"É uma injeção para elefantes". Medicamento genérico para cancro da mama retirado do mercado

Problemas relacionados com a administração das injeções levaram o Infarmed a suspender a comercialização do genérico usado no tratamento do cancro da mama. Foram registadas 164 queixas e já havia doentes a recusar receber o fármaco.

Além dos tratamentos de quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia, há três anos que Paula Marafona, de 41 anos, recebe uma injeção por mês para tratamento de um cancro na mama, diagnosticado em 2015. Trata-se de um implante injetado com uma agulha grossa, na zona do abdómen. Há três meses, conta ao DN, o medicamento que habitualmente era usado - o Zoladex - "foi substituído por um genérico", o que provocava nos doentes "efeitos secundários muito mais dolorosos e em alguns casos insuportáveis até". Após mais de uma centena e meia de queixas de doentes, o Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde) determinou a "suspensão imediata da comercialização e recolha" dos lotes deste medicamento.

Na circular publicada esta semana, o Infarmed explica que "devido à ocorrência de notificações de dificuldade na administração dos medicamentos Goserrelina Teva, 3,6 mg, implante em seringa pré-cheia e Goserrelina Teva LA, 10,8 mg, implante em seringa pré-cheia", ambos foram suspensos. "As entidades que disponham destes lotes em stock não os poderão dispensar, vender ou administrar, devendo proceder à sua devolução", lê-se na mesma nota.

Contactado pelo DN, o Infarmed adianta que foram identificados "164 casos" relativos a este medicamento genérico, autorizado no final de 2015 e comercializado desde dezembro de 2017. No que diz respeito ao dispositivo, as queixas prendiam-se sobretudo com "dor no local da administração, dor após a injeção, 'expulsão' do implante, dor na aplicação, 'expulsão' do dispositivo e dificuldades na inserção do dispositivo".

A notícia sobre a recolha dos lotes foi recebida com satisfação pelos doentes que nos últimos meses recebiam esta injeção. Ao DN, Paula Marafona explica que "a administração era muito mais dolorosa, porque era feita com uma agulha extremamente grossa e tinha de ser num determinado ângulo". Além disso, explica, primeiro tinha de ser introduzida a agulha na pele e só depois aplicado o dispositivo. "O processo demorava muito mais tempo e era mesmo muito mais doloroso. Com o outro dispositivo, não se sente quase nada".

Por outro lado, conta, as doentes queixavam-se de efeitos secundários adversos "como dores extremas nas articulações, cansaço, comichão no local da injeção, enjoos, dores de cabeça". Segundo Paula, "era como se fosse uma quimio", que provocava um "mal-estar geral".

Nos últimos meses, terão surgido muitas queixas relacionadas com este fármaco. "Não temos de sofrer desta maneira. Temos cancro da mama e ainda temos de ser quase cobaias de um tratamento porque é mais barato", lamenta.

Esta quinta-feira, Paula dirigiu-se ao hospital onde deveria receber a tal injeção, mas o Zoladex voltou a estar disponível. "Se fosse a outra, ia recusar. Fazia todo o sentido. E era uma forma de estar solidária com quem tinha efeitos secundários muito adversos".

"Tudo neste fármaco é agressivo"

Margarida Rocha, doente oncológica e autora da página Laços, publicou na internet a reclamação enviada para o Infarmed em agosto: "Tudo neste fármaco é agressivo, desde a forma como é implantado [...] aos seus efeitos adjacentes! Em modo de brincadeira costumo dizer, que é uma injeção de cavalo!! No entanto, acharam por bem passarem a ministrar o mesmo fármaco, mas de um laboratório diferente. Ora este último laboratório, Teva, acha pouco tudo a que ele induz, elevando a fasquia da grossura da agulha que permite a introdução subcutânea do implante farmacológico. Digamos, atualmente que é uma injeção para elefantes... a que se deve tal mudança que se traduz num padrão álgico acrescido?"

Na mesma publicação, Margarida, de 29 anos, contou que "pela primeira vez, após quatro dezenas de injeções", a pele ainda não tinha cicatrizado. "Sangrei pelo local durante dois dias, acrescido ainda por episódio de exsudação local (nunca antes vivenciado como consequência do dispositivo farmacológico anterior)", referiu. Posteriormente, a doente conta que chegou mesmo a recusar o tratamento com o referido fármaco.

Com a retirada do Goserrelina Teva do mercado, as doentes voltaram a receber o Zoladex, que consideram igualmente invasivo, mas menos agressivo.

"O meu cancro da mama é hormonodependente. Não posso ter ovulação nem menstruação. Este fármaco impede esse processo", explica Paula Marafona .