolescência do hospital de Beatriz Ângelo.

Os pais não são "agressores ao insistirem"

Tal como a pedopsiquiatra, Patrícia Dâmaso considera que nesta matéria não se deve confundir com um ato de violência dos pais perante a recusa dos filhos. "Deve-se respeitar a vontade da criança em não querer cumprimentar com beijinhos. Mas isso não pressupõe que os pais sejam agressores ao insistirem. É preciso bom senso", afirma. Até porque "as crianças não se comportam todas da mesma forma e não entendem os códigos sociais da mesma forma", diz.

Tendo em conta a recusa da criança em querer o contacto físico com os familiares, o que se deve fazer, além de respeitar é, enquanto "educadores e pais", "modelar o comportamento", defende a psicóloga. "Modelar é ensinar como se fazer de uma forma construtiva explicando o que são círculos de intimidade e quem se pode ou não cumprimentar de determinado modo", esclarece Patrícia Dâmaso.

Para a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos o facto de os pais insistirem no beijinho aos avós é algo que "faz parte dos modelos educacionais da nossa sociedade, das relações das pessoas".

Considera, no entanto, que a "forma como o professor Daniel Cardoso se expressou e contextualizou a questão não foram os mais adequados". "Não foram os mais corretos para mim", considera. E explica: "Como pedopsiquiatra, considero que não se pode, na qualidade de um professor universitário infantilizar a linguagem e generalizar conceitos que envolvem as características infantis quando se fala, na televisão, de relações de afetividade profunda da criança, como são as relações entre netos e avós pois pode criar, pelo menos, mal entendidos e equívocos em relação a assuntos tão importantes como é a expressão dos afetos".

Compreender as razões da criança

Ana Vasconcelos considera igualmente que "não se pode, cientificamente, extrapolar relações de afetividade da criança com familiares próximos para relações na adolescência que envolvem relações amorosas e de intimidade completamente distintas". Afirma que se deve, sobretudo, compreender a criança: "Como pedopsiquiatra, sei que muitas vezes as crianças se recusam a cumprimentar os familiares adultos, e, se os pais as obrigam, a criança pode sentir-se violentada na sua liberdade de dar afeto a quem quer. Mas esta situação, que não é habitual na criança, mais do que levar os pais a obrigarem a criança a cumprimentar com um beijo ou a receber o beijo do adulto, deve levar os pais a falar com a criança para tentar compreender as razões da criança".

Segundo a pedopsiquiatra este pode ser apenas "um comportamento pontual", mas pode também significar "algum mal-estar que a criança sente ao beijar ou a ser beijada por um adulto". "Há crianças que têm dificuldades nas suas relações intersubjetivas, principalmente, quando se sentem expostas ao olhar dos adultos ou dos pares", explica.

Ana Vasconcelos afirma, porém, que uma "criança que se recusa a beijar os avós pode ter dificuldades nas suas relações de empatia que podem, mais tarde, como associou o professor Daniel Cardoso, originar, na adolescência e nas relações amorosas, comportamentos de passividade e de sujeição. Mas não se pode associar recusa a dar um beijo ao avô ou a avó com comportamentos amorosos de 'servidão voluntária'".

Por sua vez, Paula Oliveira considera que a situação de obrigar a criança a beijar os avós "não é traumático, na maior parte dos casos".

"Toda a gente passou por situações em que não quis dar beijinhos a alguém e os pais insistiram. À partida numa família saudável, numa criança saudável não há riscos", defende a pedopsiquiatra. O caso muda de figura quando há outros problemas associados. "Se uma criança não estiver bem, se já houver ali outro tipo de situações, de problemas, de sintomas e se sistematicamente perante uma determinada pessoa a criança ficar crispada, tensa, aí é diferente. Até pode aceitar dar o beijinho, mas há uma tensão. Aí poderá eventualmente haver outras coisas por trás e os pais devem compreender as crianças nestas situações fora do normal, porque a criança à medida que cresce é natural não gostar muito de dar beijinhos. Há uma certa recusa que é normal".

A especialista alerta igualmente para a tentação de se cair no exagero em relação à análise dos comportamentos. "Acho é que com todas estas notícias estamos sempre a pensar em assédio, em abuso...Por vezes caímos no ridículo. Depois o que acontece é que uma pessoa, e se sobretudo for um homem, às tantas já não se atreve a dar um abraço a uma criança porque as pessoas ficam com medo", exemplifica. "Há aqui um aspeto importante que é: Nós somos de uma cultura de beijinho em Portugal, há outras que não são. Não me consta que tenhamos mais abusos sexuais do que outras culturas", afirma Paula Oliveira.

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